Capítulo 17
Alice escolheu uma cachoeira afastada da trilha que ligava a cidade ao deserto de Kroe.
— É o lugar mais vazio da região — disse Saturne. — Por isso também é o pior lugar para descobrir que sua proteção contra os Golfens parou de funcionar.
— Você não precisa vir.
— Agora que descobriu quem toma as decisões por mim, podemos continuar.
Drevuz também aceitou o risco. Os três deixaram a trilha e chegaram a um lago aquecido por uma fonte abaixo do leito. A água da cachoeira era fria, e a diferença de temperatura mantinha Alice atenta ao próprio corpo.
Saturne foi procurar folhas que, segundo ele, produziriam um ensopado muito melhor do que a aparência sugeria.
Drevuz permaneceu na margem.
Alice percebeu que ele evitava olhar diretamente para ela.
— Quer entrar?
Drevuz olhou para a água e depois para ela.
— Para nadar?
— Para começar.
— Kaled acredita que você pode se tornar a taith dele.
— Kaled acredita em muitas coisas sobre mim sem me conhecer. Quero saber o que você acredita.
— Que eu deveria ficar longe.
— Não foi o que perguntei.
Drevuz entrou na água somente depois que Alice confirmou que o queria ali. Aproximaram-se sem pressa. Foi ela quem o beijou.
Adwig recebeu o calor que atravessou o corpo de Alice, o desejo e a curiosidade, mas não podia mover suas mãos nem escolher por ela. Sentia uma experiência cuja origem permanecia em outra mulher.
Alice puxou Drevuz para mais perto.
O beijo trouxe o interior de um avião.
Vieram o fogo, a queda e uma vida que terminava antes que ela compreendesse o que desejava fazer com ela. Depois surgiu outro planeta, um palácio e um homem chamado Falcão. Alice se viu rainha, lembrou-se de uma gestação e do nome Henri. A dor do parto apareceu junto da certeza de que deixara um filho para trás.
Ela se afastou sem ar.
Drevuz retirou as mãos imediatamente.
— Eu machuquei você?
— Não. Eu me lembrei.
— De tudo?
— De coisas demais e ainda não o suficiente.
— Quer que eu chame Saturne?
— Ainda não. Fique aqui, mas me deixe entender onde estou.
Drevuz permaneceu ao lado dela sem voltar a tocá-la. Alice apoiou a cabeça numa pedra e tentou separar as vidas. A garota do avião, a rainha, Falcão e Henri pertenciam a ela. Também pertenciam a pessoas que não existiam mais da mesma forma.
Quando Saturne voltou, encontrou Alice vestida e sentada perto da água.
— Funcionou? — perguntou, olhando de Alice para Drevuz.
— Minhas lembranças voltaram em partes.
— Eu perguntava sobre o ensopado.
Alice tentou rir, mas uma nova sequência de imagens atravessou sua mente. O mundo perdeu nitidez. Drevuz a segurou antes que caísse.
Quando Adwig abriu os olhos, estava novamente presa à maca.
Agora sabia que o laboratório era real e que Alice continuava existindo em outro planeta. Alarmes soavam. A sala tremia, e fumaça entrava pelas frestas de uma porta.
— Precisamos matá-la antes do colapso — gritou um dos cientistas.
— Já tentamos. O corpo se reconstrói antes que o dano termine.
Um homem se aproximou de Adwig. Era o mesmo que coordenara as sedações.
— Meu nome é Philip Ferne. Não temos muito tempo, então vou começar pelo que deveria ter contado quando você chegou.
— Cheguei como?
— Pela morte. A explosão destruiu seu primeiro corpo em Key. Você renasceu neste planeta e foi recolhida por nossa equipe junto de outros recém-chegados.
Adwig tentou se libertar das correias.
— Vocês capturam quem renasce aqui.
— Primeiro trabalhamos com voluntários. O núcleo do planeta entrou em colapso, e não encontramos maneira de impedir a destruição. Começamos a pesquisar como escolher o destino depois da morte para retirar a população daqui. Os testes mataram pessoas. Quando os voluntários acabaram, passamos a usar recém-chegados sem autorização.
— Chamaram um crime de pesquisa porque estavam com medo.
Ferne não tentou negar.
— Chamamos de necessidade. Continuou sendo um crime.
Outro tremor atingiu o laboratório. Parte do teto caiu atrás dele.
— Tentávamos separar a partícula essencial, indicar um planeta e reconstruir o corpo depois da morte. Com você, conseguimos alcançar o destino sem destruir o corpo que permanecia aqui. Sua consciência se ligou a uma mulher que renascia naquele instante.
— Alice.
— Esse foi o nome que ela escolheu. Você não criou aquela mulher e não viveu por ela. Apenas recebeu o que o corpo dela sentia.
— E ela sabia que eu estava lá?
— Não.
Adwig sentiu raiva suficiente para testar outra vez as correias. A estrutura gemeu, mas não cedeu.
— Por que não conseguiram me matar?
— Mesmo depois da primeira morte, seu novo corpo manteve a defesa que reconstruía cada ferimento. Mas os registros mostram que ela diminuiu durante a explosão. Quando você aceitou que poderia morrer, o corpo reduziu a resistência por alguns segundos.
Adwig lembrou-se do contador, da redoma fechada e da decisão de receber a explosão.
— Então não depende de eu estar salvando alguém. Depende de eu permitir.
— Essa é uma hipótese. Se conseguir fazer isso novamente, posso indicar outro destino. Não prometo que chegará com a mesma aparência, as mesmas capacidades ou todas as lembranças.
Ferne abriu um mapa. Conhecia Zen, mas não encontrava Key. Adwig reconheceu a galáxia pelas explicações antigas de Krakor e indicou o planeta.
— Prepare a máquina.
— Preciso causar a morte cerebral no instante indicado pelo aparelho.
— Eu entendi.
— Quero ouvir sua decisão depois que retirar as contenções. Se mudar de ideia, não farei.
Ferne soltou as correias. Adwig poderia tê-lo atacado. Em vez disso, sentou-se na maca e observou as coordenadas de Key na tela.
— Faça.
Ele injetou o composto que preparava a partícula para o destino escolhido. O aparelho iniciou a contagem.
Adwig fechou os olhos e procurou a defesa que sempre agira antes de sua vontade. Não ordenou que fosse forte. Não pediu ao corpo que reparasse o próximo dano.
No instante indicado, Philip Ferne produziu a lesão fatal.
O corpo de Adwig desapareceu.