Capítulo 24
Adwig e Médera encontraram uma clareira coberta de terra revolvida. Mantelar estava caído com os braços presos no solo. Móretar permanecia deitado ao lado dele, com um corte no pescoço.
— Antes de reclamar, ajudem — pediu Mantelar. — Minha perna está comprimindo o ferimento.
Médera se ajoelhou junto a Móretar. Passou a mão sobre o corte até a pele se fechar. Adwig afastou a terra que prendia Mantelar e o ajudou a retirar a perna devagar.
Móretar despertou tossindo.
— Deixamos vocês sozinhos por alguns minutos — disse Adwig. — Como um treino chegou a isso?
— Ele perdeu o controle de um feitiço — respondeu Mantelar.
— Você me lançou contra uma raiz.
— Para impedir que arrancasse minha cabeça.
Médera examinou os dois.
— Declaro empate. Nenhum vencedor termina o treino quase morto e preso no chão.
Mantelar começou a protestar, mas desistiu ao perceber que Adwig concordava com a decisão.
Móretar se levantou.
— Não importa. Cercado por vocês, parece que tudo o que aprendi ficou pequeno. Em poucos dias, todos mudaram de escala e eu continuo tentando descobrir para que sirvo.
Médera se aproximou.
— Poder não substitui julgamento. Mantelar acabou de impedir que você morresse durante uma disputa que nenhum dos dois soube interromper. Talvez isso diga mais sobre capacidade do que o tamanho do golpe.
Móretar olhou para o meio-gigante.
— Obrigado.
— Na próxima vez, começamos sem usar nada que corte pescoços.
Um portal se abriu no centro da clareira. Athos atravessou com a roupa marcada por sangue.
— Poseidon atacou Silency e retirou Hades quando já o tínhamos vencido. Estão em Atlantis. Preciso de vocês na retaguarda.
Os quatro o seguiram.
Athos deixou Médera e Móretar numa passagem atrás do Castelo. Adwig e Mantelar surgiram no alto da torre principal.
— Médera e Móretar procurarão a entrada inferior e manterão uma saída aberta — explicou Athos. — Vocês observarão a sala do trono pela torre. Localizem o soro de Ferne e tirem Silency de lá se eu perder o controle da sala. Não enfrentem Poseidon ou Hades sozinhos.
— E se não houver tempo para esperar? — perguntou Adwig.
— Ajam juntos.
Athos fechou o portal.
— Ainda acha que seremos úteis? — perguntou Mantelar.
— Estou mais difícil de conter agora.
— É justamente por isso que devem querer o soro. Não precisam destruir seu corpo se puderem escolher onde você acordará.
Adwig tocou a espada de Ferne presa à cintura.
O aposento onde estavam parecia pertencer a Afrodite. Tons claros cobriam as paredes, e faixas de luz percorriam as laterais do teto. Não havia janelas suficientes para explicar a iluminação.
Os dois saíram para um corredor. Atrás de uma das grandes portas, Mantelar reconheceu a voz de Athos. Mais adiante, dezenas de soldados estavam desacordados junto a uma escadaria.
— A entrada principal já foi tomada — disse ele.
Adwig voltou ao quarto. Observou a parede externa da torre e comparou sua largura com o espaço interno. A faixa de luz desaparecia atrás de um espelho, embora devesse continuar até o canto.
— Existe um espaço entre este quarto e a parede.
Ela examinou a moldura. Encontrou uma peça móvel, pressionou-a e girou. O espelho se deslocou, revelando uma passagem.
— Parece que sabia onde procurar — disse Mantelar.
— A luz entregou.
Seguiram pelo corredor estreito até uma abertura escondida no fundo de um armário. Pela fresta, viram a sala do trono.
Poseidon mantinha uma barreira diante de Athos e dos demais. Hades segurava Silency, ferida, com uma seringa próxima ao pescoço. Adwig reconheceu o soro e o dispositivo acoplado ao êmbolo.
Athos caiu de joelhos. Levou as mãos à cabeça como se tentasse expulsar alguém de dentro dela.
Hades aproximou a agulha de Silency.
— Eu prendo o braço — sussurrou Adwig. — Você abre caminho até ela.
Mantelar confirmou.
Adwig concentrou-se no braço de Hades. A corrente neuroelétrica alcançou os músculos por poucos segundos. A mão dele parou.
Mantelar rompeu a porta do armário e avançou.
Hades percebeu o ataque antes que Adwig chegasse a Silency. Girou o corpo, lançou Mantelar contra a parede e agarrou Adwig. O controle que ela exercia sobre o braço dele se desfez.
— Poseidon avisou que você tentaria salvá-la — disse Hades.
Ele encostou a seringa no ombro de Adwig.
Ela segurou o pulso dele. A força dos dois rachou o piso. Ao mesmo tempo, Athos atingiu a barreira de Poseidon pelo outro lado. O choque percorreu o Castelo e fez a torre tremer.
Hades pressionou a agulha. A pele de Adwig resistiu, mas ela sabia que não resistiria por muito tempo.
Uma passagem se abriu atrás do trono. Móretar e Médera surgiram por ela.
— A seringa escolhe onde eu vou acordar! — gritou Adwig.
Hades ergueu o braço para golpear com mais força. Móretar avançou e atingiu o pulso dele. A ponta mudou de direção e entrou no ombro de Móretar.
O dispositivo preso à seringa acendeu.
Médera tentou alcançá-lo. Móretar caiu de lado e desapareceu antes que ela tocasse sua mão.
O grito dela atravessou a sala.
Athos rompeu a barreira. Prendeu o braço de Poseidon enquanto Krakor afastava Hades de Adwig. Mantelar se levantou e ajudou Drácula e Sussurro a libertar Silency.
Ela mal conseguia permanecer em pé. Mesmo assim, aproximou-se dos dois inimigos contidos e colocou uma mão na cabeça de cada um.
Poseidon e Hades perderam a consciência. O esforço para atingir os dois ao mesmo tempo também derrubou Silency.
Adwig correu até o ponto onde Móretar desaparecera. Restava apenas a seringa vazia.