Capítulo 20
Philip Ferne abriu a pequena maleta. Uma tela exibia o mapa do Universo; ao lado dela, um compartimento sintetizava o composto correspondente às coordenadas escolhidas.
— O primeiro destino é um planeta de nível três — explicou. — Os níveis indicam as condições disponíveis para reconstrução e as capacidades que um corpo pode sustentar. Não significam que seus habitantes sejam melhores.
Adwig examinou as coordenadas e a composição apresentada na tela.
— O que acontece se eu resistir no meio do processo?
— Não sei onde sua partícula terminará. Quando o soro alcançar o cérebro, precisará suspender a defesa até a morte.
— E se eu não reconhecer o corpo seguinte?
— Encerramos. Outra passagem só acontecerá se pedir.
Adwig autorizou a aplicação.
Enquanto o composto circulava, Ferne retirou a espada da bainha. Mantelar observava os dois, pronto para interromper se Adwig mudasse de ideia.
Ela fechou os olhos e deixou a defesa corporal recuar. A morte veio sem dor, mas a perda de orientação durou mais do que esperava.
Ferne ergueu a espada. A lâmina não cortou o espaço. Conduziu energia por linhas que se encontraram diante da ponta e afastaram dois pontos antes distantes. Mantelar acompanhou Ferne pelo portal.
Adwig despertou num terreno vermelho, sob um céu escuro. Reconheceu Mantelar, o próprio nome e tudo o que acontecera em Key.
— Lembra-se de Teleret? — perguntou Mantelar.
— Lembro.
— De Alice?
— Também.
Ela testou a respiração, o equilíbrio e a energia. O corpo estava mais pesado que o anterior, mas armazenava calor com facilidade. Uma descarga curta surgiu entre seus dedos.
— Quero entender a espada — disse a Ferne. — Quem ensinou você a abrir passagens?
— A própria arma conduz a técnica. Eu forneço energia e destino.
A resposta não explicou a origem, mas confirmou que a espada carregava conhecimento em sua estrutura.
Ferne apresentou a etapa seguinte. Atlas era um planeta de nível quatro. Adwig conferiu as informações, esperou que o corpo se estabilizasse e pediu que preparasse o composto.
A segunda passagem foi mais difícil. Por um instante, não reconheceu a voz de Mantelar. A lembrança voltou antes que Ferne perguntasse se deveriam prosseguir.
— Não haverá outra morte sem que eu decida — disse Adwig.
— Foi o combinado.
Quando abriu os olhos por completo, estava em Atlas.
A cidade existia sob uma substância que não era água comum nem ar. Adwig conseguia respirar, falar e se deslocar como se nadasse, embora os movimentos oferecessem menos resistência. Casas afastadas cercavam construções muito maiores. Entradas se abriam acima do solo, e imagens holográficas se misturavam a objetos materiais.
— Atlantis é o reino de Poseidon — explicou Ferne. — Ocupa apenas uma parte de Atlas.
Adwig experimentou o novo ambiente com cuidado. Criou uma pequena corrente, reuniu uma bolha de ar e produziu uma chama breve dentro dela. Depois deixou eletricidade percorrer dois dedos. Cada teste consumia concentração, mas demonstrava que o corpo reunia capacidades das passagens anteriores.
Ferne os conduziu até uma estrutura hexagonal.
Mantelar seguiu para a entrada principal.
— Não podemos entrar por ali — disse Ferne. — Poseidon não autorizou nossa chegada por esse acesso.
— Ele autorizou nossa chegada? — perguntou Adwig.
— Autorizou que eu a levasse até ele. Não especificou como.
Subiram por uma passagem lateral. Ferne usou a espada para abrir uma fenda na parede e fechou-a depois que os três atravessaram.
O interior parecia formado por nuvens densas. Caminhos circulares os levaram até uma sala onde quatro pessoas estavam reunidas.
Uma mulher permanecia ajoelhada diante de Poseidon. Um homem de aparência reptiliana observava com os punhos fechados. Perto dele estava Eros, cuja tranquilidade parecia calculada para não revelar de que lado ficaria.
Adwig percebeu que a mulher evitava olhar para Poseidon.
— Quer permanecer aqui? — perguntou.
A mulher olhou primeiro para o rei.
— Perguntei a você.
— Não — respondeu.
Poseidon segurou o ombro dela antes que se levantasse.
Adwig concentrou a corrente elétrica nos músculos do braço dele. Os dedos se abriram por poucos segundos. O esforço exigiu mais energia do que os testes anteriores, e ela soube que não conseguiria manter o efeito.
A mulher se afastou.
Poseidon examinou Adwig sem tentar alcançá-la outra vez.
— A princesa de Key finalmente chegou.
— Rainha — corrigiu Mantelar.
Poseidon riu.
— Então a filha de Krakor conquistou um título enquanto eu não prestava atenção.
— Não foi meu pai quem me deu o trono — respondeu Adwig.
O homem reptiliano a encarava como se a reconhecesse. Adwig também encontrou algo familiar na forma como ele controlava a raiva, mas não teve tempo de compreender.
Poseidon voltou-se para a mulher.
— Marjone, aproveite Atlantis. Considere encerrado nosso encontro.
Ela se afastou ao lado do reptiliano.
Ferne se aproximou com cautela.
— Lorde Poseidon, o processo de nível quatro foi concluído.
— Percebi. Ela já interfere no sistema nervoso de alguém mais poderoso sem precisar tocá-lo.
— Continuo protegido? — perguntou Ferne.
— Protegido, não. Necessário. Recomendo que não descubra a diferença tarde demais.
Poseidon fez o tridente surgir e abriu outra passagem.
— A etapa seguinte está preparada.
Adwig olhou para Mantelar.
— Quero descobrir até onde isso vai.
— Eu também — respondeu ele.
Eros atravessou depois de Poseidon. Antes de partir, olhou para o reptiliano e sorriu como se os dois compartilhassem uma informação que os demais desconheciam.
Adwig entrou no portal com Mantelar. Ferne veio por último.