A Conquista do Pão: Objeções III
Aqueles que estudaram seriamente a questão não negam nenhuma das vantagens do comunismo, com a condição, bem entendido, de que ele seja perfeitamente livre, isto é, anarquista. Reconhecem que o trabalho pago em dinheiro, mesmo disfarçado sob o nome de bônus em associações operárias governadas pelo Estado, conservaria a marca do salariato e seus inconvenientes. Constatam que o sistema inteiro não tardaria a sofrer com isso, ainda que a sociedade retomasse a posse dos instrumentos de produção. Admitem que, graças à educação integral dada a todas as crianças, aos hábitos laboriosos das sociedades civilizadas, à liberdade de escolher e variar as ocupações e ao atrativo do trabalho feito por iguais para o bem-estar de todos, uma sociedade comunista não careceria de produtores, que logo triplicariam e decuplicariam a fecundidade do solo e dariam novo impulso à indústria.
É isso que nossos contraditores concedem. "O perigo", dizem eles, "virá dessa minoria de preguiçosos que não quiserem trabalhar, apesar das excelentes condições que tornarão o trabalho agradável, ou que não lhe trouxerem regularidade e continuidade. Hoje, a perspectiva da fome obriga os mais refratários a marchar com os outros. Aquele que não chega à hora fixa logo é despedido. Basta, contudo, uma ovelha ruim para contaminar o rebanho, e três ou quatro operários negligentes ou recalcitrantes para desviar todos os outros e introduzir na oficina o espírito de desordem e revolta que torna o trabalho impossível. De sorte que, no fim das contas, será preciso voltar a um sistema de coerção que force os agitadores a entrar nas fileiras. Pois bem, o único sistema que permite exercer essa coerção sem ferir os sentimentos do trabalhador não é a remuneração segundo o trabalho realizado? Qualquer outro meio implicaria a intervenção contínua de uma autoridade que logo repugnaria ao homem livre." Eis, cremos, a objeção em toda a sua força.
Ela entra, como se vê, na categoria dos raciocínios pelos quais se procura justificar o Estado, a lei penal, o juiz e o carcereiro. "Já que há pessoas, uma fraca minoria, que não se submetem aos costumes sociáveis", dizem os autoritários, "é preciso manter o Estado, por mais custoso que seja, a autoridade, o tribunal e a prisão, embora essas instituições se tornem elas próprias uma fonte de males novos de toda espécie." Assim, poderíamos limitar-nos a responder o que repetimos tantas vezes a respeito da autoridade em geral: para evitar um mal possível, vocês recorrem a um meio que é, ele próprio, um mal maior, e que se torna a fonte desses mesmos abusos aos quais desejam remediar. Não esqueçam que foi o salariato, a impossibilidade de viver de outro modo que não vendendo a própria força de trabalho, que criou o sistema capitalista atual, cujos vícios vocês começam a reconhecer.
Poderíamos também observar que esse raciocínio é, depois do fato, uma simples defesa para desculpar o que existe. O salariato atual não foi instituído para remediar os inconvenientes do comunismo. Sua origem, como a do Estado e da propriedade, é completamente outra. Nasceu da escravidão e da servidão impostas pela força, das quais é apenas uma modificação modernizada. Assim, esse argumento não tem mais valor que aqueles pelos quais se procura desculpar a propriedade e o Estado. Examinaremos, entretanto, essa objeção e veremos o que ela poderia ter de justo.
Antes de tudo, acaso não é evidente que, se uma sociedade fundada sobre o princípio do trabalho livre fosse realmente ameaçada pelos ociosos, poderia defender-se sem dar a si uma organização autoritária ou recorrer ao salariato? Suponho um grupo de certo número de voluntários, unindo-se em uma empresa qualquer para cujo êxito todos rivalizam em zelo, exceto um dos associados que falta frequentemente ao seu posto. Por causa dele seria preciso dissolver o grupo, nomear um presidente que impusesse multas, ou enfim distribuir, como a Academia, fichas de presença? É evidente que não se faria uma coisa nem outra. Um dia se diria ao camarada que ameaça fazer a empresa naufragar: "Meu amigo, gostaríamos muito de trabalhar com você. Como você falta muitas vezes ao posto, ou faz negligentemente sua tarefa, devemos nos separar. Vá procurar outros camaradas que se acomodem à sua indolência."
Esse meio é tão natural que se pratica por toda parte hoje, em todas as indústrias, em concorrência com todos os sistemas possíveis de multas, deduções de salário, vigilância e demais expedientes. O operário pode entrar na fábrica à hora fixa, porém se faz mal seu trabalho, se perturba seus camaradas por sua negligência ou por outros defeitos, se eles se desentendem, está terminado. É forçado a deixar a oficina. Pretende-se geralmente que o patrão onisciente e seus vigilantes mantêm a regularidade e a qualidade do trabalho na fábrica. Na realidade, em uma empresa minimamente complicada, cuja mercadoria passa por várias mãos antes de ser terminada, é a própria fábrica, é o conjunto dos trabalhadores, que vela pelas boas condições do trabalho. Por isso as melhores fábricas inglesas da indústria privada têm tão poucos contramestres, bem menos em média que as fábricas francesas, e incomparavelmente menos que as fábricas inglesas do Estado.
Acontece o mesmo com a manutenção de certo nível moral na sociedade. Pretende-se dever isso ao guarda rural, ao juiz e ao guarda municipal, quando na realidade ele se mantém apesar do juiz, do guarda e do policial. "Muitas leis, muitos crimes", já se disse antes de nós. E não é somente nas oficinas industriais que as coisas se passam assim. Isso se pratica por toda parte, a cada dia, numa escala da qual apenas os roedores de livros ainda não suspeitam. Quando uma companhia ferroviária federada a outras companhias falta a seus compromissos, quando chega atrasada com seus trens e deixa mercadorias em sofrimento nas estações, as outras companhias ameaçam rescindir os contratos, e isso ordinariamente basta. Acredita-se em geral, ou ao menos se ensina, que o comércio só é fiel a seus compromissos sob ameaça dos tribunais. Nada disso. Nove vezes em dez, o comerciante que faltou à palavra não comparecerá diante de um juiz. Onde o tráfego é muito ativo, como em Londres, o simples fato de ter forçado um credor a litigar basta para que a imensa maioria dos mercadores se recuse daí em diante a tratar negócios com aquele que os fez encontrar-se com o advogado.
Por que, então, aquilo que se faz hoje mesmo entre companheiros de oficina, comerciantes e companhias ferroviárias não poderia fazer-se em uma sociedade baseada no trabalho voluntário? Uma associação, por exemplo, que estipulasse com cada um de seus membros o contrato seguinte: "Estamos prontos a garantir-lhe a fruição de nossas casas, depósitos, ruas, meios de transporte, escolas, museus e tudo o mais, com a condição de que, dos vinte aos quarenta e cinco ou cinquenta anos, você consagre quatro ou cinco horas por dia a um dos trabalhos reconhecidos como necessários à vida. Escolha você mesmo, quando lhe agradar, os grupos de que quiser fazer parte, ou constitua um novo, desde que ele se encarregue de produzir o necessário. Para o resto de seu tempo, agrupe-se com quem desejar, em vista de qualquer recreação de arte ou ciência, segundo seu gosto. Doze ou quinze centenas de horas de trabalho por ano em um dos grupos que produzem alimento, roupa e moradia, ou que se empregam na salubridade pública, nos transportes e tarefas semelhantes, é tudo o que pedimos para lhe garantir tudo o que esses grupos produzem ou produziram."
"Se nenhum dos milhares de grupos de nossa federação quiser recebê-lo, seja qual for o motivo, se você for absolutamente incapaz de produzir qualquer coisa útil, ou se recusar a fazê-lo, viva como isolado ou como os doentes. Se formos bastante ricos para não lhe recusar o necessário, ficaremos contentes em dá-lo a você. Você é homem e tem o direito de viver. Já que deseja colocar-se em condições especiais e sair das fileiras, é mais que provável que em suas relações cotidianas com os outros cidadãos você sentirá as consequências disso. Será olhado como um fantasma da sociedade burguesa, a menos que amigos, descobrindo em você um gênio, se apressem em libertá-lo de toda obrigação moral para com a sociedade, fazendo por você o trabalho necessário à vida. E, enfim, se isso não lhe agrada, vá procurar em outra parte do mundo outras condições. Ou encontre aderentes e constitua com eles outros grupos que se organizem sobre novos princípios. Preferimos os nossos." Eis o que poderia fazer-se em uma sociedade comunista se os ociosos se tornassem numerosos o bastante para que fosse preciso defender-se deles.