Capítulo 36 — Parte 36
O palácio pertencia aos contos de fada que Krakor inventava para ela. Quando Adwig era criança, o pai dizia que nenhuma construção poderia superar o palácio dos Elfos Primordiais. Misturava o que conhecia com lugares que jamais visitara, mudava finais e criava novas princesas sempre que a filha pedia outra história.
Médera participava de outra maneira. Corrigia perigos exagerados, cuidava para que as brincadeiras não destruíssem o jardim e ensinava Adwig a reconhecer os elementos verdadeiros escondidos nas invenções do marido.
Durante muito tempo, não houve outras crianças em Key. Teleret falava e agia como adulto desde cedo. Gostava de explorar o mundo e passava dias nas florestas. Adwig preferia lugares conhecidos, com caminhos de volta e portas que pudesse fechar.
Ser observada também a incomodava. As pessoas a tratavam como filha excepcional dos Reis, possível figura de profecias e criança que não se feriria como as demais. No jardim fechado, podia brincar sem precisar representar nada.
Krakor transformava qualquer tarde em aventura. Era seu herói e sua pessoa favorita. Durante aqueles anos, felicidade parecia um lugar pequeno no tempo ao qual ela jamais conseguiria retornar.
Agora, o lugar estava ao redor dela.
Adwig decidiu que queria um baile. Não para fingir que nada havia acontecido, mas porque o palácio recuperara um desejo que ela acreditava ter perdido.
Uma movimentação diante da entrada interrompeu a exploração. Quando saiu, viu Krakor, Médera e Teleret juntos.
Por um instante, suspeitou que a casa tivesse criado os três. Então Teleret inclinou a cabeça do mesmo modo que fazia antes de uma provocação; Médera apertou os dedos contra o próprio braço quando tentava conter emoção; Krakor olhou para as torres procurando diferenças entre a construção e as histórias que contara.
Hermes não conheceria aqueles detalhes.
Adwig correu. Abraçou os três e chorou sem conseguir escolher uma pergunta.
— Vocês estão mesmo aqui?
— Estamos — respondeu Krakor. — E esse palácio ficou mais bonito do que nas minhas histórias.
Athos avisou que Médera precisava contar o que acontecera em Atlas. Antes, porém, Adwig segurou o rosto do irmão.
— Eu vi você morrer.
— Morri em Key e renasci num mundo que não conhecia — respondeu Teleret. — Cannigham me prendeu com o Pasha. Perto do laço, eu não conseguia usar poder algum.
Móretar estava alguns passos atrás, acompanhado por Bornurar e Magibre.
— Bornurar sabia onde ficava a prisão — contou. — Eu, Krakor e Trovar entramos como prisioneiros para alcançar o cabo principal. Libertamos Teleret e os outros que estavam presos.
Bornurar completou a história. Para retirar o Pasha daquele mundo, precisou morrer segurando a arma. Renascera em Fóster, ainda ligado ao laço, pouco antes de o grupo retornar pelo portal de Trovar.
— Você concordou com isso? — perguntou Adwig.
— Depois de ouvir o plano e exigir que todos os prisioneiros fossem libertados — respondeu Bornurar. — Não pretendo repetir a experiência.
Teleret tentou sorrir.
— Houve comida aceitável e pessoas engraçadas. Também houve tempo demais sem poder, sem saída e sem saber onde vocês estavam. O humor ajudou. Não tornou a prisão tranquila.
Adwig abraçou Móretar.
— Obrigada por trazê-lo.
— Bornurar encontrou o caminho. Trovar nos fez entrar e sair. Eu apenas não aceitei deixar os outros para trás.
Quando se afastaram, a atenção entre os dois durou um pouco mais do que exigia o agradecimento. Adwig reconheceu atração, mas não lhe deu ainda significado maior.
Médera começou a contar o que ocorrera em Atlas. Poseidon fora atrás do tridente. Matou os habitantes que ainda restavam no planeta e matou Lúcifer naquele corpo. Quando ela tentou enfrentá-lo, impediu repetidamente que se curasse, quebrando o que ela conseguia reparar.
— Ele queria que eu dissesse onde estava a arma — explicou. — Quando se convenceu de que não estava em Atlas, foi embora. Athos me encontrou depois.
— A morte de Lúcifer foi definitiva? — perguntou Adwig.
— Não encontrei sinal de destruição da partícula cerebral — disse Athos. — Ele pode ter renascido em outra frente. Em Atlas, não havia mais sobreviventes físicos.
Adwig segurou a mão da mãe. Nenhuma frase poderia diminuir o que ela atravessara.
Krakor disse que ainda precisava levar Bornurar e Magibre a Key. Scélor, pai de Bornurar e origem daquela parte da linhagem das fadas, exercia a regência do planeta.
— Móretar irá conosco — disse Bornurar. — Depois de tudo, quero que meu filho veja de onde vieram algumas das histórias da nossa família.
— E quero saber como Key está sendo governado — acrescentou Móretar.
Krakor informou que o tridente permanecia com Drácula.
— Poseidon já mostrou que continuará procurando — disse Médera. — Você pode levá-lo, mas não para provocá-lo. A prioridade é impedir que a arma volte às mãos dele.
— Se eu encontrar Poseidon?
— Volte com informação e aliados. Não transforme a arma em convite.
Krakor concordou, menos satisfeito do que estaria com permissão para duelo.
Adwig olhou para Móretar.
— Você volta?
— Pretendo voltar antes do baile.
— Então talvez ainda alcance a última dança.
Krakor abriu um sorriso.
— Haverá baile?
— Se vocês não demorarem.
Móretar, Krakor, Bornurar e Magibre partiram depois de buscar o tridente com Drácula.
Athos voltou a Atlas para confirmar se alguma pessoa permanecera fora do alcance de sua primeira busca. Adwig ficou com Médera e Teleret.
— Me desculpe — disse ela ao irmão.
— Pelo quê?
— Pela raiva que carreguei depois da sua morte. Por ter transformado você, durante tanto tempo, apenas na última coisa que me pediu.
Teleret baixou os olhos.
— Eu pressionei você a cumprir uma profecia que nunca escolheu. Acreditei que o resultado justificaria isso. Não justificava.
— Ainda não sei o que fazer com tudo.
— Nem eu. Podemos não resolver hoje.
Athos retornou e confirmou que não encontrara outros sobreviventes em Atlas.
Adwig olhou para o palácio e pensou em cancelar a festa.
— Talvez não seja a hora de um baile.
Médera apertou sua mão.
— Não faça isso por mim. Não quero fingir que Atlas não aconteceu. Quero passar esta noite com meus filhos porque aconteceu e eu sobrevivi.
— Então haverá baile — decidiu Adwig. — Mesmo que a última dança comece sem meu pai.