Capítulo 18
Adwig despertou com gotas de orvalho caindo sobre o rosto.
Por um instante, temeu ter voltado à vida de Alice. Então reconheceu a floresta, lembrou-se de Key e soube o próprio nome.
A aparência era a mesma. O corpo, não.
Quando tentou se levantar, flutuou. Já voara muitas vezes, mas agora precisava exercer força para permanecer no chão. Usou a pressão do ar contra si até conseguir caminhar.
Estava perto da casa de Mantelar.
Antes do procedimento, pensara naquele lugar. Talvez o pensamento tivesse ajudado a partícula a escolher onde reconstruí-la. Talvez fosse apenas a proximidade possível das coordenadas indicadas a Ferne. Ainda não conhecia a regra.
Mantelar a viu pela janela e correu para fora. Parou a um passo dela.
— É você?
Adwig tocou o rosto dele. Depois o puxou para o beijo.
Mantelar a abraçou com cuidado, como se ainda esperasse que ela desaparecesse.
— Por que está aqui? — perguntou Adwig. — Não deveria estar atravessando o Universo para me procurar?
— Você pediu que eu ficasse. Eu não sabia onde procurar, e Key ficou sem governo depois da sua morte. Permanecer foi a única coisa que eu ainda podia escolher.
Entraram na casa. O cheiro de um ensopado despertou em Adwig uma fome desconhecida. Antes, comer era prazer e costume. Agora o corpo exigia alimento.
Enquanto comiam, ela contou sobre o planeta condenado, Alice e Philip Ferne. Mantelar explicou o que acontecera em Key.
A morte da rainha havia sido transformada em história de sacrifício. Um conselho formado por elfos e fadas assumira o poder prometendo escolher representantes para todos os povos. Em vez disso, seus integrantes passaram a cobrar recursos e obediência em nome de Adwig, Krakor e Teleret.
— Usaram até meu irmão?
— Dizem receber orientação dele na nova vida. Ninguém apresentou prova.
Adwig bateu a mão na mesa. A madeira se partiu e uma descarga percorreu os dois lados antes que caíssem.
Mantelar recuou.
— Isso foi novo.
Adwig olhou para os dedos.
— Ainda não sei o que este corpo faz.
— Podemos descobrir num lugar em que não existam mesas.
Ela quase sorriu.
Antes de qualquer teste, decidiram procurar Frempor e os representantes que haviam organizado a administração provisória. Adwig precisava descobrir como o conselho se formara, quem o sustentava e quais comunidades estavam sendo exploradas. Não tomaria outra decisão apenas porque voltara mais poderosa.
Mantelar cobriu a mão dela com a dele.
— Podemos começar ao amanhecer. Se quiser ficar aqui esta noite, eu quero que fique.
— Eu também quero.
A intimidade entre eles recuperou algo que os séculos, a distância e as mortes não haviam apagado. Adwig reconhecia Mantelar, mas precisava descobrir as respostas do novo corpo. Ele prestou atenção a cada mudança e esperou sempre que ela indicasse o que desejava.
Adormeceram juntos.
Um disparo destruiu parte da parede.
Adwig e Mantelar saíram da cama enquanto outro tiro atravessava a casa. Um homem coberto por proteções caiu pela porta e atirou para fora.
— Adwig! Eles descobriram. Precisamos partir.
Ela reconheceu a voz.
— Philip Ferne.
O cientista retirou duas seringas da roupa.
— Eu a enviei para Key. Posso fazer novamente. As injeções levarão você e Mantelar a um planeta seguro.
Adwig não pegou nenhuma delas.
— Você estava num planeta prestes a ser destruído. Para chegar aqui, teria de morrer, renascer, recuperar suas lembranças e encontrar Key antes de mim. Agora aparece com duas seringas prontas e homens atirando na sua direção.
Ferne ergueu as mãos.
— Posso explicar.
— Vai explicar. Primeiro, mande seus homens baixarem as armas.
— Eles não obedecem a mim.
Adwig olhou para Mantelar. Ele compreendeu.
O meio-gigante saltou sobre Ferne, agarrou-o por trás e saiu da casa usando-o como proteção. Os disparos cessaram.
Adwig atravessou o teto. Sua visão alcançou três atiradores entre as árvores. Tentou derrubar galhos sobre eles com o vento. O primeiro golpe passou perto demais de Mantelar, e ela precisou alterar a corrente no meio da queda.
Na segunda tentativa, acertou as armas. Na terceira, derrubou os homens sem matá-los.
Desceu diante de Ferne. Mantelar já havia retirado as seringas e qualquer arma que o cientista carregava.
Adwig ainda não sabia se aquele corpo podia morrer de modo comum, se renasceria outra vez ou quanto poder conseguia controlar. Sabia apenas que Philip Ferne não chegara ali sozinho.
— Agora me conte a verdade.