A Conquista do Pão: O Salariato Coletivista I A Conquista do Pão: Tradução Literunico · Capítulo 40 de 55
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A Conquista do Pão: O Salariato Coletivista I

Em seus planos de reconstrução da sociedade, os coletivistas cometem, a nosso ver, um duplo erro. Enquanto falam em abolir o regime capitalista, gostariam ainda assim de manter duas instituições que formam o fundo desse regime: o governo representativo e o salariato. Quanto ao governo dito representativo, já falamos muitas vezes dele. Permanece para nós absolutamente incompreensível que homens inteligentes, e o partido coletivista não carece deles, possam continuar partidários dos parlamentos nacionais ou municipais depois de todas as lições que a história nos deu a esse respeito, na França, na Inglaterra, na Alemanha, na Suíça ou nos Estados Unidos.

Enquanto de todos os lados vemos o regime parlamentar desmoronar, enquanto de todos os lados surge a crítica dos próprios princípios do sistema, e já não somente de suas aplicações, como é que socialistas revolucionários defendem esse sistema condenado a morrer? Elaborado pela burguesia para enfrentar a realeza, consagrar ao mesmo tempo e aumentar sua dominação sobre os trabalhadores, o sistema parlamentar é a forma por excelência do regime burguês. Os corifeus desse sistema jamais sustentaram seriamente que um parlamento ou um conselho municipal representasse a nação ou a cidade. Os mais inteligentes entre eles sabem que isso é impossível. Pelo regime parlamentar, a burguesia procurou simplesmente opor uma barreira à realeza, sem dar liberdade ao povo.

À medida que o povo se torna mais consciente de seus interesses e que a variedade desses interesses se multiplica, o sistema já não pode funcionar. Por isso os democratas de todos os países imaginam em vão paliativos diversos. Experimenta-se o referendo e descobre-se que nada vale. Fala-se de representação proporcional, de representação das minorias, outras utopias parlamentares. Em suma, esforçam-se na busca do que não se encontra, e são forçados a reconhecer que seguem caminho falso. A confiança em um governo representativo desaparece. Acontece o mesmo com o salariato. Depois de proclamar a abolição da propriedade privada e a posse comum dos instrumentos de trabalho, como se pode reclamar, sob uma forma ou outra, a manutenção do salariato? É isso, entretanto, que fazem os coletivistas ao preconizar os bônus de trabalho.

Compreende-se que os socialistas ingleses do começo deste século tenham inventado os bônus de trabalho. Procuravam simplesmente pôr de acordo o Capital e o Trabalho. Repudiavam toda ideia de tocar violentamente na propriedade dos capitalistas. Se, mais tarde, Proudhon retomou essa invenção, isso ainda se compreende. Em seu sistema mutualista, procurava tornar o Capital menos ofensivo, apesar da manutenção da propriedade individual, que detestava do fundo do coração, embora a julgasse necessária como garantia do indivíduo contra o Estado.

Que economistas mais ou menos burgueses admitam também os bônus de trabalho não espanta. Pouco lhes importa que o trabalhador seja pago em bônus de trabalho ou em moeda com a efígie da República ou do Império. Querem salvar, na próxima derrocada, a propriedade individual das casas habitadas, do solo, das fábricas, em todo caso a das casas habitadas e a do Capital necessário à produção manufatureira. Para guardar essa propriedade, os bônus de trabalho lhes serviriam muito bem. Desde que o bônus de trabalho possa ser trocado por joias e carruagens, o proprietário da casa o aceitará de bom grado como preço do aluguel. E enquanto a casa habitada, o campo e a fábrica pertencerem a proprietários isolados, será preciso pagá-los de algum modo para trabalhar em seus campos ou em suas fábricas e morar em suas casas. Será preciso também pagar o trabalhador em ouro, papel-moeda ou bônus trocáveis por toda espécie de mercadorias. Como, entretanto, defender essa nova forma do salariato, o bônus de trabalho, quando se admite que a casa, o campo e a fábrica já não são propriedade privada, e pertencem à comuna ou à nação?

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