Capítulo 51 — Rainha Imortal Adwig — Rainha Imortal · Capítulo 51 de 51
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Capítulo 51 — Rainha Imortal

Trovar voltou quando faltavam poucos dias para completar os vinte e cinco anos.

Encontrou o Palácio ocupado. Crianças cruzavam o salão principal levando caixas para a biblioteca. Uma oficina funcionava onde antes havia uma sala preparada para oferecer roupas. O cheiro do almoço chegava de três cozinhas, porque os moradores jamais concordaram sobre o tempero.

Dircle foi o primeiro a vê-lo.

— O senhor dos múltiplos corpos chegou! Dircle vai avisar a Rainha Imortal.

— Avise apenas Adwig — pediu Trovar.

Dircle voou pelo corredor gritando os dois títulos.

Adwig estava na torre com Mantelar. A última página do livro continuava vazia sobre a mesa.

Trovar explicou o teste diante de todos que decidiram participar. Érebo não escolheria pessoas por força, virtude, importância ou disposição para o sacrifício. A ligação dependia da compatibilidade entre partículas. Querer atravessar não bastava; recusar continuava permitido até o último momento.

Alguns moradores deixaram o salão antes do início. Não queriam passar os últimos dias medindo a possibilidade de acordar em outro Universo. Frempor permaneceu em Key para concluir os registros da administração. Chae respondeu pela Jupera que preferia terminar uma discussão aberta em Percento a abandonar a assembleia por uma chance que não compreenderia.

Dircle recusou o teste porque ainda precisava conferir as cópias das memórias.

— Se o Universo acabar antes, Dircle apresentará reclamação formal.

Trovar registrou a recusa com a mesma atenção dada aos voluntários.

As projeções de Trovar tocaram cada voluntário separadamente. Algumas ligações se desfizeram de imediato. Outras permaneceram por alguns segundos e perderam definição. Ninguém foi ferido.

Médera e Krakor não conseguiram sustentar a conexão. Teleret tentou duas vezes antes de aceitar o mesmo resultado. Dafa permaneceu ligada por tempo suficiente para acreditar que conseguiria, mas sua projeção desapareceu quando Trovar ampliou a força de Érebo.

Mantelar foi o último antes de Adwig.

A imagem dele se formou ao lado do corpo e alcançou a mão dela. Os dedos começaram a perder definição. Mantelar tentou fechar a mão, mas a ligação se desfez.

Adwig saiu da área de teste.

— Não vou.

Mantelar a seguiu até a torre.

— Vai.

— Não escolha isso por mim.

— Não posso. Estou dizendo o que quero que faça.

Adwig fechou a porta com a própria mão.

— Passamos séculos tentando voltar um para o outro. Tivemos vinte e cinco anos.

— Tivemos uma vida — respondeu Mantelar. — Menor do que desejávamos e maior do que teríamos se você recusasse tudo que podia terminar.

— Eu posso atravessar e não continuar sendo eu. Uma pessoa com minhas lembranças pode surgir e tomar decisões que eu jamais tomaria.

— Também pode ficar e desaparecer com as mesmas dúvidas. Nenhuma opção oferece você de volta para mim.

Adwig sentou-se diante do livro.

— E se minhas memórias fizerem outra pessoa acreditar que deve repetir minhas escolhas?

— Deixe registrado onde errou. Ela poderá discordar de você.

Mantelar colocou a pena ao lado da página vazia.

— Eu não quero perder você. Quero que vá porque alguém precisa chegar do outro lado lembrando que transformar amor em posse destrói aquilo que tenta conservar.

Adwig segurou a mão dele.

— Você não estará lá para me impedir de esquecer.

— Então leve o que eu disse. E, se esquecer mesmo assim, espero que outra pessoa discorde de você.

Adwig voltou ao salão e aceitou o teste.

Érebo formou uma projeção estável. Quando Trovar ampliou a ligação, a consciência viral se moveu dentro dela. Uma segunda imagem tentou nascer e não conseguiu se separar.

— O vírus atravessa? — perguntou Mantelar.

— Não como outra pessoa — respondeu Trovar. — Há uma única partícula ligada à consciência que permaneceu em Adwig. Érebo reconhece o vínculo do mesmo modo que reconhece uma simbiose. Ele não receberá acesso às outras partículas.

Adwig estabeleceu a última condição com o vírus. Permaneceria ligado a ela e não tocaria nenhuma outra consciência durante a travessia. Se rompesse o acordo, ela encerraria a ligação, mesmo que os dois se perdessem.

Móretar também sustentou a projeção. Depois dele, os testes confirmaram Silency, Sussurro, André, Henri, Magno, Emma, Lúcifer, Athena, Afrodite e Hagar. Athos já estava na região final, e Trovar seria o portador de Érebo.

Dafa esperou Móretar sair da área marcada.

— Você não vai transformar isso numa missão para me encontrar — disse.

— Eu gostaria de encontrar você.

— Pode desejar. Não use minha ausência para decidir que a próxima Dafa deve alguma coisa ao homem que se lembra dela.

— Então levarei o desejo e a possibilidade de receber outra resposta.

Dafa beijou a testa dele.

— Agora parece você falando.

Quatorze pessoas atravessariam de formas diferentes. Isso não as tornava as mais importantes entre os habitantes dos sete planetas. Eram as partículas que a ligação conseguia manter.

Adwig voltou à última página.

Escreveu que a chamaram de Rainha Imortal antes de descobrirem que ela podia morrer. O título servira para exigir obediência, justificar abandono e substituir sua vida por uma função. Se alguma parte dela atravessasse, não seria prova de divindade nem confirmação da profecia.

Registrou os nomes de quem pagara por suas decisões e pediu que qualquer pessoa capaz de ler aquelas páginas não acreditasse nelas apenas porque pertenciam a uma rainha.

Terminou com uma frase curta:

Meu nome é Adwig. Eu escolhi levar estas lembranças.

Dircle produziu as cópias. Uma ficou com Mantelar. Teleret recebeu outra e prometeu não corrigir a versão da irmã sem deixar registradas as próprias alterações. A terceira seguiu para o arquivo público de Key, junto aos documentos da administração e às contestações feitas durante os vinte e cinco anos.

Servero confirmou o recebimento pela Jupera. Leu o título, perguntou se deveria arquivá-lo entre os registros reais ou entre os relatos pessoais e recebeu de Adwig a orientação de mantê-lo nos dois índices. Ser rainha fazia parte da história. Não tornava o livro uma versão oficial de tudo que acontecera.

Outra Jupera trouxe Sarilyan. Atrás dela, elfos desmontavam uma formação de abrigo antes que a âncora conseguisse impedir a retirada de energia.

— Não estarei com vocês — disse Sarilyan. — Se lembrar de Nordok, lembre também que nenhuma estrutura se torna justa por conseguir durar.

— E você não transforme desmontar tudo na única prova de liberdade.

Sarilyan aceitou a resposta.

— Continuamos discordando.

— Espero que sim.

Dafa se despediu primeiro.

— Se encontrar outra versão minha, não presuma que ela vai gostar de você.

— Isso vale para esta versão também.

Dafa beijou Adwig e entregou a Móretar uma lista de pessoas que ele deveria procurar caso conservasse memória suficiente.

Médera abraçou os dois filhos. Krakor tentou falar sobre reencontro, mas ela o interrompeu.

— Não prometa o que ninguém sabe.

Ele abraçou Adwig e Móretar sem terminar a frase.

Teleret entregou a cópia das memórias a Dircle antes de voltar para a irmã.

— Desta vez, você vai embora e eu fico.

— Pode aproveitar para descobrir uma forma de me culpar por isso.

— Já comecei.

Adwig o apertou contra o corpo.

Mantelar esperou até os outros se afastarem.

— Eu te amo — disse.

— Eu amo você.

— Não transforme isso numa ordem.

— Não vou.

Trovar chamou os compatíveis.

Adwig beijou Mantelar e manteve a testa junto à dele até a projeção puxá-la para Érebo.

Lá dentro, ela não possuía corpo. Percebia Móretar, Silency, Sussurro, André, Henri, Magno, Emma, Lúcifer, Athena, Afrodite e Hagar. Trovar mantinha todos ligados enquanto buscava Athos.

Henri e Magno continuavam distintos, embora a ligação entre eles permanecesse visível na forma de Érebo. Móretar procurou Dafa por reflexo e encontrou somente os outros viajantes. Adwig tentou tocar a consciência viral; ela estava recolhida junto à sua, obedecendo ao limite combinado.

Do lado de fora, a matéria retornava depressa para o ponto inicial. Os sete planetas permaneciam visíveis por meio da espada reunida. Elaryan estava diante de Athos e puxava para a lâmina incontáveis pontos de luz.

Adwig reconheceu partículas deixando cidades, oceanos e abrigos. As pessoas do Palácio desapareceram uma a uma. Mantelar permaneceu perto da torre até a luz dele também subir. Em Key, pontos se desprenderam das quatro regiões, das casas de Médera e Krakor e do arquivo onde Servero guardara o livro. A concentração continuou até que os mundos perderam qualquer sinal de vida.

Elaryan ergueu a espada contra Athos.

Trovar concentrou Érebo num único ponto. Adwig percebeu um movimento que não conseguiu acompanhar e uma explosão branca. Quando voltou a distinguir as formas, Elaryan havia desaparecido. Athos permanecia com a espada.

Trovar ampliou a ligação e o alcançou.

Adwig não sabia o que existiria depois da nova expansão. Levar lembranças não garantia que continuaria sendo a mesma pessoa, que encontraria Mantelar ou que escolheria melhor. O poder de recordar também poderia ser usado para obrigar o novo Universo a repetir seus erros.

Ela procurou o livro que deixara e não encontrou objeto algum dentro de Érebo. Restavam as cenas registradas, as correções de Dafa, os nomes acrescentados por Móretar e a promessa de Teleret de contestar sua versão. Memória sem outra pessoa para contradizê-la poderia se tornar mais uma forma de governo.

Ainda assim, ela havia escolhido atravessar.

Quando o Universo perdeu forma, Adwig conservou o nome de Mantelar e as vozes de sua casa falando ao mesmo tempo.

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