Capítulo 31 — Parte 31 Adwig — Rainha Imortal · Capítulo 31 de 51
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Capítulo 31 — Parte 31

— Ela usou a palavra? — perguntou Adwig.

Dafa deixou a fruta roxa sobre a mesa antes de responder.

— Uma vez. Eu parei antes que terminasse de dizer.

— E depois?

— Cleópatra pediu água, descansou e decidiu se queria continuar. Não foi leve. Foi escolhido.

Adwig assentiu. Cleópatra dormia no quarto ao lado porque quisera ficar sozinha por algum tempo. Quando acordasse, as três ainda conversariam. A noite deixara marcas no corpo dela, embora tivesse recusado a cura imediata. Queria reconhecer as próprias sensações antes de apagá-las.

Adwig se acomodou na cadeira, cruzou as pernas e apoiou um dos pés na beirada da mesa. Ainda experimentava a postura, as roupas e uma liberdade que, em Key, costumava observar apenas nos outros. Não havia se tornado outra pessoa. Apenas descobria o que também podia ser.

Lottor entrou acompanhado por dois guardas.

— Majestade, os líderes empresariais acionaram o toque de recolher. As atividades foram suspensas e todos receberam ordem para voltar para casa.

— Os Reis deixaram o governo por um dia e os empresários assumiram o comando? — perguntou Adwig.

— Eles mantêm o funcionamento das comunidades quando a rotina é interrompida.

Cleópatra apareceu à porta, enrolada num tecido claro. Parecia cansada, mas não fragilizada.

— A monarquia nunca interferiu nisso — explicou. — Eu acreditava que fosse automático. Ninguém nos pedia autorização.

— Então queremos saber quem autoriza — disse Dafa.

Cleópatra avisou que voltaria a descansar. Adwig esperou até que ela fechasse a porta.

Eles obedeceram ao toque de recolher sem perguntar quem podia decretá-lo, pensou.

Dafa virou o rosto para ela.

— Você enviou isso ou eu atravessei sua defesa?

— Enviei sem perceber.

— Então escolhemos um sinal antes de usar de novo.

Adwig concordou. Tocou duas vezes a própria têmpora.

— Isto. Fora de uma emergência, só abrimos o caminho depois do sinal.

— E, se eu pedir que saia da minha cabeça, você sai.

— No mesmo instante.

Lottor assistia à conversa sem compreender.

— Depois do almoço, você nos levará à cidade — decidiu Adwig. — Não para obrigar ninguém a trabalhar. Quero ver quem executa o toque de recolher e por que todos obedecem.

As cozinheiras serviram pratos compostos pelas mesmas formas, cores e proporções das refeições anteriores. A comida não era ruim, mas todos os sabores pareciam calculados para garantir nutrição, duração e previsibilidade.

— Até o prazer tem medida — disse Dafa.

— Eles não sabem reagir sem instrução — respondeu Adwig.

— Foi o que eu disse.

— E nós chegamos anunciadas como assassinas, cercamos o céu de nuvens e retiramos os Reis. Parte desse medo também é nossa.

Dafa não contestou. Olhou para as cozinheiras reunidas perto da saída e afastou o prato.

Dircle surgiu sobre a mesa.

— Os mantenedores perceberam a ruptura.

— Que mantenedores? — perguntou Adwig.

— Os que aparecem quando a comunidade sai do curso.

— E o que eles fazem?

— Readequação.

Antes que Adwig exigisse uma explicação, o gnomo desapareceu.

O ar diante da mesa perdeu a transparência. Três elfos surgiram no espaço aberto entre as cadeiras e a porta. O primeiro sustentava ao redor do corpo uma camada esbranquiçada, quase translúcida. O segundo era mais alto e mantinha os braços imóveis, como se medisse cada movimento das duas. O terceiro observava os limites do aposento e as possíveis rotas de saída.

— Fomos nós que ensinamos o medo a eles — disse o primeiro. — E vocês o transformaram em desordem.

— Quem são vocês? — perguntou Adwig.

— Eu me chamo Klif. Estes são Gagoim e Bortu. Mantemos a paz deste mundo. A comunidade H apresentou comportamentos fora dos padrões e deverá passar por uma readequação social.

— Quem autorizou essa readequação? — perguntou Adwig. — E o que acontece com quem não se adequa?

— A comunidade H é mantida dentro dos padrões definidos por uma instância superior. O procedimento não depende da autorização dos Reis.

— Então depende de quem?

Klif não respondeu.

Dafa tocou duas vezes a têmpora. Prendemos primeiro. Perguntamos aos originais depois.

Adwig alterou a pressão do ar ao redor dos três. Os corpos foram empurrados uns contra os outros, mas não demonstraram dor nem necessidade de respirar. Gagoim abriu uma fenda na corrente de vento; Bortu avançou por ela.

Adwig lançou a pequena adaga que carregava. A arma cresceu durante a queda e retornou à forma de cetro. Dafa a apanhou e golpeou o chão entre os adversários. A energia percorreu a haste e encontrou três pontos luminosos nos corpos contidos.

Ela atingiu cada um deles.

Os elfos se desfizeram antes de tocar o chão.

— Não eram os originais — disse Dafa.

Adwig manteve o ar em movimento ao redor das duas.

— Então agora sabemos que a autoridade invisível também prefere não mostrar o rosto.

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