A Conquista do Pão: Objeções I
Examinemos agora as principais objeções que se opõem ao comunismo. A maior parte provém evidentemente de um simples mal-entendido, embora algumas levantem questões importantes e mereçam toda a nossa atenção. Não temos de nos ocupar em repelir as objeções feitas ao comunismo autoritário: nós próprios as constatamos. As nações civilizadas sofreram demais na luta que devia conduzir à libertação do indivíduo para poder renegar seu passado e tolerar um governo que viesse impor-se até nos menores detalhes da vida do cidadão, ainda que esse governo tivesse por único objetivo o bem da comunidade. Se alguma sociedade comunista autoritária chegasse a constituir-se, não duraria e seria logo forçada, pelo descontentamento geral, a dissolver-se ou reorganizar-se sobre princípios de liberdade.
É de uma sociedade comunista anarquista que vamos nos ocupar, de uma sociedade que reconheça a liberdade plena e inteira do indivíduo, não admita autoridade alguma e não use coerção alguma para forçar o homem ao trabalho. Limitando-nos nesses estudos ao lado econômico da questão, vejamos se, composta de homens tais como são hoje, nem melhores nem mais perversos, nem mais nem menos laboriosos, essa sociedade teria chances de desenvolver-se felizmente. A objeção é conhecida: "Se a existência de cada um está assegurada, e se a necessidade de ganhar um salário não obriga o homem a trabalhar, ninguém trabalhará. Cada um descarregará sobre os outros os trabalhos que não for forçado a fazer." Observemos, antes de tudo, a leveza incrível com que se apresenta essa objeção, sem suspeitar que a questão se reduz, na realidade, a saber se, de um lado, obtém-se efetivamente pelo trabalho assalariado os resultados que se pretende obter dele e se, de outro, o trabalho voluntário já não é hoje mais produtivo que o trabalho estimulado pelo salário.
Essa questão exigiria um estudo aprofundado. Nas ciências exatas, contudo, só se decide sobre assuntos infinitamente menos importantes e menos complicados depois de pesquisas sérias, recolhendo cuidadosamente os fatos e analisando suas relações. Aqui contentam-se com um fato qualquer, por exemplo o insucesso de uma associação de comunistas na América, para decidir sem apelação. Faz-se como o advogado que, diante do advogado da parte adversa, enxerga apenas um contraditor em uma disputa oratória, e que, se tem a felicidade de encontrar a réplica, pouco se preocupa em ter razão. É por isso que o estudo dessa base fundamental de toda a economia política, o estudo das condições mais favoráveis para dar à sociedade a maior soma de produtos úteis com a menor perda de forças humanas, não avança. Limitam-se a repetir lugares-comuns, ou então fazem silêncio.
O que torna essa leveza ainda mais impressionante é que, até na economia política capitalista, já se encontram alguns escritores levados pela força das coisas a pôr em dúvida esse axioma dos fundadores de sua ciência, segundo o qual a ameaça da fome seria o melhor estimulante do homem para o trabalho produtivo. Eles começam a perceber que entra na produção certo elemento coletivo, demasiado negligenciado até nossos dias, e que bem poderia ser mais importante que a perspectiva do ganho pessoal. A qualidade inferior do labor assalariado, a perda assustadora de força humana nos trabalhos da agricultura e da indústria modernas, a quantidade sempre crescente dos desfrutadores que hoje procuram descarregar-se sobre os ombros dos outros, a ausência de certo entusiasmo na produção, que se torna cada vez mais manifesta, tudo isso começa a preocupar até os economistas da escola clássica. Alguns deles se perguntam se não seguiram caminho falso raciocinando sobre um ser imaginário, idealizado para pior, suposto exclusivamente guiado pelo chamariz do ganho ou do salário. Essa heresia penetra até nas universidades e aventura-se nos livros de ortodoxia econômica. Isso não impede um número muito grande de reformadores socialistas de permanecerem partidários da remuneração individual e de defenderem a velha cidadela do salariato, no momento em que seus antigos defensores já a entregam pedra por pedra ao assaltante.
Assim, teme-se que, sem coerção, a massa não queira trabalhar. Não ouvimos já, em nossa própria vida, essas mesmas apreensões expressas duas vezes, pelos escravistas dos Estados Unidos antes da libertação dos negros e pelos senhores russos antes da libertação dos servos? "Sem o chicote, o negro não trabalhará", diziam os escravistas. "Longe da vigilância do senhor, o servo deixará os campos incultos", diziam os boiardos russos. Refrão dos senhores franceses de 1789, refrão da Idade Média, refrão velho como o mundo, nós o ouvimos cada vez que se trata de reparar uma injustiça na humanidade. E cada vez a realidade vem desmenti-lo formalmente. O camponês liberto de 1792 lavrava com uma energia feroz, desconhecida de seus antepassados. O negro liberto trabalha mais que seus pais. O camponês russo, depois de honrar a lua de mel de sua libertação festejando a Santa Sexta-Feira como se fosse domingo, retomou o trabalho com tanto mais aspereza quanto mais completa foi sua libertação. Onde a terra não lhe falta, lavra com obstinação, essa é a palavra.
O refrão escravista pode ter seu valor para os proprietários de escravos. Quanto aos próprios escravos, eles sabem quanto vale e conhecem seus motivos. Aliás, quem, senão os economistas, nos ensinou que, se o assalariado cumpre mais ou menos sua tarefa, um trabalho intenso e produtivo só se obtém do homem que vê seu bem-estar crescer em proporção a seus esforços? Todos os cânticos entoados em honra da propriedade reduzem-se precisamente a esse axioma. Pois, coisa notável, quando os economistas, querendo celebrar os benefícios da propriedade, mostram-nos como uma terra inculta, um pântano ou um solo pedregoso se cobrem de ricas colheitas sob o suor do camponês proprietário, de modo algum provam sua tese em favor da propriedade. Admitindo que a única garantia para não ser espoliado dos frutos do próprio trabalho seja possuir o instrumento de trabalho, o que é verdadeiro, provam apenas que o homem só produz realmente quando trabalha em plena liberdade, quando tem certa escolha em suas ocupações, quando não tem vigilante para atrapalhá-lo e quando, enfim, vê seu trabalho aproveitar a ele e a outros que fazem como ele, e não a algum preguiçoso qualquer. É tudo o que se pode deduzir de sua argumentação, e é também o que afirmamos.
Quanto à forma de posse do instrumento de trabalho, ela só intervém indiretamente em sua demonstração para assegurar ao cultivador que ninguém lhe retirará o benefício de seus produtos nem de suas melhorias. Para apoiar sua tese em favor da propriedade contra toda outra forma de posse, os economistas não deveriam demonstrar que, sob forma de posse comunal, a terra jamais produz colheitas tão ricas quanto quando a posse é pessoal? Ora, não é isso que se vê. É o contrário que se constata. Tomem, por exemplo, uma comuna do cantão de Vaud, na época em que todos os homens da aldeia vão no inverno abater madeira na floresta que pertence a todos. Pois é precisamente durante essas festas do trabalho que se mostra o maior ardor à tarefa e o mais considerável emprego de força humana. Nenhum labor assalariado, nenhum esforço de proprietário poderia suportar a comparação.
Ou tomem ainda uma aldeia russa, cujos habitantes todos vão ceifar um prado pertencente à comuna ou arrendado por ela. É ali que se compreenderá aquilo que o homem pode produzir quando trabalha em comum por uma obra comum. Os companheiros rivalizam entre si para ver quem traçará com sua foice o círculo mais largo. As mulheres se apressam atrás deles para não se deixar distanciar pela erva ceifada. É ainda uma festa do trabalho, durante a qual cem pessoas fazem em algumas horas o que seu trabalho realizado separadamente não teria terminado em vários dias. Que triste contraste oferece, ao lado, o trabalho do proprietário isolado! Enfim, poderíamos citar milhares de exemplos entre os pioneiros da América, nas aldeias da Suíça, da Alemanha, da Rússia e de certas partes da França, os trabalhos feitos na Rússia pelas equipes, artéis, de pedreiros, carpinteiros, barqueiros, pescadores e outros, que empreendem uma tarefa para dividir diretamente seus produtos ou mesmo sua remuneração, sem passar pelo intermediário dos subempreiteiros. Poderíamos ainda mencionar as caçadas comunais das tribos nômades e um número infinito de empresas coletivas bem conduzidas. Em toda parte se constataria a superioridade incontestável do trabalho comunal, comparado ao do assalariado ou do simples proprietário.
O bem-estar, isto é, a satisfação das necessidades físicas, artísticas e morais, e a segurança dessa satisfação, sempre foi o mais poderoso estimulante ao trabalho. Quando o mercenário mal chega a produzir o estritamente necessário, o trabalhador livre que vê o conforto e o luxo crescerem para si e para os outros em proporção a seus esforços emprega infinitamente mais energia e inteligência e obtém produtos de primeira ordem, muito mais abundantes. Um sente-se preso à miséria, o outro pode esperar no futuro o lazer e suas alegrias. Aí está todo o segredo. É por isso que uma sociedade voltada ao bem-estar de todos e à possibilidade, para todos, de gozar a vida em todas as suas manifestações fornecerá um trabalho voluntário infinitamente superior e de outro modo considerável à produção obtida até a época atual sob o aguilhão da escravidão, da servidão e do salariato.