A Conquista do Pão: A Descentralização das Indústrias III
É insensato, com efeito, exportar trigo e importar farinhas, exportar lã e importar panos, exportar ferro e importar máquinas. Isso é insensato não apenas porque esses transportes causam despesas inúteis, sobretudo porque um país sem indústria desenvolvida permanece fatalmente atrasado na agricultura, porque um país sem grandes usinas para trabalhar o aço fica igualmente atrasado em todas as outras indústrias, e porque, enfim, muitas capacidades industriais e técnicas permanecem sem emprego.
Hoje tudo se liga no mundo da produção. O cultivo da terra já não é possível sem máquinas, sem irrigação poderosa, sem estradas de ferro, sem manufaturas de adubos. Para possuir máquinas apropriadas às condições locais, estradas de ferro, instrumentos de irrigação e todo esse conjunto de meios, é preciso que se desenvolva certo espírito de invenção, certa habilidade técnica, que nem sequer conseguem aparecer enquanto a enxada ou o arado continuam sendo os únicos instrumentos de cultivo.
Para que o campo seja bem cultivado e dê as colheitas prodigiosas que o homem tem o direito de lhe pedir, é preciso que a usina e a manufatura, muitas usinas e muitas manufaturas, fumeguem ao seu alcance. A variedade das ocupações, a variedade das capacidades que delas surgem, integradas em vista de um fim comum, eis a verdadeira força do progresso. Imaginemos agora uma cidade, um território, vasto ou pequeno, pouco importa, dando seus primeiros passos no caminho da Revolução social.
Algumas vezes nos disseram que nada seria mudado. Expropriar-se-iam oficinas e usinas, elas seriam proclamadas propriedade nacional ou comunal, e cada um voltaria ao seu trabalho habitual. A Revolução estaria feita. Pois bem, a Revolução social não se fará com tamanha simplicidade. Já o dissemos: que amanhã a Revolução estoure em Paris, em Lyon ou em qualquer outra cidade, que amanhã se ponha a mão, em Paris ou em outra parte, sobre as usinas, as casas ou o banco, toda a produção atual terá de mudar de aspecto por esse simples fato.
O comércio internacional se deterá, assim como a entrada do trigo estrangeiro. A circulação das mercadorias e dos víveres ficará paralisada. A cidade ou o território revoltado terão de reorganizar de alto a baixo toda a produção para bastar a si mesmos. Se fracassarem, será a morte. Se vencerem, será a revolução no conjunto da vida econômica do país. A entrada dos víveres diminuída, o consumo aumentado, três milhões de franceses que trabalhavam para a exportação forçados ao desemprego, mil coisas recebidas hoje de países longínquos ou vizinhos deixando de chegar, a indústria de luxo temporariamente suspensa, eis a pergunta: que farão os habitantes para ter com que comer dentro de seis meses?
É evidente que a grande massa pedirá sua alimentação ao solo quando os armazéns estiverem esgotados. Será preciso cultivar a terra, combinar dentro de Paris e ao redor dela a produção agrícola com a produção industrial, abandonar mil pequenos ofícios de luxo para acudir ao mais urgente, o pão. Os cidadãos terão de se tornar agricultores. Longe da maneira do camponês que se esgota no arado para recolher apenas sua alimentação anual, será preciso seguir os princípios da agricultura intensiva, especialmente a de hortas e culturas de rendimento alto, aplicados em vastas proporções por meio das melhores máquinas que o homem inventou e pode inventar.
Cultivar-se-á, claro, embora de outro modo que o animal de carga do Cantal, e o joalheiro do Templo recusaria essa condição. Será preciso reorganizar a cultura da terra agora, no meio das lutas revolucionárias, sob pena de sucumbir diante do inimigo. Será preciso fazê-lo como seres inteligentes, auxiliando-se do saber, organizando-se em grupos alegres para um trabalho agradável, como aqueles que há cem anos revolviam o Campo de Marte para a festa da Federação. Trabalho cheio de prazer quando não se prolonga além da medida, quando é cientificamente organizado, quando o homem melhora e inventa seus instrumentos e tem consciência de ser membro útil da comunidade.
Cultivar-se-á, e também será preciso produzir mil coisas que nos habituamos a pedir ao estrangeiro. Convém lembrar que, para os habitantes do território revoltado, estrangeiro será tudo aquilo que não o tiver seguido em sua revolução. Em 1793 e em 1871, para Paris revoltada, o estrangeiro já era a província, situada às portas da própria capital. O açambarcador de Troyes esfaimava os sans-culottes de Paris tanto quanto, e até mais que, as tropas alemãs trazidas ao solo francês pelos conspiradores de Versalhes. Será preciso saber passar sem esse estrangeiro, e dele se passará.
A França inventou o açúcar de beterraba quando o açúcar de cana faltou em consequência do bloqueio continental. Paris encontrou salitre em suas adegas quando ele deixava de chegar de fora. Seríamos inferiores a nossos avós, que mal balbuciavam as primeiras palavras da ciência? Uma revolução é mais que a demolição de um regime. É o despertar da inteligência humana, o espírito inventivo multiplicado dez vezes, cem vezes. É o nascimento de uma ciência nova, a ciência dos Laplace, dos Lamarck, dos Lavoisier. É uma revolução nos espíritos, ainda mais que nas instituições.
E nos falam em voltar à oficina, como se se tratasse de voltar para casa depois de um passeio na floresta de Fontainebleau. O simples fato de ter tocado na propriedade burguesa já implica a necessidade de reorganizar de alto a baixo toda a vida econômica, na oficina, no canteiro e na usina. A Revolução o fará. Que Paris em Revolução social se veja apenas durante um ano ou dois isolada do mundo inteiro pelos sustentáculos da ordem burguesa, e esses milhões de inteligências que a grande usina ainda felizmente não embruteceu, essa cidade dos pequenos ofícios que estimulam o espírito inventivo, mostrarão ao mundo o que pode o cérebro humano sem pedir ao universo outra coisa além da força motriz do sol que o ilumina, do vento que varre nossas impurezas e das forças em ação no solo que pisamos.
Ver-se-á o que podem fazer, para alimentar, vestir, alojar e cobrir de todo luxo possível dois milhões de seres inteligentes, o acúmulo num ponto do globo dessa imensa variedade de ofícios que se completam mutuamente e o espírito vivificante de uma revolução. Para isso, não é preciso escrever romance. Aquilo que já se conhece, aquilo que já foi experimentado e reconhecido como prático bastaria para realizá-lo, com a condição de ser fecundado e vivificado pelo fôlego audacioso da Revolução e pelo impulso espontâneo das massas.