Capítulo 4 Adwig — Rainha Imortal · Capítulo 4 de 51
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Capítulo 4

Mantelar pediu um Átrio assim que chegou ao balcão.

A bebida era verde, espessa, muito gelada e tão doce que ele fechou os olhos no primeiro gole. Pequenas bolhas estouravam durante a passagem pela garganta e liberavam uma substância que produzia a sensação de esfriar a cabeça. Por alguns minutos, as preocupações perdiam força. O Átrio também fornecia energia ao organismo, embora não substituísse uma refeição.

Adwig não precisava daquilo. Seu corpo aproveitava energia da luz, do calor, do movimento do ar, do vapor de água e de outros processos que aconteciam ao redor. Em lugares escuros e silenciosos, gastava menos e conseguia armazenar mais. A caverna favorecia essa condição, mas sua reclusão nunca fora motivada somente por uma necessidade do corpo.

Permanecer no balcão sem pedir nada chamaria atenção. Adwig escolheu uma bebida de que gostava quando era mais jovem.

— Jartorá.

O atendente levantou os olhos. Era um elfo bonito, de movimentos precisos, e o espanto surgiu em seu rosto antes que pudesse escondê-lo. Algumas conversas diminuíram ao redor.

Ele pegou uma garrafa que parecia fechada havia muito tempo. O líquido era azul. Ergueu-a acima da cabeça e começou a despejá-lo num copo alto e fino. Durante a queda, a bebida se tornava prateada. Com a outra mão, cortou uma fruta rosada chamada kambo, retirou uma rodela da parte central e a encaixou no copo. As últimas gotas atravessaram a fruta antes de alcançar o restante da bebida.

— Parabéns, Karpo — disse um elfo sentado à direita. — Faz tanto tempo que não prepara um desses e ainda acerta o movimento.

— Obrigado, Celdo. Ainda aparece algum saudosista.

Karpo entregou a bebida a Adwig. Depois se inclinou, fingindo limpar o balcão perto dela e de Mantelar.

— Ninguém pede esse drink na cidade desde que a princesa eterna foi embora — sussurrou. — Por favor, diga que você não é ela. Diga que é apenas uma idiota qualquer. Terminei a reforma do bar esta semana.

Adwig olhou para Mantelar. Ele colocou algumas moedas sobre o balcão e se levantou.

— Precisamos ir — anunciou. — Vamos perder uma encomenda.

Ninguém acreditou.

Um homem perto da porta gritou que a princesa eterna havia retornado. Outro pediu que chamassem os guardas. Algumas pessoas se levantaram para vê-la de perto; duas se ajoelharam, enquanto outras fecharam a passagem para impedir que fugisse antes da chegada das autoridades. O nome de Adwig atravessou o bar em versões diferentes: rainha, bruxa, deusa e traidora.

— As escolhas são simples, Ad — disse Mantelar, tentando falar baixo. — Você acaba com eles rapidamente e não sabemos que estrago isso causa. Eu acabo com eles de forma demorada e dolorida, mas não posso garantir que ninguém chegue até você. Ou derrubamos alguns e corremos.

Todas as pessoas ao redor ouviram.

Adwig respondeu com o olhar.

Mantelar abriu caminho usando os ombros e os braços, afastando quem bloqueava a saída sem recorrer ao machado. Adwig derrubou uma mesa com uma corrente de ar, lançou água de uma torneira sobre dois homens e deslocou cadeiras para impedir a aproximação dos outros. Copos e garrafas escorregaram pelo balcão como se alguém os empurrasse.

Saíram do bar sem ferir ninguém gravemente.

Na rua, a notícia se espalhou mais depressa. Pessoas surgiam das construções de montra, apontavam e gritavam. Algumas queriam tocar Adwig; outras exigiam que fosse levada aos governantes. Seguidores da antiga religião se ajoelhavam no caminho, dificultando a fuga tanto quanto aqueles que tentavam capturá-la.

Adwig e Mantelar foram cercados numa rua larga. Ela avaliou quanto poder precisaria usar para abrir passagem. Manter todos ilesos começava a parecer impossível.

— Parem agora! — gritou uma voz conhecida. — O que pensam que estão fazendo?

Um sacerdote surgiu acompanhado por vários seguidores armados. Adwig reconheceu o Reverendo Verto, amigo de seu pai e fundador da Igreja que venerava o Deus Krakor.

— Se reconheceram a princesa eterna, deveriam saber que ela é a rainha por direito — declarou Verto. — Krakor deixou o trono para lutar por nós em outras dimensões. Como ousam perseguir sua herdeira? Se acreditam estar diante de uma divindade, agradeçam por ela não ter exterminado vocês.

Mantelar olhou para Adwig e levantou as sobrancelhas, como se concordasse com a última parte.

Verto voltou-se para a multidão.

— A volta da rainha anuncia a salvação que esperamos. Eu a receberei em nossa casa e ouvirei o que tem a dizer. Amanhã todos saberão o que nos aguarda. Agora voltem para suas casas e pensem na vergonha do que fizeram.

Adwig percebeu o que acontecia antes que o reverendo terminasse. Verto a salvara da multidão, mas também havia transformado seu retorno em confirmação religiosa, prometido respostas em seu nome e decidido onde ela passaria a noite.

Quando os espectadores começaram a se afastar, ele se ajoelhou, segurou a mão de Adwig e a beijou.

— Pude viver para contemplar seu retorno. Teleret tinha certeza de que você viria.

Adwig retirou a mão com cuidado.

— Eu não confirmei profecia alguma, Verto.

— Naturalmente. Teremos tempo para compreender tudo.

— Você acabou de anunciar à cidade que compreenderia por mim.

O reverendo sustentou o sorriso.

— Se eu não oferecesse uma resposta, outros ofereceriam uma pior. Venham. Temos aposentos preparados. Vocês precisam descansar antes de enfrentar os governantes.

Adwig não gostou da condução, mas precisava de aliados e de um lugar protegido para examinar os próximos passos. Aceitou seguir Verto sem permitir que ele confundisse a decisão com obediência.

Naquela noite, não conseguiu dormir. Ficou junto à janela observando as luzes refletidas na montra. Em poucas horas, deixara a caverna, encontrara Gigantes sendo queimados, reencontrara Mantelar, atravessara o planeta e voltara a ser tratada como divindade.

Pensou no trono. Recuperá-lo sem aliados e sem plano parecia imprudente. Deixá-lo nas mãos de governantes que abandonavam os Gigantes parecia pior.

Uma batida na porta interrompeu seus pensamentos.

— Talvez não seja um bom momento, Verto.

— Não estou sozinho, minha rainha. Há alguém que precisa conhecê-la.

Adwig abriu a porta.

O reverendo entrou acompanhado por alguns visitantes. O homem à frente tinha asas. À primeira vista, Adwig o tomou por um elfo alado, criatura mencionada em mitos antigos. Os traços e o corpo, porém, não permitiam afirmar que pertencesse ao povo dela.

— Este é Athos — apresentou Verto.

— Disseram que você veio de outro planeta — falou Adwig.

— Vim. Preciso de sua ajuda numa tentativa de salvar o Universo.

Adwig esperou que ele sorrisse ou explicasse a brincadeira. Athos permaneceu sério.

— Recebo imagens fragmentadas de acontecimentos que ainda não vivi — continuou. — Eu as interpreto como partes do futuro, mas elas não mostram tudo e não considero nenhuma delas inevitável. Algumas podem ser alteradas. É por isso que estou aqui.

— E uma dessas imagens mostrou que eu ajudaria você?

— Mostrou você em acontecimentos decisivos. O que fará quando chegarmos a eles continua sendo uma escolha sua.

Adwig começou a rir.

Riu como não fazia havia muito tempo, primeiro pela surpresa e depois pelo desespero. Passara séculos escondida, evitando o trono e qualquer atenção. Agora precisava escolher entre assumir o lugar deixado pelo pai para salvar os povos de Key e seguir um desconhecido alado que recebia imagens do futuro para salvar o Universo.

Mantelar apareceu no corredor, atraído pelo riso.

— Perdi alguma coisa?

— Athos veio me convidar para salvar o Universo.

— Então foi bom eu ter trazido Caster.

Adwig riu outra vez. Quando conseguiu se recompor, voltou-se para Athos.

— Você acredita na profecia dos elfos?

— Não acredito em destino. Também não trato minhas imagens como uma ordem. Se o futuro estivesse decidido, eu não precisaria atravessar planetas tentando mudá-lo.

A resposta surpreendeu Adwig. Teleret, Mantelar, Verto e grande parte dos elfos viam sua volta como sinal de uma profecia. O homem que dizia enxergar o futuro era o primeiro a recusar que ela obedecesse a um caminho pronto.

— Antes de qualquer viagem, retomarei o trono e reunirei os povos de Key — disse. — Os Gigantes estão morrendo enquanto os reis protegem as próprias fronteiras. Não vou abandonar este planeta para cumprir outra missão.

— Você pode fazer isso primeiro — respondeu Athos. — Ainda temos algum tempo. Eu preferia não gastá-lo, mas sua decisão em Key também pode alterar o que acontecerá depois.

— Então por que veio esta noite?

— Porque preciso mostrar uma coisa antes que decida se algum dia irá comigo.

Athos estendeu a mão.

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