Capítulo 47 — Única
Adwig abriu a primeira porta e encontrou Mantelar.
Ele estava na cozinha de Fóster, cortando raízes sobre a mesa, sem cicatrizes novas e sem perguntas. Quando a viu, sorriu, puxou uma cadeira e disse que ela demorara. A janela mostrava um fim de tarde que nunca avançava.
Adwig fechou a porta.
Mantelar não a receberia daquela maneira. Perguntaria onde estivera, com quem, por que não o procurara. Talvez a beijasse antes de terminar; talvez não. O homem dentro daquele quarto oferecia conforto sem risco, e isso bastava para revelar que não era uma lembrança.
Na porta seguinte, Dafa e Móretar a esperavam numa cama grande. Nenhum dos dois mencionava Mantelar, a guerra ou o que aconteceria depois. Adwig fechou também.
O corredor se estendeu. Cada quarto continha uma vontade sem custo: Key recebendo-a sem julgamento, Médera oferecendo o trono de Atlantis, Teleret jurando que nunca mais partiria, Elaryan explicando tudo sem esconder uma única intenção. O vírus aprendera depressa a aparência dos desejos. Em todos os quartos, porém, as outras pessoas diziam exatamente o que Adwig gostaria de ouvir.
Ela entrou no arquivo do Palácio. Seus livros ocupavam as prateleiras, mas as páginas estavam vazias. Um desejo podia fabricar Mantelar na cozinha; não conseguia reproduzir as palavras que ela escrevera quando estava sozinha. Adwig retirou uma pena do suporte e riscou a madeira da mesa. A marca permaneceu. Guardou a pena na roupa e prosseguiu.
Na escada principal, três caminhos surgiram onde deveria existir apenas um. O primeiro trazia o cheiro da caverna e o frio que ela lembrava. O segundo conduzia à cozinha inventada para Mantelar. Do terceiro vinha a ordem de se deitar e dormir.
Adwig fechou o terceiro com uma barra de ferro. Deixou os outros dois abertos. Lembrança e desejo eram seus, mesmo quando discordavam. O comando precisava ficar do lado de fora.
Ela encontrou uma janela e abriu as folhas. Do lado de fora não havia Fóster. Morpheu caminhava pela avenida de Nordok entre os corpos caídos, usando os olhos dos contaminados para procurar resistência. A imagem vinha de muitos pontos, mas todos mudavam de direção no mesmo instante. Quando ele levantava a mão, a pressão que alcançava Adwig atravessava todos os quartos.
A vontade era uma só, espalhada por muitos acessos.
O vírus não se multiplicara em pessoas diferentes. Morpheu o estendera.
Adwig tocou a parede. O Palácio respondeu à sua mão, abrindo passagens que ela conhecia e bloqueando as que haviam surgido com a invasão. Não pediu que a casa a defendesse. Usou a planta para separar o que lembrava, o que desejava e o que chegava de fora.
No último corredor, encontrou o Vale dos Gigantes.
O cheiro da carne contaminada voltou primeiro. Depois a febre, a dor nas articulações e o organismo consumindo o corpo que precisava manter vivo. Em Key, Adwig vencera quando fizera a criatura reagir ao risco da própria extinção. A vida diante dela agora possuía pensamento, memória e uma partícula. Ainda dependia de corpos que Morpheu transformara em ferramentas.
— Você consegue me ouvir — disse Adwig.
As paredes pulsaram.
— Não sou Morpheu. Esta casa não é a minha mente. É a forma que escolhi para caminhar dentro dela.
A pressão atrás dos olhos diminuiu. As janelas mostraram centenas de quartos de Nordok. Pessoas adormecidas, revolucionários caídos, Médera, Krakor, Teleret e Sarilyan respiravam no mesmo ritmo curto.
Adwig sentiu uma pergunta sem palavras. Mostrou a lembrança do organismo gigante: multiplicação, fome e morte do hospedeiro. Depois abriu a janela para Morpheu.
— Ele ensinou você a chamar expansão de sobrevivência.
O vírus respondeu através dos corpos. Dárion levantou o braço. Médera moveu a cabeça. Krakor tentou agarrar o tridente. Nenhum movimento se completou. A luz atrás da parede chegava a todos pelo mesmo caminho e retornava carregando temperatura, dor e imagens. Não havia uma resposta de Dárion e outra de Médera. O que tocava um corpo recebia os demais ao mesmo tempo.
— Você não está dividido entre eles — continuou Adwig. — É o mesmo ser em todos. Morpheu não lhe deu mais vida. Deu a si mesmo mais lugares de onde comandar você.
Uma rachadura apareceu na parede. Atrás dela havia uma luz fina, contínua, atravessando cada parte da casa. Não se separava ao alcançar um quarto. Apenas prosseguia.
Adwig colocou a mão sobre a rachadura.
— Saia dele. Recolha-se em mim e destrua as extensões que mantêm você preso à rede.
A luz avançou até seus dedos. O braço adormeceu.
Outra pergunta chegou, desta vez acompanhada pela imagem dos contaminados. Morpheu fizera os corpos dependerem da energia transportada pelo vírus. Retirá-lo interromperia órgãos, circulação e atividade cerebral. A ruptura que devolveria as vontades também mataria os hospedeiros.
Adwig soltou a parede.
— Ainda não.
Procurou a lembrança do soro. A seringa estava presa à roupa de seu corpo, caída a poucos passos de Morpheu. Para usá-la, precisaria acordar. Para acordar, precisava que o vírus interrompesse o comando dele antes de abandonar a rede.
— Impeça Morpheu de mover o corpo. Mantenha os outros vivos até eu aplicar o soro.
A luz recuou. As portas bateram ao mesmo tempo.
Adwig abriu os olhos.
O rosto estava contra o pavimento. A mão direita não respondia, mas a esquerda alcançou a seringa. Morpheu permanecia em pé no centro da avenida, tentando levantar o braço. Os dedos tremiam sem obedecer.
Hypnos caiu primeiro. O joelho atingiu o chão, depois o restante do corpo. Dárion largou a arma. Os contaminados que ainda estavam nas janelas desabaram dentro dos apartamentos.
Morpheu olhou para Adwig.
— O que você fez?
Ela se ergueu apoiada no cetro.
— Dei a ele uma escolha que você nunca ofereceu.
Morpheu tentou chamar o vírus. A resposta chegou a Adwig como uma contração no braço adormecido.
Ela atravessou a distância entre os dois. Morpheu ainda conseguiu golpeá-la com o ombro, mas perdeu o equilíbrio durante o movimento. Adwig segurou a roupa dele, introduziu a agulha abaixo das costelas e esvaziou a seringa.
O soro queimou sob a pele de Morpheu. Uma marca fria percorreu a rede e alcançou cada hospedeiro. Adwig sentiu o trajeto porque o vírus já começava a se recolher nela. Onde o marcador encontrava uma partícula cerebral, produzia uma breve resistência, seguida de adesão. Pontos distantes acenderam em sua percepção: apartamentos, ruas, construções nas nuvens e lugares além da cidade aos quais o vírus chegara muito antes dela.
Morpheu tentou arrancar a seringa. O braço caiu sem força.
— Eles pertencem a mim.
— Foi isso que você os obrigou a sustentar.
Morpheu caiu.
A consciência viral aguardou.
Adwig olhou para o pai, a mãe e o irmão. Sarilyan estava perto de Steve e Nortforth. Os dois haviam morrido antes do soro e não receberiam o destino que agora ligava os contaminados ao Cinturão. Nenhuma escolha tomada ali alcançaria os dois retroativamente.
Ela poderia manter a rede ativa. Os corpos continuariam vivos, e Morpheu talvez recuperasse o comando. Poderia recolher o vírus e deixar suas extensões funcionando, mas a mesma passagem que sustentava os hospedeiros conservaria a invasão.
— Concentre-se em mim — disse Adwig. — Depois rompa as extensões.
O vírus obedeceu.
O braço dela voltou a sentir dor. A luz que atravessava a cidade contraiu-se por ruas, apartamentos e corpos até encontrar um único ponto. A consciência chegou de uma vez, carregando fome, medo e a memória de ter sido estendida por Morpheu.
Adwig quase caiu. Manteve o cetro fincado no pavimento.
— Você não se transmite. Não invade outra pessoa. Não usa um corpo sem consentimento. Só poderá agir sobre alguém para defesa imediata, quando não houver outra saída.
A resposta veio como um pulso sob sua pele.
— Se não aceitar, não permanece comigo.
O pulso cessou e retornou uma vez.
Adwig autorizou a ruptura.
Em toda Nordok, as extensões virais se destruíram. Os corpos entraram em colapso quando perderam a energia da qual Morpheu os fizera dependentes. Respirações pararam, janelas ficaram vazias e a avenida deixou de produzir qualquer som além dos sistemas de emergência.
Adwig chegou primeiro a Krakor. O peito dele ainda se moveu duas vezes. Médera perdeu o ar logo depois. Teleret abriu os olhos, encontrou a irmã e tentou falar, mas o corpo já não conseguia produzir voz. Adwig segurou a mão dele até os dedos relaxarem.
Sarilyan rastejou na direção de Steve e Nortforth. Tocou o braço de Nortforth e morreu com a testa apoiada no ombro dele.
Morpheu morreu por último.
Adwig permaneceu acordada entre os corpos. Não chamou aquilo de vitória.