Universo da obra
Universo da obra
Passos apressados.
Aquilo, além de incomum, parecia um mau presságio. A entrada da caverna ficava na parte mais sombria de um bosque desabitado. Não havia flores nem frutos. A vegetação era espinhosa, gosmenta e, em alguns pontos, venenosa. Era uma paisagem estranha para um território elfo, quase sempre associado à beleza que aquele povo cultivava com orgulho.
A impressão mudava depois dos primeiros túneis. A pedra escura dava lugar a corredores amplos, iluminados por cristais e raízes claras. As paredes acompanhavam as formas naturais da caverna, mas haviam sido trabalhadas com tanta precisão que era difícil saber onde terminava a rocha e começava a arquitetura. Mais adiante, os corredores se abriam em salões semelhantes aos de um castelo construído sob a floresta.
Poucas pessoas chegavam até ali. Alguns seguidores antigos visitavam Adwig para levar notícias ou buscar conhecimento para alguma causa. Para grande parte dos elfos, porém, a rainha que vivia na caverna havia se tornado uma lenda. Entre os que acreditavam em sua existência, muitos preferiam chamá-la de bruxa. Quase ninguém ainda a procurava como pessoa.
Adwig escrevia suas memórias quando percebeu a aproximação. A pena parou sobre o papel. Depois de tantos séculos, era difícil imaginar algo que justificasse aquela pressa.
O visitante entrou no salão antes que ela se levantasse.
Adwig arregalou os olhos. O homem diante dela era alto, pálido e magro. Os cabelos longos e lisos tinham um tom loiro acobreado; os olhos eram escuros. As roupas rasgadas, a sujeira e o cansaço alteravam os traços que ela conhecia, mas não o bastante para esconder a semelhança entre os dois.
Era Teleret, seu irmão gêmeo. Ela não o via havia centenas de anos.
— Chegou a hora, irmã. A profecia está se cumprindo. Um raio trouxe um portal para levar nosso pai de volta. Precisamos nos preparar.
Adwig o observou em silêncio. Teleret parecia ter passado muito tempo sem cuidar de si. Havia urgência na voz, mas também uma agitação que o tornava difícil de acreditar.
— Isso é uma história de criança, meu irmão. Depois de tanto tempo, você vem me procurar por causa dela?
— Chegou a hora de sairmos das cavernas e voltarmos a ser quem éramos.
— Teleret, todas as vezes que me visitou trazendo notícias de grandes acontecimentos, elas se mostraram falsas ou exageradas. E olhe para você. O que aconteceu?
Ele baixou os olhos por um instante, mas não respondeu.
— Não podemos demorar. Você sabe que o tempo passa de modo diferente no planeta de nosso pai. Ele vive anos lá enquanto poucas horas se passam aqui. Você sentiu que ele voltou, não sentiu? Eu o acompanhei desde então. Ele disse que só entraria em outro portal se fosse chamado pela profecia.
Adwig sentira alguma coisa no momento em que o raio abriu a passagem. Chegara a considerar que pudesse ser o pai, mas decidira permanecer na caverna. Se ele não fizera questão de procurá-la, ela também não iria atrás dele.
— Imaginei que fosse ele. Talvez essa profecia que nunca se cumpriu seja apenas outro amor que encontrou em algum planeta, outra mentira ou outra criação usada para justificar sua ausência.
O povo elfo cantava seu pai como Deus, criador da vida, onipresente, onipotente e onisciente. Adwig sabia que ele havia criado vida naquele planeta, atravessava distâncias impossíveis e conhecia outros mundos. Também sabia que ele estava longe de possuir os atributos que a religião lhe dava. Nenhum culto apagava o fato de que ele deixara a própria filha esperando.
— Sei que você virá, mais cedo ou mais tarde — disse Teleret. — Preciso reunir os elfos. Se preferir, procure Mantelar. Ele está no Vale dos Gigantes. Sei que nele você irá confiar.
Teleret partiu com a mesma rapidez com que chegara.
Adwig voltou para as escrituras. Tentou retomar a frase interrompida, mas a voz do irmão reaparecia entre as palavras. E se o pai tivesse sido chamado pela profecia? Ela fora preparada durante a infância para aquele momento. Disseram-lhe que salvaria seu povo, reencontraria os que se foram e encerraria uma espera que já durava tempo demais.
A possibilidade de rever os mortos ainda conseguia alcançá-la.
Adwig atravessara séculos sem envelhecer como os outros. Sua aparência, mesmo entre os elfos, chamava atenção. O brilho da pele, a simetria dos traços e a permanência da juventude faziam dela uma imagem fácil de adorar. A rainha imortal, a filha de Deus, a mais admirada entre um povo conhecido pela beleza.
Ela nunca se sentira abençoada por isso.
Os outros envelheciam e morriam. Adwig permanecia, perdendo pessoas e acumulando lembranças que já não podia dividir com ninguém. A diferença que despertava admiração também a fazia sentir-se uma aberração. Era transformada em lenda justamente porque continuava viva quando todos os que a haviam conhecido desapareciam.
Pensou em Mantelar.
Ele era um Tryper, descendente da mistura entre elfos, fadas, gigantes e coraces, os quatro povos daquele mundo. Depois da ruptura geológica do planeta, as raças haviam se afastado. Quando se aproximavam, quase sempre era para guerrear. Com o tempo, a existência de um único rei ou rainha dos povos fora reduzida a uma lenda, assim como as histórias sobre Deus.
Os Trypers, rejeitados por todos os lados de sua origem, acabaram se unindo. Adwig se reconheceu neles e os acolheu. Durante algum tempo, apresentou-se como uma Tryper poderosa, uma espécie de bruxa boa, sem revelar toda a extensão do que podia fazer.
Mantelar era criança quando a conheceu e cresceu vendo nela uma heroína. O menino, porém, ficara muitos séculos para trás. Antes de qualquer vínculo amoroso, Mantelar viveu como nômade, tornou-se pesquisador, guerreiro e uma referência para a própria comunidade. Já adulto, escolheu proteger Adwig, embora soubesse que ela raramente precisava de proteção. Ela aceitou porque o papel tinha significado para ele e porque, em alguns momentos, fazia bem saber que alguém permaneceria ao seu lado por escolha.
Adwig fechou o livro de memórias.
Não sabia se acreditava na profecia, em Teleret ou no retorno do pai. Sabia apenas que Mantelar não usaria o fim do mundo como desculpa para chamá-la. Se ele estava no Vale dos Gigantes, encontrá-lo seria uma forma de descobrir o que realmente acontecia.
Guardou a pena, levantou-se e deixou a caverna.
Quando chegou ao Vale dos Gigantes, percebeu que Teleret talvez tivesse trazido uma notícia verdadeira pela primeira vez.
Alguns nascem para governar. Outros nascem para sobreviver. Adwig nasceu para eternizar. Em um universo onde vidas atravessam mundos e consciências despertam em novos corpos, ela carrega algo que poucos compreendem: uma imagem que cruza reinos, eras e fronteiras planetárias com a mesma intensidade com que ama e luta. Rainha por direito, guerreira por necessidade, Adwig precisa sustentar seu trono em meio a alianças frágeis, paixões complexas e ameaças que ultrapassam batalhas físicas. Em um cenário onde cada decisão tem consequências além de um único planeta, ela aprende que liderar não é apenas comandar, é suportar a necessidade das escolhas que ninguém mais pode fazer. Entre viagens interplanetárias, reencontros inesperados e sentimentos que desafiam regras, Adwig descobre que imortalidade não significa invencibilidade. Significa responsabilidade. E quando o universo começa a se mover em direções imprevisíveis, ela precisará provar que ser eterna não é o mesmo que ser inquebrável. Às vezes, o maior poder não está em viver para sempre. Mas em escolher por quem vale a pena continuar.
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