Capítulo 16
Adwig abriu os olhos e encontrou correias sobre os braços, as pernas e o peito.
Continuava em seu corpo. A visão ainda estava turva, mas distinguiu pessoas ao redor de uma maca e uma delas preparando uma seringa.
— Ela voltou — disse alguém. — Sedem antes que rompa a contenção.
Adwig tentou reunir força. A agulha entrou antes que conseguisse reagir.
A sala perdeu forma.
Quando a percepção retornou, Alice sentia fome. Adwig recebeu a mesma necessidade, mas não conseguiu mover as mãos dela nem escolher o que comeria.
Alice estava nos aposentos de hóspedes do palácio. Comeu frutas, plantas e um caldo quente. Depois entrou numa pequena queda d'água usada para banho. Desejou que a temperatura aumentasse e a água obedeceu. Não encontrou mecanismo algum que explicasse a mudança.
— Mais uma coisa que não sei sobre mim — disse.
Vestiu as roupas deixadas sobre a cama e dormiu.
Kaled havia ordenado que ninguém a incomodasse. Quando Alice acordou novamente, decidiu descobrir se a liberdade oferecida por ele era real.
Pensou também em Saturne. Pedira que cuidassem do pequeno durante sua permanência no palácio, mas ainda não sabia se podia confiar no rei. Kaled era atencioso, charmoso e poderoso. Alice desconfiava especialmente de pessoas que pareciam não possuir defeitos.
Tentou recuperar a imagem do avião. Viu fogo e alguns rostos, mas forçar a lembrança fez sua cabeça doer.
Dois guardas estavam diante da porta.
— O rei pediu que perguntássemos se aceita conversar com ele — disse um deles. — Se aceitar, devemos levá-la imediatamente.
— E se eu não aceitar?
— Pode permanecer aqui, caminhar pelo palácio ou partir. Fomos orientados a avisar apenas que os Golfens podem voltar.
Alice seguiu até a saída principal. As portas estavam abertas. Os guardas não tentaram impedi-la.
Depois de confirmar que podia sair, voltou.
— Quero falar com ele.
Kaled a recebeu no salão do trono. Levantou-se assim que ela entrou e olhou para um homem chamado Fargos.
— Eu disse que ela poderia partir. Se alguém não tem liberdade, nunca saberemos se decidiu ficar.
Alice parou diante dele.
— Então minha liberdade também era uma forma de conseguir o que você queria.
— Toda escolha depende das opções que existem. Nenhuma liberdade é completa.
— Isso não responde à minha pergunta.
Kaled sorriu, dessa vez sem uma frase preparada.
— Eu esperava que escolhesse ficar.
Alice examinou o salão. A arquitetura parecia irregular quando observada em partes, mas encontrava uma organização própria no conjunto. Pinturas, esculturas e objetos de origens diferentes ocupavam lugares escolhidos com cuidado.
— Este palácio conta minha vida — disse Kaled. — Gostaria que um dia também contasse a sua.
— Você nem sabe qual foi minha vida.
— Sei o que os textos dizem sobre a Prometida.
— Os textos sabem menos sobre mim do que eu.
Kaled se aproximou, mas parou antes de tocá-la.
— Quero que seja minha taith.
— O que significa isso?
— Duas pessoas que escolhem compartilhar o caminho por todas as vidas que puderem. Alguém por quem eu daria minha existência.
— Eu ainda não sei quem sou. Não aceitarei que outra pessoa decida com quem devo passar a existência.
— Não estou exigindo uma resposta. Peço apenas a oportunidade de conhecê-la.
— Então não fale como se a resposta já estivesse escrita.
Kaled ofereceu a mão.
— Posso?
Alice permitiu que ele a segurasse. Havia algo reconfortante no contato, mas ela não sabia se vinha dele, da solidão ou de alguma capacidade que ainda desconhecia.
— Não se aproxime assim sem perguntar — disse.
— Não farei isso.
Um guarda entrou antes que continuassem.
— Majestade, o conselho requisita uma audiência de urgência.
Kaled autorizou a entrada. Alice se preparou para sair, mas o rei disse que o assunto provavelmente dizia respeito a ela e perguntou se gostaria de ficar.
Quatro integrantes do conselho atravessaram o salão. Uma mulher falou em nome do grupo.
— Três distritos foram atingidos durante o dia. Ainda procuramos desaparecidos, e nunca havíamos registrado Golfens tão perto do centro. O ataque começou quando a mulher que chamam de Prometida se aproximou da cidade.
— Ela encerrou o ataque — respondeu Kaled.
— Também pode tê-lo atraído. O conselho decidiu que sua permanência dentro das muralhas coloca os Candris em risco.
— O conselho aconselha. A decisão final é minha.
— A carta do reino nos autoriza a convocar uma substituição quando o rei ignora ameaça direta à população. Se insistir sem investigar o ataque, iniciaremos o processo.
O ar ao redor de Kaled ficou quente.
— Gostaria de ver quem tentaria me retirar daqui.
Alice percebeu que a defesa da liberdade terminava no ponto em que o poder dele era contestado.
— Não ficarei enquanto minha permanência servir de justificativa para uma disputa entre vocês — disse. — Também não aceitarei que decidam por mim. Vou descobrir por que os Golfens me atacaram.
— Fora das muralhas, estará exposta — disse Kaled.
— Aqui dentro, outras pessoas podem estar expostas por minha causa.
Saturne entrou no salão ao lado de Drevuz.
— Você conseguiu criar uma crise política enquanto fui avisar minha família? — perguntou o pequeno.
— Ainda estou aprendendo sobre meus talentos.
Alice e Drevuz se olharam. A mesma atração da fortaleza reapareceu antes que qualquer um dissesse algo.
Kaled percebeu.
— Drevuz conhece as regiões atacadas e é meu mensageiro mais confiável. Aceitaria acompanhá-la?
Drevuz olhou para Alice.
— Se ela quiser.
— Quero — respondeu.
O conselho aceitou que Alice deixasse a cidade enquanto a causa do ataque era investigada. Kaled ordenou que as portas permanecessem abertas caso precisassem retornar.
Alice saiu do palácio com Saturne no ombro e Drevuz ao lado. Não sabia quem havia sido nem por que os Golfens morriam ao tocá-la. Pela primeira vez desde que despertara, ao menos sabia o que pretendia procurar.
Adwig seguiu com ela, incapaz de escolher o caminho e consciente de cada passo.