A Conquista do Pão: As Vias e os Meios II
"Quantas horas de trabalho por dia o homem deverá fornecer para assegurar à sua família uma alimentação rica, uma casa confortável e as roupas necessárias?" Essa questão ocupou muitas vezes os socialistas, e eles admitem geralmente que bastariam quatro ou cinco horas por dia, com a condição, bem entendido, de que todos trabalhassem. No fim do século passado, Benjamin Franklin detinha-se no limite de cinco horas. Se as necessidades de conforto aumentaram desde então, a força de produção também aumentou, e muito mais rapidamente.
Em outro capítulo, ao falar da agricultura, veremos tudo o que a terra pode dar ao homem que a cultiva racionalmente, em vez de lançar a semente ao acaso sobre um solo mal lavrado, como se pratica hoje. Nas grandes fazendas do Oeste americano, que cobrem dezenas de léguas quadradas, embora o terreno seja muito mais pobre que o solo corrigido dos países civilizados, obtêm-se apenas doze a dezoito hectolitros por hectare, isto é, metade do rendimento das fazendas da Europa e dos Estados do Leste americano. E, no entanto, graças às máquinas que permitem a dois homens lavrar em um dia dois hectares e meio, cem homens produzem em um ano tudo o que é preciso para entregar em domicílio o pão de dez mil pessoas durante um ano inteiro. Assim, bastaria a um homem trabalhar nessas mesmas condições durante trinta horas, ou seis meias jornadas de cinco horas cada uma, para ter pão por todo o ano, e trinta meias jornadas para garanti-lo a uma família de cinco pessoas.
Também provaremos, por dados tomados da prática atual, que se recorrêssemos à cultura intensiva, menos de sessenta meias jornadas de trabalho poderiam assegurar a toda a família o pão, a carne, os legumes e até os frutos de luxo. De outro lado, estudando os preços pelos quais hoje se obtêm as casas operárias construídas nas grandes cidades, pode-se verificar que, para ter em uma grande cidade inglesa uma casinha separada, como as que se constroem para os operários, bastariam de mil e quatrocentas a mil e oitocentas jornadas de trabalho de cinco horas. Como uma casa desse gênero dura ao menos cinquenta anos, resulta daí que vinte e oito a trinta e seis meias jornadas por ano dão à família uma moradia salubre, bastante elegante e provida de todo o conforto necessário, enquanto, ao alugar a mesma moradia de um patrão, o operário a paga com setenta e cinco a cem jornadas de trabalho por ano. Observemos que esses números representam o máximo do que custa hoje a moradia na Inglaterra, dada a organização viciosa de nossas sociedades. Na Bélgica, construíram-se cidades operárias por conta muito melhor. Tudo considerado, pode-se afirmar que, numa sociedade bem organizada, cerca de trinta ou quarenta meias jornadas de trabalho por ano bastam para garantir uma moradia perfeitamente confortável.
Resta o vestuário. Aqui o cálculo é quase impossível, porque os lucros realizados sobre os preços de venda por uma nuvem de intermediários escapam à avaliação. Tomem o pano, por exemplo, e somem todos os descontos feitos pelo proprietário do prado, pelo possuidor de carneiros, pelo comerciante de lã e por todos os intermediários, até as companhias de estrada de ferro, os fiadores, os operários de tear, os vendedores de confecção, comerciantes e comissários, e terão uma ideia daquilo que se paga, em cada vestimenta, a uma nuvem inteira de burgueses. Por isso é absolutamente impossível dizer quantas jornadas de trabalho representa um sobretudo que se paga por cem francos em uma grande loja de Paris. O que é certo é que, com as máquinas atuais, chega-se a fabricar quantidades realmente incríveis de panos.
Alguns exemplos bastarão. Nos Estados Unidos, em setecentas e cinquenta e uma manufaturas de algodão, com fiação e trabalho de tear, cento e setenta e cinco mil operários e operárias produzem um bilhão, novecentos e trinta e nove milhões e quatrocentos mil metros de algodões, além de uma quantidade muito grande de fios. Só os algodões dariam uma média superior a onze mil metros em trezentas jornadas de trabalho, de nove horas e meia cada uma, ou quarenta metros de algodões em dez horas. Admitindo que uma família empregue duzentos metros por ano, o que já seria muito, isso equivaleria a cinquenta horas de trabalho, ou dez meias jornadas de cinco horas cada uma. E haveria os fios a mais, isto é, linha de costura e fio para a trama do pano e para fabricar panos de lã misturada com algodão.
Quanto aos resultados obtidos somente pelo trabalho de tear, a estatística oficial dos Estados Unidos nos ensina que, se em 1870 um operário, trabalhando treze a quatorze horas por dia, fazia nove mil e quinhentos metros de algodão branco por ano, treze anos mais tarde, em 1886, fazia vinte e sete mil metros trabalhando apenas cinquenta e cinco horas por semana. Mesmo nos algodões estampados, incluindo trabalho de tear e impressão, obtinham-se vinte e nove mil cento e cinquenta metros por duas mil seiscentas e sessenta e nove horas de trabalho por ano, ou quase onze metros por hora. Assim, para ter seus duzentos metros de algodões brancos e estampados, bastaria trabalhar menos de vinte horas por ano. Convém notar que a matéria-prima chega a essas manufaturas quase como vem dos campos, e que a série de transformações sofridas pela peça antes de mudar-se em pano se acha concluída no lapso dessas vinte horas. Para comprar esses duzentos metros no comércio, um operário bem remunerado deveria fornecer, no mínimo, dez a quinze jornadas de trabalho de dez horas cada uma, ou cem a cento e cinquenta horas. Quanto ao camponês inglês, teria de penar um mês, ou pouco mais, para obter esse luxo.
Vê-se já por esse exemplo que, com cinquenta meias jornadas de trabalho por ano, seria possível, em uma sociedade bem organizada, vestir-se melhor do que os pequenos burgueses se vestem hoje. Com tudo isso, foram necessárias apenas sessenta meias jornadas de cinco horas de trabalho para obter os produtos da terra, quarenta para a habitação e cinquenta para o vestuário. Isso ainda faz somente metade do ano, pois, deduzidas as festas, o ano representa trezentas jornadas de trabalho. Restam ainda cento e cinquenta meias jornadas úteis que poderiam ser empregadas nas outras necessidades da vida: vinho, açúcar, café ou chá, móveis, transportes e assim por diante.
É evidente que esses cálculos são aproximados, embora possam ser confirmados de outra maneira. Quando contamos, nas nações civilizadas, aqueles que nada produzem, aqueles que trabalham em indústrias nocivas destinadas a desaparecer, e enfim aqueles que se colocam como intermediários inúteis, constatamos que em cada nação o número de produtores propriamente ditos poderia ser dobrado. Se, em vez de dez pessoas, vinte estivessem ocupadas na produção do necessário, e se a sociedade se preocupasse mais em economizar as forças humanas, essas vinte pessoas teriam de trabalhar apenas cinco horas por dia, sem que nada diminuísse na produção. Bastaria reduzir o desperdício das forças humanas a serviço das famílias ricas, ou dessa administração que conta um funcionário para cada dez habitantes, e utilizar essas forças para aumentar a produtividade da nação, para limitar a quatro e mesmo a três as horas de trabalho, com a condição, é verdade, de contentar-se com a produção atual.
É por isso que, apoiando-nos nas considerações que acabamos de estudar juntos, podemos estabelecer a seguinte conclusão: suponham uma sociedade que compreenda vários milhões de habitantes envolvidos na agricultura e em uma grande variedade de indústrias, Paris, por exemplo, com o departamento de Seine-et-Oise. Suponham que nessa sociedade todas as crianças aprendam a trabalhar com os braços tão bem quanto com o cérebro. Admitam, enfim, que todos os adultos, exceto as mulheres ocupadas com a educação das crianças, se comprometam a trabalhar cinco horas por dia, dos vinte ou vinte e dois anos aos quarenta e cinco ou cinquenta, e que se empreguem em ocupações escolhidas por eles, em qualquer ramo dos trabalhos humanos considerados necessários. Tal sociedade poderia, em troca, garantir o bem-estar a todos os seus membros, isto é, um conforto muito mais real do que aquele de que goza hoje a burguesia. E cada trabalhador dessa sociedade disporia, além disso, de ao menos cinco horas por dia que poderia consagrar à ciência, à arte e às necessidades individuais que ainda não entrariam na categoria do necessário, salvo para introduzir mais tarde nessa categoria, quando a produtividade do homem aumentasse, tudo o que ainda hoje é considerado luxuoso ou inacessível.