Capítulo 5
Athos manteve a mão estendida.
Adwig ainda não sabia o que ele pretendia mostrar, mas aceitou. Antes de fechar os olhos, ouviu um dos homens que acompanhavam Athos avisar que alguém estava chegando.
Quando tornou a abri-los, o quarto de Verto havia desaparecido.
O céu era escuro, iluminado por um pequeno sol avermelhado. A terra sob seus pés estava seca e rachada. Havia rochas, lama e, mais adiante, um lago negro. Ventos gelados alternavam-se com correntes de ar tão quentes que Adwig precisou proteger o rosto.
— Aqui é Tânatos — disse Athos. — Vivi neste planeta por milhares de anos. Preso e sozinho. Podia sofrer, mas não conseguia morrer.
Ele moveu o ar sob os dois e os levantou do chão. Começaram a voar sobre a paisagem escura.
— Comparei a passagem do tempo daqui com a de outros planetas. Durante períodos muito longos em Tânatos, quase nada avançava em Key. Não sei se a diferença permanece igual em todas as regiões ou circunstâncias, mas teremos tempo para voltar antes que sua ausência seja percebida.
— Por que ficou preso se podia voar?
— Tentei escapar. Subi além da atmosfera e usei o ar que consegui carregar para me impulsionar no espaço. Cheguei longe, mas não o bastante para alcançar outro planeta. Quando perdi velocidade, a gravidade me puxou de volta.
Athos apontou uma extensa depressão entre as rochas.
— Caí ali. Meus braços e pernas foram destruídos no impacto. A regeneração levou tanto tempo que comecei a considerar a possibilidade de permanecer daquela forma para sempre.
Adwig olhou para a região indicada. Athos falava sem tentar engrandecer a experiência. A ausência de orgulho tornava a história mais difícil de contestar.
— Depois disso, parei de tentar fugir por força — continuou. — Passei a estudar o que conseguia controlar. Combinei calor, eletricidade, gases, líquidos e minerais. Aprendi a provocar reações, reorganizar matéria e produzir estruturas orgânicas. Primeiro criei coisas simples. Depois consegui criar vida.
Uma faixa verde apareceu adiante.
Athos os levou até o solo. A terra seca deu lugar à grama e, pouco depois, a uma floresta. Árvores, plantas e pequenos animais ocupavam uma parte do planeta morto.
— Comecei com um pedaço de grama. Depois vieram sementes e ovos que deram origem a pequenos pássaros.
Os dois caminharam entre as árvores.
— Um dos pássaros ficou preso num emaranhado de galhos. Tinha a asa quebrada e um pedaço de madeira atravessado nas penas. Eu não conseguiria retirá-lo sem piorar o ferimento. Os outros voavam ao redor e não saíam dali. Eu os havia criado, mas não esperava que se preocupassem uns com os outros.
Athos parou perto de uma árvore baixa.
— Toquei a asa do menor e desejei que estivesse livre. No instante seguinte, ele apareceu no alto da árvore, junto dos outros. Foi assim que descobri o teletransporte.
— Salvando um passarinho.
— Salvando um passarinho.
— É uma origem menos ameaçadora do que eu esperava.
— Posso contar novamente acrescentando uma explosão, se preferir.
Adwig sorriu.
Athos explicou que começara a testar o novo poder dentro de Tânatos. Depois alcançou planetas próximos, mundos distantes onde já vivera e, por fim, um lugar que conhecia somente por uma visão.
— Depois da minha última morte, as imagens mudaram — contou. — Antes, mostravam acontecimentos próximos. Então comecei a ver lugares onde nunca estivera, decisões que ainda não havia tomado e uma mulher que precisava encontrar, embora o rosto dela nunca aparecesse. Acredito que vejo partes do futuro. A dificuldade é saber o que falta entre elas.
— E a mulher era eu?
— Tudo que fiz para encontrá-la me trouxe até você.
— Chega a ser um pouco romântico, olhando por esse lado.
Adwig percebeu que falara em voz alta. Athos ficou sem jeito e desviou os olhos para a floresta.
— Também pensei nisso por algum tempo — admitiu. — Mas as imagens apontam para algo maior do que nós dois. Algo ligado à continuidade do Universo, embora eu ainda não compreenda como.
O constrangimento diminuiu quando ele voltou a falar de Tânatos.
— Trouxe você para que não precisasse acreditar em mim sem evidência. Até hoje, não encontrei outro ser com o mesmo conjunto de habilidades. Consigo manipular vários elementos, criar vida e me teletransportar sem artefatos entre planetas de níveis diferentes. Isso não significa que conheça tudo. Sua existência já provou o contrário.
— Meu pai também é um ser de nível seis — disse Adwig. — Ele levou minha mãe, familiares e amigos para Key quando o planeta ainda era desabitado. Foi assim que nossa civilização começou.
Athos a encarou.
— Key foi criado por alguém de nível seis?
— Meu pai criou vida ali e trouxe pessoas de outros lugares.
— Isso explica por que nunca consegui mapear o planeta. Também explica parte de sua força, mesmo sendo sua primeira vida. Seu pai conseguia se teletransportar sozinho?
— Não. Existem outros onze como ele num planeta chamado Éden. Um deles precisa permanecer lá para transportar os demais.
— Doze seres de nível seis no mesmo planeta?
— Foi o que meu pai contou. Durante muito tempo, achei que fossem histórias para sustentar a religião criada em torno dele.
Athos caminhou alguns passos, tentando organizar a informação.
— Conheci pessoas que usam artefatos para abrir passagens. Também encontrei seres capazes de se deslocar dentro do próprio planeta ou entre mundos próximos. Nunca encontrei doze como seu pai reunidos no mesmo lugar.
— Talvez seu mapa seja menor do que imaginava.
— Depois de conhecer você, essa possibilidade deixou de ser uma ofensa e se tornou um fato. De onde veio sua mãe?
— Zen. Um planeta de nível dois.
Athos parou.
— Também não conheço Zen. E a reprodução entre seres de níveis diferentes costuma ser difícil, principalmente quando nenhum deles vem de um planeta de primeira vida.
— Meu pai não costumava considerar dificuldades como impedimento.
Athos pareceu prestes a responder, mas seu rosto perdeu a expressão. Os olhos continuaram abertos, fixos num ponto que não estava diante deles.
— Athos?
Ele não reagiu.
— Athos!
Depois de alguns segundos, respirou fundo e voltou a enxergá-la.
— Tive outra visão. Preciso levar você de volta. Vi algo que exige uma ação imediata, embora ainda não compreenda todos os detalhes.
Athos segurou a mão dela.
A floresta desapareceu. Adwig voltou ao quarto de Verto no mesmo ponto em que estivera antes da viagem.
Duas mulheres entraram pela porta. Uma tinha o olhar atento aos dois; a outra procurou primeiro os acompanhantes de Athos.
— O que perdemos? — perguntou a primeira.
— Silency, Sussurro, ainda bem que nos encontraram — disse o homem que avisara sobre a chegada delas. — Athos levou Adwig para algum lugar distante. Pelo tempo que desapareceram, imagino que tenha sido Tânatos.
— Acertou, Trovar — respondeu Athos. — Tive uma nova visão. Preciso que venham comigo agora.
Ele se voltou para Adwig.
— Faça o que decidiu em Key. Não sei como será o confronto no Palácio, mas acredito que você consiga reunir os povos sem se tornar aquilo que combate. Tentarei voltar antes que precise de mim.
Athos aproximou-se de Silency, Sussurro e Trovar. Os quatro deram as mãos e desapareceram.
Adwig permaneceu sozinha no quarto.
Tânatos ampliara o mundo sem diminuir nenhum dos problemas que a esperavam em Key. Ela ainda precisava enfrentar os governantes, a epidemia e o povo que a chamava de deusa.
Antes disso, precisava dormir.