Capítulo 19
Frempor e Servero chegaram à casa de Mantelar antes do amanhecer. Recolheram os três atiradores, as armas e as seringas encontradas com Philip Ferne.
Adwig pediu que os prisioneiros fossem mantidos sob vigilância, sem contato com o conselho que governava em seu nome. Frempor investigaria como aquele grupo se formara, quais recursos controlava e quem afirmava receber orientações de Teleret.
— Ainda não anuncie que voltei — disse ela. — Primeiro descubra quem se beneficia com a minha morte.
— E se perguntarem de onde vieram esses homens?
— Diga que tentaram matar Mantelar. Isso já é suficiente para mantê-los presos.
Ferne permaneceu amarrado a uma cadeira. Mantelar retirara dele uma pequena maleta, uma espada e um dispositivo preso à roupa.
— Agora me conte como saiu de um planeta que estava sendo destruído e chegou a Key antes de mim — ordenou Adwig.
— Elaryan preparou uma rota — respondeu Ferne. — As coordenadas foram carregadas na espada antes do colapso. Eu deveria enviar você, atravessar pelo portal e esperar a equipe que nos encontrou aqui.
— Os homens que atiravam em você faziam parte da sua equipe?
— Foram enviados para recuperar o equipamento e conter você, se necessário. Não respondiam a mim.
— Quem é Elaryan?
Ferne respirou fundo.
— Uma deusa. Alguém acima de todos nós. Ela sabia que você me capturaria. Sabe tudo.
— Seu planeta foi destruído antes do previsto, seu experimento não produziu o resultado esperado e seus homens acabaram presos na minha casa. Escolha uma dessas coisas e explique onde está o conhecimento absoluto.
Ferne demorou a responder.
— Ela conhece sequências. Prepara caminhos. Isso não significa que conte cada desvio a quem trabalha para ela.
— Então diga apenas o que sabe.
Ele se irritou com a exigência.
— Vocês não compreendem. Elaryan reuniu informações de planetas, vidas e acontecimentos que nenhuma outra pessoa conseguiria comparar. Entregou missões antes que entendêssemos a finalidade. Se continuou financiando a pesquisa depois de cada fracasso, foi porque sabia que chegaríamos a você.
— Ou porque precisava que continuassem tentando até encontrarem alguém em quem o procedimento funcionasse.
Ferne desviou o olhar.
— Massa bruta — murmurou ao notar Mantelar. — Não entenderia nem se eu desenhasse.
Mantelar se aproximou.
— Posso dizer o nome de cada músculo e osso que quebraria se decidisse atingir você. Também conheço as estrelas desta galáxia, suas relações gravitacionais e as alterações que indicam instabilidade. Talvez eu não pratique a sua ciência. Isso não significa que não pratique nenhuma.
Ferne ficou sem resposta.
— Sinto muito. Estou acostumado a organizar pessoas por utilidade. Não é uma justificativa.
— Finalmente concordamos em alguma coisa — respondeu Mantelar.
Adwig retomou o interrogatório.
— O que Elaryan acredita que vai acontecer?
— O Universo continua se expandindo, mas toda a massa acabará atraída de volta ao eixo inicial. Haverá retração, colapso e uma nova expansão. Ela prepara pessoas e recursos para o fim desse processo.
— Como sabe disso?
— Não sei como ela sabe. Também não sei tudo o que pretende fazer. Minha missão era estudar o renascimento dirigido, compreender por que suas capacidades persistem entre mortes e conduzi-la até um corpo compatível com o que acontecerá depois.
— Por que eu?
— Porque seu caminho foi preparado muito antes da explosão.
Ferne contou que registros ligados à antiga profecia de Krakor haviam desaparecido em alguns lugares e reaparecido em outros. Cópias eram preservadas, tradições recebiam novos defensores e pessoas continuavam repetindo que a filha do criador precisaria unificar Key.
— Os registros que levaram Teleret até seu pai não sobreviveram por acaso — disse Ferne. — Elaryan garantiu que a crença continuasse circulando. Precisava que você saísse da caverna e chegasse ao trono.
— A profecia dizia que eu faria tudo isso.
— E fez pessoas passarem séculos preparando você para obedecer quando o momento chegasse.
Adwig pensou em Teleret, no pedido de Krakor e nos fiéis que a haviam recebido como resposta religiosa. A profecia não apenas descrevera um futuro. Ajudara a construir as escolhas que o tornaram possível.
— Talvez até sua recusa tenha sido prevista — continuou Ferne. — Talvez algumas das convicções que considera suas tenham sido colocadas em você.
— Então preciso examiná-las. Não fingir que minhas escolhas deixaram de ser minhas. Quanto menos eu souber sobre a origem de uma ordem, menos direito alguém tem de exigir que eu a cumpra.
Ferne inclinou a cabeça, como se escutasse algo. Levou a mão até uma pequena placa abaixo da orelha.
— Há um chip no meu cérebro. Algumas respostas foram preparadas para situações específicas. Não sei quais são até serem liberadas.
A voz dele mudou por alguns segundos.
— Se Adwig temer perder o corpo reconstruído, diga que nenhuma mudança posterior acontecerá sem a vontade dela.
Ferne voltou a respirar normalmente.
— Foi uma promessa de Elaryan.
— Não uma prova — respondeu Adwig.
— Não.
Ele explicou que a etapa seguinte seria acompanhada por Poseidon. A pequena maleta sintetizaria compostos para destinos de níveis progressivos. Ferne observaria quais características Adwig mantinha e quais surgiam em cada reconstrução.
— Pode interromper depois de qualquer passagem — disse. — Elaryan quer que chegue ao fim, mas o procedimento depende de você suspender a própria defesa. Não consigo obrigá-la a fazer isso.
Adwig olhou para Mantelar.
— Quero descobrir aonde esse plano leva e aumentar minhas chances de proteger Key. Ferne virá sob nossa vigilância.
— E eu vou com você — disse Mantelar.
— Não sabemos o que acontecerá.
— Eu sei. Ainda assim, vou. Parece uma decisão sua porque chegamos ao mesmo lugar. Não é.
Adwig aceitou.
Frempor e Servero levaram os prisioneiros. A investigação do conselho continuaria enquanto a rainha estivesse fora. Dessa vez, sua partida não deixava Key sem ninguém para responder pelo que aconteceria.