A Conquista do Pão: A Moradia III
Aliás, de modo algum se trataria de fazer uma repartição absolutamente igual das moradias. Os inconvenientes que certas famílias ainda tivessem de suportar seriam reparados facilmente em uma sociedade que estivesse em vias de expropriação. Desde que os pedreiros, os talhadores de pedra, todos os trabalhadores da construção, em uma palavra, saibam que têm a existência assegurada, aceitarão de bom grado retomar, durante algumas horas por dia, o trabalho ao qual estão habituados. Eles transformarão os grandes apartamentos que exigiam todo um estado-maior de criadas, e em poucos meses terão surgido casas muito mais salubres que as de hoje. Aos que ainda não estiverem suficientemente bem instalados, a Comuna anarquista poderá dizer: "Tenham paciência, camaradas! Palácios salubres, confortáveis e belos, superiores a tudo o que os capitalistas construíam, vão erguer-se no solo da cidade livre. Serão de quem mais precisar deles. A Comuna anarquista não constrói com vistas ao rendimento. Os monumentos que ela ergue para seus cidadãos, produto do espírito coletivo, servirão de modelo para a humanidade inteira. Eles serão de vocês!"
Se o povo revoltado expropria as casas e proclama a gratuidade da moradia, a posse comum das habitações e o direito de cada família a uma moradia salubre, a Revolução terá assumido desde o início um caráter comunista e terá tomado um caminho do qual dificilmente a farão sair. Terá desferido um golpe mortal na propriedade individual. A expropriação das casas traz assim em germe toda a revolução social. Do modo como ela for realizada dependerá o caráter dos acontecimentos. Ou abriremos uma estrada larga e grande ao comunismo anarquista, ou ficaremos atolados na lama do individualismo autoritário.
É fácil prever as mil objeções que nos farão, umas de ordem teórica, outras inteiramente práticas. Como se tratará de manter a qualquer preço a iniquidade, é certamente em nome da justiça que falarão: "Acaso não é infame", gritarão, "que os parisienses se apoderem para si das belas casas e deixem as cabanas aos camponeses?" Não nos deixemos enganar. Esses partidários furiosos da justiça esquecem, por uma torção de pensamento que lhes é própria, a desigualdade gritante da qual se fazem defensores. Esquecem que, em Paris mesmo, o trabalhador sufoca em um pardieiro com a mulher e os filhos, enquanto da janela vê o palácio do rico. Esquecem que gerações inteiras perecem nos bairros abarrotados por falta de ar e de sol, e que reparar essa injustiça deveria ser o primeiro dever da Revolução.
Não nos demoremos nessas reclamações interessadas. Sabemos que a desigualdade que ainda existirá de fato entre Paris e a aldeia está entre aquelas que diminuirão a cada dia. A aldeia tratará de dar a si mesma moradias mais salubres que as atuais, quando o camponês tiver deixado de ser o animal de carga do arrendatário, do fabricante, do usurário e do Estado. Para evitar uma injustiça temporária e reparável, seria preciso manter a injustiça existente há séculos? As objeções supostamente práticas também não são fortes. "Vejam", dirão, "um pobre diabo. À custa de privações, conseguiu comprar uma casa grande o bastante para alojar sua família. Ele é tão feliz ali. Vocês também vão jogá-lo na rua?" Certamente não! Se sua casa mal basta para alojar sua família, que ele a habite, ora essa. Que cultive o jardim sob suas janelas. Nosso pessoal, se for preciso, irá até ajudá-lo. Se, contudo, houver em sua casa um apartamento que ele aluga a outro, o povo irá procurar esse outro e lhe dirá: "Você sabe, camarada, que já nada deve ao velho. Fique em seu apartamento e não pague mais nada. Não há mais oficial de justiça a temer, daqui por diante é a Social!"
E se o proprietário ocupa sozinho vinte cômodos, e no bairro há uma mãe com cinco filhos alojados em um único quarto, o povo irá ver se, entre esses vinte cômodos, não há alguns que, depois de certos reparos, possam fazer uma boa pequena moradia para a mãe com seus cinco filhos. Isso não será mais justo que deixar a mãe e as cinco crianças no pardieiro, e o senhor, bem cevado, no castelo? De resto, o senhor se acostumará depressa. Quando já não tiver criadas para arrumar seus vinte cômodos, sua burguesa ficará encantada por livrar-se da metade do apartamento. "Isso será uma perturbação completa", gritarão os defensores da ordem. "Mudanças sem fim! Valeria tanto jogar todo mundo na rua e sortear os apartamentos!" Estamos persuadidos de que, se nenhuma espécie de governo se meter nisso e toda a transformação ficar confiada às mãos dos grupos surgidos espontaneamente para essa tarefa, as mudanças serão menos numerosas que aquelas que se fazem no espaço de um único ano por causa da rapacidade dos proprietários.
Há, antes de tudo, em todas as cidades consideráveis, um número tão grande de apartamentos desocupados que quase bastariam para alojar a maior parte dos habitantes dos pardieiros. Quanto aos palácios e aos apartamentos suntuosos, muitas famílias operárias nem sequer os desejariam, pois não se pode servir deles sem uma criadagem numerosa para conservá-los. Seus ocupantes logo se veriam forçados a procurar habitações menos luxuosas, nas quais as senhoras banqueiras fariam elas próprias a cozinha. E pouco a pouco, sem que seja preciso acompanhar o banqueiro, sob escolta de piques, até uma mansarda, e o habitante da mansarda até o palácio do banqueiro, a população se repartirá amigavelmente pelas moradias existentes, fazendo o menor remanejamento possível. Não vemos as comunas agrárias distribuírem os campos, perturbando tão pouco os possuidores de parcelas que resta apenas constatar o bom senso e a sagacidade dos procedimentos aos quais a Comuna recorre? A Comuna russa, fato estabelecido por volumes de investigações, faz menos mudanças de um campo a outro que a propriedade individual com seus processos defendidos nos tribunais. E querem nos fazer crer que os habitantes de uma grande cidade europeia seriam mais tolos ou menos organizadores que camponeses russos ou hindus?
Além disso, toda revolução implica certa perturbação da vida cotidiana, e aqueles que esperam passar por uma grande crise sem que sua burguesa seja jamais afastada da panela correm o risco de se decepcionar. Pode-se mudar de governo sem que o bom burguês perca a hora do jantar. Os crimes de uma sociedade contra aqueles que a alimentam não se reparam assim. Haverá perturbação, isso é certo. Somente é preciso que essa perturbação não seja em pura perda, que seja reduzida ao mínimo. E é ainda, não nos cansemos de repeti-lo, dirigindo-se aos interessados, e não aos gabinetes, que se obterá a menor soma de inconvenientes para todos.
O povo comete erro sobre erro quando tem de escolher nas urnas entre os enfatuados que disputam a honra de representá-lo e se encarregam de fazer tudo, saber tudo e organizar tudo. Quando lhe cabe organizar aquilo que conhece, aquilo que o toca diretamente, faz melhor que todos os gabinetes possíveis. Não se viu isso durante a Comuna? E durante a última greve de Londres? Não se vê isso todos os dias em cada comuna agrária?