A Conquista do Pão: O Salariato Coletivista III A Conquista do Pão: Tradução Literunico · Capítulo 42 de 55
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A Conquista do Pão: O Salariato Coletivista III

Dissemos que certos escritores coletivistas pedem que se estabeleça uma distinção entre o trabalho qualificado ou profissional e o trabalho simples. Pretendem que a hora de trabalho do engenheiro, do arquiteto ou do médico deve ser contada como duas ou três horas de trabalho do ferreiro, do pedreiro ou da enfermeira. A mesma distinção, dizem eles, deve ser feita entre toda espécie de ofício que exija uma aprendizagem mais ou menos longa e os ofícios dos simples diaristas. Pois bem, estabelecer essa distinção é manter todas as desigualdades da sociedade atual. É traçar de antemão uma demarcação entre os trabalhadores e aqueles que pretendem governá-los. É dividir a sociedade em duas classes bem distintas: a aristocracia do saber acima da plebe dos braços calejados, uma votada ao serviço da outra, uma trabalhando com os braços para alimentar e vestir aqueles que aproveitam seus lazeres a fim de aprender a dominar seus nutridores.

É mais ainda: é retomar um dos traços distintivos da sociedade atual e dar-lhe a sanção da Revolução social. É erigir em princípio um abuso que hoje se condena na velha sociedade que desmorona. Sabemos o que nos responderão. Falarão de socialismo científico. Citarão os economistas burgueses, e Marx também, para demonstrar que a escala dos salários tem sua razão de ser, já que a força de trabalho do engenheiro terá custado mais à sociedade que a força de trabalho do terraplenador. Com efeito, os economistas não procuraram provar-nos que, se o engenheiro é pago vinte vezes mais que o terraplenador, isso ocorre porque as despesas necessárias para formar um engenheiro são mais consideráveis que aquelas necessárias para formar um terraplenador? E Marx não pretendeu que a mesma distinção é igualmente lógica entre diversos ramos do trabalho manual? Devia concluir assim, pois retomara por sua conta a teoria de Ricardo sobre o valor e sustentara que os produtos se trocam em proporção à quantidade de trabalho socialmente necessária à sua produção.

Sabemos também a que nos ater sobre esse ponto. Sabemos que, se o engenheiro, o sábio e o médico são hoje pagos dez ou cem vezes mais que o trabalhador, e se o tecelão ganha três vezes mais que o agricultor e dez vezes mais que a operária de uma fábrica de fósforos, isso não se dá em razão de suas despesas de produção. Dá-se em razão de um monopólio de educação ou do monopólio da indústria. O engenheiro, o sábio e o médico exploram simplesmente um capital, seu diploma, como o burguês explora uma fábrica, ou como o nobre explorava seus títulos de nascimento. Quanto ao patrão que paga o engenheiro vinte vezes mais que o trabalhador, age em razão deste cálculo muito simples: se o engenheiro pode economizar-lhe cem mil francos por ano na produção, ele lhe paga vinte mil. E se vê um contramestre hábil em fazer os operários suarem, capaz de economizar dez mil francos na mão de obra, apressa-se em dar-lhe dois ou três mil francos por ano. Solta mil francos a mais onde espera ganhar dez mil, e aí está a essência do regime capitalista. Acontece o mesmo com as diferenças entre os diversos ofícios manuais.

Que não venham, portanto, falar-nos das despesas de produção que custa a força de trabalho, nem dizer-nos que um estudante que passou alegremente a juventude na universidade tem direito a um salário dez vezes mais elevado que o filho do mineiro, extenuado na mina desde os onze anos, ou que um tecelão tem direito a salário três ou quatro vezes mais elevado que o do agricultor. As despesas necessárias para produzir um tecelão não são quatro vezes mais consideráveis que as despesas necessárias para produzir um camponês. O tecelão beneficia-se simplesmente das vantagens em que a indústria está colocada na Europa, em relação aos países que ainda não têm indústria. Ninguém jamais calculou essas despesas de produção. E se um ocioso custa muito mais à sociedade que um trabalhador, resta ainda saber se, tudo contado, mortalidade dos filhos de operários, anemia que os rói e mortes prematuras, um robusto diarista não custa mais à sociedade que um artesão.

Querem nos fazer crer, por exemplo, que o salário de trinta soldos pago à operária parisiense, os seis soldos da camponesa de Auvergne que perde a vista nas rendas, ou os quarenta soldos por dia do camponês representam suas despesas de produção? Sabemos muito bem que se trabalha muitas vezes por menos que isso, e também sabemos que isso se faz exclusivamente porque, graças à nossa soberba organização, é preciso morrer de fome sem esses salários irrisórios. Para nós, a escala dos salários é um produto muito complexo dos impostos, da tutela governamental, do açambarcamento capitalista, do monopólio, do Estado e do Capital em uma palavra. Por isso dizemos que todas as teorias sobre a escala dos salários foram inventadas depois do fato para justificar as injustiças existentes atualmente, e que não temos de levá-las em conta.

Não deixarão de nos dizer também que a escala coletivista dos salários seria, apesar de tudo, um progresso. "Será melhor", dirão, "ver certos operários receberem uma soma duas ou três vezes superior à do comum do que ver ministros embolsarem em um dia aquilo que o trabalhador não consegue ganhar em um ano. Seria sempre um passo em direção à igualdade." Para nós, esse passo seria um progresso às avessas. Introduzir em uma sociedade nova a distinção entre trabalho simples e trabalho profissional levaria, como dissemos, a fazer a Revolução sancionar e erigir em princípio um fato brutal que suportamos hoje, embora o achemos injusto. Seria imitar aqueles senhores de 4 de agosto de 1789, que proclamavam a abolição dos direitos feudais com frases de efeito, e no dia 8 de agosto sancionavam esses mesmos direitos impondo aos camponeses prestações para resgatá-los dos senhores, que punham sob a salvaguarda da Revolução. Seria ainda imitar o governo russo, proclamando, no momento da emancipação dos servos, que a terra pertenceria dali em diante aos senhores, quando antes era um abuso dispor das terras pertencentes aos servos.

Ou, para tomar um exemplo mais conhecido: quando a Comuna de 1871 decidiu pagar aos membros do Conselho da Comuna quinze francos por dia, enquanto os federados nas muralhas recebiam apenas trinta soldos, essa decisão foi aclamada como um ato de alta democracia igualitária. Na realidade, a Comuna apenas ratificava a velha desigualdade entre o funcionário e o soldado, o governo e o governado. Da parte de uma câmara oportunista, semelhante decisão poderia parecer admirável. A Comuna, entretanto, faltava assim a seu princípio revolucionário e, por isso mesmo, o condenava. Na sociedade atual, quando vemos um ministro pagar-se cem mil francos por ano, enquanto o trabalhador deve contentar-se com mil, ou menos, quando vemos o contramestre pago duas ou três vezes mais que o operário, e entre os próprios operários todas as gradações, desde dez francos por dia até os seis soldos da camponesa, desaprovamos o salário elevado do ministro e igualmente a diferença entre os dez francos do operário e os seis soldos da pobre mulher.

Dizemos: abaixo os privilégios da educação, assim como os do nascimento. Somos anarquistas precisamente porque esses privilégios nos revoltam. Eles já nos revoltam nessa sociedade autoritária. Poderíamos suportá-los em uma sociedade que começasse proclamando a Igualdade? Eis por que certos coletivistas, compreendendo a impossibilidade de manter a escala dos salários em uma sociedade inspirada pelo sopro da Revolução, apressam-se a proclamar que os salários serão iguais. Contudo, esbarram em novas dificuldades, e sua igualdade dos salários torna-se uma utopia tão irrealizável quanto a escala dos outros coletivistas.

Uma sociedade que se tiver apoderado de toda a riqueza social, e que tiver proclamado em voz alta que todos têm direito a essa riqueza, qualquer que tenha sido a parte tomada anteriormente em criá-la, será forçada a abandonar toda ideia de salariato, seja em moeda, seja em bônus de trabalho, sob qualquer forma em que o apresentem.

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