Capítulo 6
Na manhã seguinte, Adwig contou a Mantelar o que acontecera enquanto ele dormia.
Começou pela mão de Athos, passou por Tânatos, pela floresta, pelo pássaro e pela descoberta do teletransporte. Depois falou sobre Éden, os doze seres de nível seis, Zen e a nova visão que fizera Athos partir às pressas.
Mantelar reagia a cada informação com uma expressão diferente.
— Como você conseguiu viajar para outro planeta enquanto eu dormia?
— Athos me levou.
— Eu compreendi essa parte. O que não compreendo é como alguém atravessa o Universo durante meu sono e você trata isso como uma conversa comum da manhã.
— Preferia que eu tivesse acordado você?
— Preferia ter conhecido a floresta e o passarinho.
Adwig sorriu.
— Athos descobriu alguma coisa que possa ajudar os Gigantes? — perguntou Mantelar.
— Não diretamente. Mas ele conhece formas de criar e reorganizar matéria viva. Se voltarmos a encontrá-lo, mostrarei seus registros. Éden também pode ter conhecimento que ainda não alcançamos.
O Reverendo Verto bateu à porta e entrou antes que Mantelar elaborasse outra reclamação.
— A assembleia está cheia — anunciou. — Os fiéis ocuparam a Congregação e há pessoas aguardando do lado de fora. Você viria falar com elas?
— Depois do que aconteceu ontem, acha uma boa ideia colocá-la diante de outra multidão? — perguntou Mantelar.
Adwig se levantou.
— Verto já falou em meu nome. Se pretendo governar, preciso começar corrigindo isso.
A Congregação parecia maior quando vista do altar. Pessoas ocupavam bancos, corredores e degraus. Algumas choravam antes mesmo de Adwig entrar. Outras mantinham a cabeça baixa. Imagens de Krakor e da princesa eterna apareciam nas paredes, nos tecidos e nos símbolos carregados pelos fiéis.
Ao chegar ao centro, Adwig compreendeu melhor o que Verto havia construído. Aquelas pessoas não esperavam uma governante. Esperavam uma confirmação para a fé mantida durante gerações.
O silêncio começou antes que ela erguesse a voz.
— Não vim confirmar que sou uma deusa.
A primeira frase provocou movimentos entre os fiéis. Adwig continuou.
— Também não posso provar que a profecia esteja se cumprindo. Passei grande parte da vida duvidando dela, de meu pai e do papel que esperavam que eu aceitasse. Saí da caverna porque meu irmão me procurou. Continuei porque encontrei os Gigantes morrendo enquanto os povos de Key se acostumaram a tratar a dor dos outros como um problema distante.
Ela encontrou Teleret no meio da assembleia. O irmão sorria, orgulhoso.
— Tenho medo do que acontecerá quando eu voltar ao Palácio. Tenho medo de repetir os erros de meu pai e de usar minha força como resposta para tudo. Isso não me permite continuar escondida.
Adwig olhou para os símbolos espalhados pela Congregação.
— Irei ao Palácio dos Elfos e reivindicarei o trono abandonado de Key. Não pedirei que lutem por mim nem que acreditem que sou divina. Pedirei que respondam pelo planeta que dividimos. Elfos, fadas, Gigantes, coraces e Trypers não sobreviverão se cada povo continuar esperando que o outro enfrente sozinho a próxima tragédia.
Verto chorava ao lado do altar.
— Athos também me mostrou que existe uma ameaça além de Key. Ainda não sei tudo que ela significa e não usarei o medo do Universo para exigir obediência. Primeiro cuidaremos de nosso mundo. Depois decidiremos juntos o que podemos fazer pelos outros.
Adwig respirou antes de concluir.
— Lutem pelo que considerarem correto e justo. Eu farei o mesmo. Quando eu falhar, não transformem minha falha em vontade divina.
Não houve aplausos.
As pessoas se ajoelharam e baixaram a cabeça. A reverência percorreu a Congregação, alcançando até aqueles que haviam permanecido de pé durante todo o discurso.
Adwig acabara de negar que fosse uma deusa. Mesmo assim, continuavam tratando-a como uma.
Desceu do altar sem saber se havia recuperado a própria voz ou oferecido novas palavras para a mesma crença. Agradeceu a Verto pela proteção, mas recusou permanecer para outra cerimônia.
Mantelar a acompanhou. Teleret encontrou os dois na saída. Por alguns segundos, os irmãos apenas se olharam.
— Você veio — disse Adwig.
— Eu disse que viria.
— Ainda acredita na profecia?
— Acredito em você. A profecia é mais fácil de explicar para os outros.
Os três partiram em direção ao Palácio. Verto permaneceu junto à Congregação, impedindo que os fiéis os seguissem.
A guarda real já os esperava. Arqueiros ocupavam as torres, soldados protegiam os portões e uma voz ordenou que parassem antes que alcançassem a entrada.
Adwig continuou caminhando.
— Venho conversar com o rei e a rainha — anunciou. — Chegou a hora de Key voltar a agir como um único planeta.
— Temos ordens para impedir sua entrada.
Os soldados pareciam preparados, mas nenhum deles demonstrava vontade de iniciar o ataque.
Adwig deu outro passo. O ranger dos arcos soou acima dela.
— Vocês sabem que poderiam disparar todas essas flechas sem me deter. Também sabem que eu já teria derrubado vocês se tivesse vindo para conquistar o Palácio pela força. Ainda prefiro entrar conversando.
A ordem de ataque foi dada.
As flechas desceram. Adwig ergueu o braço e murmurou uma palavra. Uma corrente de ar subiu do chão, carregou os projéteis para o alto e os espalhou longe dos soldados.
Os arqueiros prepararam outro disparo.
Desta vez, Teleret agiu. Um pequeno turbilhão desviou as flechas contra as paredes abaixo das torres. Nenhum arqueiro foi atingido, mas todos compreenderam que ele poderia ter escolhido outra direção.
Os soldados dos portões avançaram com espadas.
Mantelar usou a força para derrubar e desarmar os primeiros. Teleret desviou os seguintes com o vento. Adwig conteve os demais sem ferimentos graves. Um elfo capaz de manipular água obrigou-a a usar o cetro para bloquear a espada enquanto dispersava o feitiço dele.
A ordem de recuo veio da torre.
Mantelar caminhou até os portões e os abriu com um chute.
— Nunca saberemos se já estavam destrancados — comentou Teleret.
Os três riram, ainda sob a tensão do combate.
Dentro do Palácio, o humor desapareceu. Adwig e Teleret conheciam aqueles corredores. Tinham vivido ali antes da morte da mãe, da partida de Krakor e da revolta que separou os povos. Quando o pai os abandonou no meio da crise, conselheiros disseram que fugir seria a única forma de sobreviver.
Adwig nunca soube se aceitara um conselho prudente ou se abandonara Key quando mais precisava dela.
Não havia guardas nos corredores. A passagem até a sala do trono estava livre.
Farmer e Elena os aguardavam. O rei era alto, forte e tinha a pele escura. A rainha permanecia sentada ao lado dele, observando Adwig com mais atenção do que hostilidade.
— Depois de tantos séculos, os filhos de Deus retornam em busca do trono — disse Elena.
— Eu não gostaria de estar aqui — respondeu Adwig. — Mas o motivo de minha volta é maior do que nossas disputas.
Farmer se levantou.
— É claro. Os deuses só aparecem quando alguma coisa se torna importante para eles. Onde estavam quando os clãs entraram em guerra? Onde estavam durante os massacres? Nós governamos este povo enquanto vocês se escondiam. Agora retornam como salvadores e esperam que entreguemos tudo.
Adwig sentiu a acusação porque parte dela era verdadeira.
— Você tem razão, Majestade. Eu não estava aqui. Meu pai também não. As decisões dele foram desastrosas muitas vezes, e minha ausência não se torna correta porque eu estava ferida.
Farmer não esperava o tratamento respeitoso nem a concordância. Adwig aproveitou o silêncio.
— Isso não muda o que encontrei quando voltei: os Gigantes morrendo, as fadas tentando ajudá-los sozinhas e os governos protegendo fronteiras. Não vim retirar de vocês o governo dos elfos. Quero que permaneçam como rei e rainha deste povo. Vim exigir que Key volte a agir como um planeta.
— Sob seu comando — disse Elena.
— Sob uma liderança capaz de reunir os povos quando uma crise atingir qualquer um deles. Se existir outra forma de conseguir isso agora, quero ouvi-la.
— Você fala em reunião depois de atravessar nossos soldados — respondeu Farmer.
— Eles atacaram primeiro, e nenhum morreu.
— Porque você decidiu poupá-los. É essa a liberdade que oferece? Todos continuam vivos enquanto aceitam a medida da sua bondade?
Adwig não encontrou resposta imediata. Farmer havia colocado em palavras o medo que ela levara ao altar.
— Talvez a profecia use meu nome — disse. — Estar aqui continua sendo uma escolha. Não quero substituir quatro governos pela vontade de uma pessoa. Quero impedir que quatro governos assistam ao fim de um povo sem conseguir agir juntos.
— E se recusarmos sua coroa? — perguntou Elena.
— Continuarei tentando convencê-los. Mas não voltarei para a caverna enquanto os Gigantes morrem.
Farmer lançou uma bola de fogo.
Adwig reuniu a umidade do ar numa barreira de água. A chama se apagou diante dela. Uma rajada curta derrubou Farmer de volta no trono e atingiu Elena antes que se levantasse.
— Não quero lutar contra vocês. Reconheçam a liderança de Key e permaneçam no governo dos elfos. Não há motivo para transformar isso numa guerra.
Farmer se ajoelhou.
— Muito bem, rainha Adwig. Você tem razão. É praticamente imortal.
Por um instante, ela acreditou que o ataque tivesse sido uma última tentativa de resistência.
— Você é imortal — continuou Farmer. — Seu irmão, não.
A espada presa às mãos de uma estátua soltou-se. A lâmina se tornou incandescente enquanto atravessava a sala.
Adwig se virou quando já era tarde.
A espada atravessou Teleret.
Ele olhou para a irmã antes de cair. Mantelar permaneceu parado, incapaz de alcançar o corpo a tempo.
A fúria de Adwig eliminou qualquer pensamento. Um raio desceu pelo teto, rompeu a abóbada e atingiu a região dos tronos. Ela não escolheu onde a descarga terminaria.
Quando a luz desapareceu, Farmer e Elena estavam caídos.
Adwig correu até Teleret. Segurou o irmão nos braços, chamou seu nome e tentou sentir alguma resposta. Não havia poder que devolvesse o movimento ao corpo.
Ela acariciou o rosto dele enquanto chorava.
— Eu vou reunir os povos — prometeu, sem saber se falava com Teleret ou consigo mesma. — Vou terminar o que você veio me pedir.