Capítulo 10
A segunda muralha se estendia das formações rochosas do oceano até desaparecer no horizonte. Era mais alta que a primeira e não possuía armas visíveis.
O único acesso passava por baixo dela. Uma rampa conduzia a um conjunto de mecanismos que se fechavam e se abriam dentro da pedra. Ao lado da entrada, havia uma pequena abertura usada para comunicação.
Frempor sugeriu que os Coraces pedissem passagem. Adwig recusou.
— Se usarmos os três para entrar sem revelar quem somos, começaremos a conversa com uma mentira.
Ela se aproximou da abertura.
— Gostaria de pedir autorização para entrar.
Uma voz respondeu do outro lado.
— Quem está falando?
— Sou Adwig, filha de Krakor. Fui reconhecida como rainha pelos elfos, recebi um voto de confiança de parte dos Gigantes e iniciei uma negociação com as lideranças das fadas. Quero propor um acordo de paz ao Magnata.
A passagem permaneceu fechada por alguns minutos. Depois, os mecanismos começaram a se mover.
O grupo entrou num corredor subterrâneo iluminado por símbolos artificiais que imitavam fogo. Um dos Coraces que os guiavam se aproximou de Adwig.
— Tem certeza de que é prudente conversar com o Magnata dentro do território dele? É colecionador de artefatos mágicos, controla as tecnologias da Península e não aceita perder nenhuma propriedade.
— Propriedade?
— Para ele, isso inclui pessoas.
Adwig percebeu que o medo dos três não vinha do combate ocorrido na muralha.
— Acreditam que serão mortos por terem nos ajudado.
— Ele já deve saber quem somos — respondeu o socorrista. — Só um milagre nos permitiria sair daqui vivos.
— Então eu serei esse milagre. Nada acontecerá a vocês.
Frempor a olhou, preocupado com a promessa. Adwig também percebeu que havia garantido um resultado que não controlava, mas não voltou atrás.
Quando alcançaram a saída do túnel, encontraram arqueiros e espadachins bloqueando a rampa.
— Ordem do Magnata — anunciou um oficial. — A comitiva deve entregar as armas e permanecer aqui. Somente a rainha seguirá até a mansão.
— Não entregaremos nossas armas — respondeu Frempor.
Os arqueiros prepararam as flechas.
Adwig lançou uma rajada curta. Arcos e espadas foram arrancados das mãos dos soldados. As flechas disparadas caíram sem força antes de atingir a equipe.
— Não viemos atacar a cidade — disse ela. — Minha equipe permanecerá reunida e seguirá comigo até a mansão. Lá, decidirei quem entra na negociação.
O oficial recebeu uma mensagem por um pequeno aparelho preso ao ouvido. Depois abriu passagem.
A cidade acompanhava os morros e as ondulações do terreno. Ruas estreitas passavam entre casas de pedra construídas em alturas e ângulos diferentes. A região possuía poucas árvores e solo difícil. Plantações ocupavam coberturas, sustentadas por sistemas de irrigação, luz e controle de temperatura.
Os Coraces haviam aprendido a produzir alimento onde quase nada crescia naturalmente. Ainda assim, muitas casas demonstravam falta de manutenção, e a distância entre elas e a mansão do governante começou a aparecer antes mesmo que o edifício fosse visto.
Depois de várias curvas, o grupo chegou a uma praça ampla, com jardim, chafariz e esculturas geométricas. A mansão ocupava o outro lado. A iluminação mudou para tons de roxo conforme Adwig avançava.
As ruas haviam comprimido a comitiva. A entrada da mansão fazia o contrário. Portas altas, corredores largos e salas vazias foram construídos para fazer cada visitante parecer menor.
Adwig pediu que todos aguardassem no salão principal.
— Não suba sozinha — disse Frempor. — Tudo o que vimos foi preparado para separar a senhora do grupo.
— Se levar soldados para os aposentos dele, transformo uma negociação em invasão. Se eu não voltar logo, não aceitem nenhuma ordem atribuída a mim.
— Isso não torna a decisão segura.
— Torna a decisão minha.
Adwig subiu.
Luzes acenderam uma sequência pelo corredor e indicaram o caminho. A sala ao final misturava aposento, laboratório e espaço de lazer. Havia lareira, mesa de jogos, estantes, cama, poltronas, um grande monitor e estruturas móveis no teto.
O Magnata apareceu no ponto exato para o qual ela olhava.
Era baixo e magro, com rosto fino. Usava peças de estilos diferentes sobrepostas, proteções de couro nas articulações, cartola, sapatos brancos e acessórios metálicos nos braços, no pescoço, no quadril e nas pernas.
— É uma honra recebê-la, Majestade. Sei o que aconteceu no Palácio dos Elfos, no Vale dos Gigantes e na floresta. As muralhas registraram a composição de sua equipe antes mesmo que atravessassem o mar. Tenho informantes nos quatro territórios.
— Então sabe por que estou aqui.
— Sei que deseja meu reconhecimento. Posso concedê-lo agora, desde que aceite duas condições.
— Quero ouvi-las.
— Os Coraces precisam de alimento, estabilidade climática, proteção contra pragas e acesso ao conhecimento acumulado pelos outros povos. Em troca, encerramos as guerras. A segunda condição é que todos esses recursos sejam administrados por mim.
As necessidades eram legítimas. O controle exigido sobre elas, não.
— Os recursos podem ser distribuídos por um conselho com representantes dos quatro povos. Sua administração precisará ser fiscalizada pelos próprios Coraces.
O Magnata sorriu.
— Você quer saber se o povo me escolheria. Chegou com soldados, derrubou meus guardas e avisou aos outros povos o que aconteceria se recusassem sua liderança. Por que sua imposição se chama união e a minha se chama domínio?
Adwig demorou a responder. A pergunta atingia uma parte verdadeira do caminho que percorrera.
— Porque pretendo devolver a cada povo o direito de decidir sobre a própria vida.
— Pretende. Enquanto isso, decide por todos.
— Decidi impedir que continuassem morrendo separados. Isso não me dá o direito de possuir ninguém.
— O povo não sabe o que é melhor para ele. Se tiver medo suficiente de me enfrentar e conforto suficiente para obedecer, chamará isso de escolha. Você já começou a aprender como funciona.
Adwig preparou uma resposta, mas o Magnata se virou.
— Podemos abandonar as condições. Encontrei uma função melhor para você.
Estruturas transparentes surgiram do piso e se fecharam ao redor dela. Adwig lançou uma descarga contra a superfície. A energia percorreu a redoma, desceu até a base e desapareceu no chão.
Tentou usar o vento. A pressão também foi absorvida.
O Magnata observou sem recuar.
— Força sempre foi o modo mais caro de tentar abrir essa prisão. A redoma combina tecnologia Corace com artefatos recolhidos em outros mundos. Tudo o que é lançado de dentro alimenta o sistema.
Uma parede se abriu ao fundo da sala.
— Agora você governará Key, e eu serei seu porta-voz. Já capturei seres quase imortais, mas nenhum com seu valor.
A redoma foi empurrada para o espaço oculto. Adwig viu objetos, armas e muitos seres vivos presos em estruturas iguais à sua.
Havia prometido proteger os três Coraces.
Agora precisava descobrir como sair dali antes que o Magnata falasse em seu nome.