A Conquista do Pão: Os Alimentos I A Conquista do Pão: Tradução Literunico · Capítulo 13 de 55
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A Conquista do Pão: Os Alimentos I

Se a próxima revolução deve ser uma revolução social, ela se distinguirá dos levantes precedentes por seu objetivo e também por seus procedimentos. Um objetivo novo exige procedimentos novos. Os três grandes movimentos populares que vimos na França desde um século diferem entre si sob muitos aspectos. Entretanto, todos têm um traço comum: o povo luta para derrubar o antigo regime, derrama seu sangue precioso e, depois de dar o grande esforço, volta à sombra. Um governo composto de homens mais ou menos honestos se constitui, e é esse governo que se encarrega de organizar a República em 1793, o trabalho em 1848 e a Comuna livre em 1871.

Imbuído das ideias jacobinas, esse governo se preocupa antes de tudo com as questões políticas: reorganização da máquina do poder, depuração da administração, separação entre Igreja e Estado, liberdades cívicas, e assim por diante. É verdade que os clubes operários vigiam os novos governantes. Muitas vezes impõem suas ideias. Mesmo nesses clubes, porém, sejam os oradores burgueses ou trabalhadores, é sempre a ideia burguesa que domina. Fala-se muito de questões políticas e esquece-se a questão do pão. Grandes ideias foram emitidas nessas épocas, ideias que moveram o mundo, palavras foram pronunciadas e ainda fazem bater nossos corações a um século de distância. O pão, entretanto, faltava nos subúrbios.

Assim que a revolução explodia, o trabalho parava inevitavelmente. A circulação dos produtos se detinha, os capitais se escondiam. O patrão nada tinha a temer nessas épocas, vivia de suas rendas quando não especulava sobre a miséria, enquanto o assalariado se via reduzido a viver aos trancos, de um dia para o outro. A escassez se anunciava. A miséria fazia sua aparição, uma miséria como pouco se vira sob o antigo regime. São os girondinos que nos fazem passar fome, dizia-se nos subúrbios em 1793. E guilhotinavam-se os girondinos, davam-se plenos poderes à Montanha, à Comuna de Paris.

A Comuna, de fato, pensava no pão. Desdobrava esforços heroicos para alimentar Paris. Em Lyon, Fouché e Collot d'Herbois criavam os celeiros de abundância, mas para enchê-los só havia somas ínfimas. As municipalidades se agitavam para conseguir trigo. Enforcavam-se padeiros que açambarcavam as farinhas, e o pão faltava sempre. Então se atacavam os conspiradores realistas. Guilhotinavam-se doze, quinze por dia, criadas junto com duquesas, sobretudo criadas, pois as duquesas estavam em Coblentz. Ainda que se guilhotinassem cem duques e viscondes a cada vinte e quatro horas, nada mudaria.

A miséria crescia. Como ainda era preciso receber salário para viver, e como o salário não vinha, que poderiam fazer mil cadáveres a mais ou a menos? Então o povo começava a se cansar. Vai bem, a sua Revolução!, soprava o reacionário aos ouvidos do trabalhador. Jamais vocês foram tão miseráveis! E pouco a pouco o rico se tranquilizava, saía do esconderijo, afrontava os pés-descalços com seu luxo pomposo, vestia-se como almofadinha e dizia aos trabalhadores: Vamos, basta de tolices! O que vocês ganharam com a Revolução? Já é tempo de acabar com isso.

Com o coração apertado, no fim da paciência, o revolucionário chegava a dizer consigo: perdida mais uma vez, a Revolução! Voltava ao seu casebre e deixava acontecer. Então a reação se exibia, altiva. Realizava seu golpe de Estado. Morta a Revolução, restava apenas pisotear o cadáver. E ele era pisoteado. Derramavam-se rios de sangue, a reação branca derrubava cabeças, enchia as prisões, enquanto as orgias da alta malandragem retomavam seu curso.

Eis a imagem de todas as nossas revoluções. Em 1848, o trabalhador parisiense punha três meses de miséria a serviço da República e, ao cabo de três meses, já não podendo mais, fazia seu último esforço desesperado, esforço afogado nos massacres. Em 1871, a Comuna morria por falta de combatentes. Decretara a separação entre Igreja e Estado, e só tarde demais pensara em assegurar pão a todos. E viu-se em Paris a alta roda afrontar os federados, dizendo: vão, imbecis, fazer-se matar por trinta soldos, enquanto vamos banquetear em tal restaurante da moda! Compreendeu-se a falha nos últimos dias, fez-se a sopa comunal, mas era tarde demais: os versalheses já estavam nas muralhas.

Pão, é preciso pão para a Revolução. Que outros se ocupem de lançar circulares em períodos brilhantes. Que outros se deem galões tanto quanto seus ombros puderem carregar. Que outros, enfim, declamem sobre as liberdades políticas. Nossa tarefa será fazer com que, desde os primeiros dias da Revolução e enquanto ela durar, não haja um só homem no território insurgido que careça de pão, uma só mulher forçada a fazer fila diante da padaria para levar a bola de farelo que se queira lançar como esmola, uma só criança privada do necessário à sua frágil constituição.

A ideia burguesa foi perorar sobre os grandes princípios, ou antes, sobre as grandes mentiras. A ideia popular será assegurar pão a todos. E enquanto burgueses e trabalhadores aburguesados representarem grandes homens nas salas de conversa, enquanto as pessoas práticas discutirem sem fim as formas de governo, nós, os utopistas, deveremos pensar no pão cotidiano. Temos a audácia de afirmar que cada um deve e pode comer até saciar-se, e que é pelo pão para todos que a Revolução vencerá.

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