A Conquista do Pão: Objeções II A Conquista do Pão: Tradução Literunico · Capítulo 37 de 55
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A Conquista do Pão: Objeções II

Todo aquele que hoje pode descarregar sobre outros o labor indispensável à existência apressa-se em fazê-lo, e admite-se que será sempre assim. Ora, o trabalho indispensável à existência é essencialmente manual. Por mais que sejamos artistas ou sábios, nenhum de nós pode dispensar os produtos obtidos pelo trabalho dos braços: pão, roupa, estradas, navios, luz, calor e assim por diante. Mais ainda, por mais altamente artísticas ou sutilmente metafísicas que sejam nossas fruições, não há uma só que não repouse sobre o trabalho manual. É precisamente desse labor, fundamento da vida, que cada um procura descarregar-se. Compreendemos isso perfeitamente. Deve ser assim hoje.

Fazer um trabalho manual significa atualmente fechar-se dez e doze horas por dia em uma oficina malsã e permanecer dez anos, trinta anos, a vida inteira, preso à mesma tarefa. Significa condenar-se a um salário mesquinho, estar votado à incerteza do amanhã, ao desemprego, muito frequentemente à miséria, mais frequentemente ainda à morte no hospital, depois de ter trabalhado quarenta anos para alimentar, vestir, divertir e instruir outros que não a si próprio e seus filhos. Significa carregar a vida inteira, aos olhos dos outros, o selo da inferioridade, e ter a própria consciência dessa inferioridade. Pois, digam o que disserem os belos senhores, o trabalhador manual é sempre considerado inferior ao trabalhador do pensamento, e aquele que penou dez horas na oficina não tem tempo, e menos ainda meios, para dar a si as altas fruições da ciência e da arte, nem sobretudo para preparar-se a apreciá-las. Deve contentar-se com as migalhas que caem da mesa dos privilegiados.

Compreendemos, portanto, que nessas condições o trabalho manual seja considerado uma maldição do destino. Compreendemos que todos tenham apenas um sonho: sair, ou fazer sair seus filhos, dessa condição inferior, criar para si uma situação independente, isto é, viver também do trabalho de outrem. Enquanto houver uma classe de trabalhadores dos braços e outra classe de trabalhadores do pensamento, as mãos negras e as mãos brancas, será assim. Que interesse, com efeito, pode ter esse trabalho embrutecedor para o operário que conhece de antemão seu destino, que do berço ao túmulo viverá na mediocridade, na pobreza, na insegurança do amanhã? Por isso, quando vemos a imensa maioria dos homens retomar a triste tarefa a cada manhã, ficamos surpresos com sua perseverança, com seu apego ao trabalho, com a habituação que lhes permite, como uma máquina obedecendo cegamente ao impulso dado, levar essa vida de miséria sem esperança do amanhã, sem sequer entrever, em vagas claridades, que um dia eles, ou ao menos seus filhos, farão parte dessa humanidade enfim rica de todos os tesouros da livre natureza, de todas as fruições do saber e da criação científica e artística, reservadas hoje a alguns privilegiados.

É precisamente para pôr fim a essa separação entre o trabalho do pensamento e o trabalho manual que queremos abolir o salariato, que queremos a Revolução social. Então o trabalho já não se apresentará como uma maldição do destino. Tornar-se-á aquilo que deve ser: o livre exercício de todas as faculdades do homem. Seria tempo, aliás, de submeter a uma análise séria essa lenda de trabalho superior que se pretende obter sob o chicote do salário. Basta visitar as fábricas tais como ainda são quase todas, deixando de lado as manufaturas modelos que aparecem aqui e ali como exceção, para conceber o imenso desperdício de força humana que caracteriza a indústria atual. Para uma fábrica organizada mais ou menos racionalmente, há cem ou mais que estragam o trabalho do homem, essa força preciosa, sem outro motivo mais sério que talvez dar dois vinténs a mais por dia ao patrão.

Aqui, veem-se rapazes de vinte a vinte e cinco anos, o dia inteiro sobre um banco, o peito afundado, sacudindo febrilmente a cabeça e o corpo para atar, com velocidade de prestidigitadores, as duas pontas de restos miseráveis de fio de algodão vindos das máquinas de rendas. Que geração deixarão sobre a terra esses corpos trêmulos e raquíticos? Entretanto, "ocupam tão pouco lugar na fábrica, e cada um me rende cinquenta centavos por dia", dirá o patrão. Ali se veem, em uma imensa fábrica de Londres, moças tornadas calvas aos dezessete anos de tanto carregar sobre a cabeça, de uma sala a outra, bandejas de fósforos, enquanto a máquina mais simples poderia levar os fósforos até suas mesas. Entretanto, o trabalho das mulheres sem ofício especial custa tão pouco. Para que uma máquina? Quando essas não aguentarem mais, serão substituídas tão facilmente. Há tantas na rua.

Na escadaria de uma casa rica, em uma noite glacial, encontra-se a criança adormecida, descalça, com seu maço de jornais nos braços. O trabalho infantil custa tão pouco que se pode muito bem empregá-lo, todas as noites, a vender um franco de jornais, dos quais o pequeno infeliz receberá dois ou três vinténs. Vê-se enfim o homem robusto passeando de braços caídos. Fica desempregado durante meses, enquanto sua filha se esgota nos vapores superaquecidos da oficina de acabamento das fazendas, e seu filho enche à mão potes de graxa, ou espera horas na esquina que um passante lhe faça ganhar dois vinténs. E assim por toda parte, de São Francisco a Moscou e de Nápoles a Estocolmo. O desperdício das forças humanas é o traço predominante e distintivo da indústria, sem falar do comércio, onde atinge proporções ainda mais colossais. Que triste sátira há nesse nome de economia política dado à ciência da dissipação das forças sob o regime do salariato!

Isso ainda não é tudo. Se falarem ao diretor de uma fábrica bem organizada, ele explicará ingenuamente que hoje é difícil encontrar um operário hábil, vigoroso, enérgico, que se entregue ao trabalho com ardor. "Se aparecer um", dirá ele, "entre os vinte ou trinta que vêm a cada segunda-feira pedir-nos serviço, é certo que será recebido, ainda que estejamos reduzindo o número de nossos braços. Reconhece-se no primeiro golpe de vista e aceita-se sempre, ficando para o dia seguinte dispensar um operário envelhecido ou menos ativo." Aquele que acaba de ser despedido, e todos os que o serão amanhã, vão reforçar esse imenso exército de reserva do capital, os operários sem trabalho, chamados às máquinas e bancadas apenas nos momentos de aperto ou para vencer a resistência dos grevistas. Ou então esse refugo das melhores fábricas, esse trabalhador médio, vai juntar-se ao exército igualmente formidável dos operários idosos ou medíocres, que circula continuamente entre as fábricas secundárias, aquelas que mal cobrem seus custos e se arranjam por truques e armadilhas estendidas ao comprador, e sobretudo ao consumidor dos países distantes.

E se falarem ao próprio trabalhador, saberão que a regra das oficinas é que o operário jamais faça tudo de que é capaz. Infeliz daquele que, em uma fábrica inglesa, não seguisse esse conselho que recebe dos companheiros ao entrar! Pois os trabalhadores sabem que, se em um momento de generosidade cedem às instâncias de um patrão e consentem em intensificar o trabalho para terminar encomendas urgentes, esse trabalho nervoso será exigido dali em diante como regra na escala dos salários. Assim, em nove fábricas de dez, preferem nunca produzir tanto quanto poderiam. Em certas indústrias, limita-se a produção para manter os preços elevados, e às vezes passa-se a palavra de ordem do co-canny, que significa: "A má paga, mau trabalho".

O labor assalariado é um labor de servo. Ele não pode, não deve render tudo o que poderia render. Já é tempo de acabar com essa lenda que faz do salário o melhor estimulante do trabalho produtivo. Se a indústria rende atualmente cem vezes mais que no tempo de nossos avós, devemos isso ao despertar súbito das ciências físicas e químicas no fim do século passado, e não à organização capitalista do trabalho assalariado. Devemos isso apesar dessa organização.

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