Capítulo 30
Cinco dias depois, apresentações aconteciam diariamente no jardim. Pessoas cantavam, contavam histórias e mostravam objetos que construíam longe dos horários de trabalho.
Fora daquele espaço, quase tudo continuava igual.
— Os responsáveis pelos serviços restauraram os horários completos — contou Lottor durante a reunião com os Reis. — Alegaram que ninguém os autorizou a alterar as rotinas por mais de um dia.
— Diga aos insatisfeitos que tomem as rédeas da própria vida — respondeu Dafa.
— Eles perguntam qual procedimento devem seguir para fazer isso.
Dafa levou Adwig para fora da Fortaleza. Subiram até as nuvens, onde a luz deixava o céu com um tom roxo.
— Mandar as pessoas serem livres ainda é mandar — disse Adwig.
— Então o que fazemos? O que produz caos sem morte e destruição?
Adwig demorou a responder.
— Morrer não é desaparecer para sempre — disse Dafa.
— Também não é acordar no quarto ao lado. É perder um corpo, um lugar e, às vezes, todas as pessoas que sabiam seu nome.
Pensou em Teleret, vivo em outro corpo e ainda inalcançável. Pensou em Mantelar, separado dela por um caminho que não conseguia reconstruir.
— Não mataremos ninguém para ensinar uma sociedade a escolher.
— Então precisamos retirar quem continua escolhendo por ela.
Voltaram à câmara de conselho e propuseram que os Reis suspendessem voluntariamente a própria autoridade. Durante um dia, nenhuma ordem real seria emitida. Assembleias abertas decidiriam o que manter, interromper ou modificar.
— E se ninguém decidir nada? — perguntou Cleópatra, a Rainha.
— Isso também será uma resposta — disse Adwig.
O Rei olhou para a esposa. Os dois concordaram.
Adwig escureceu o céu para chamar a atenção da cidade. Nuvens carregadas se reuniram acima da Fortaleza, mas não produziram raios nem tempestade.
No jardim central, o Rei retirou a coroa.
— Pelas próximas vinte e quatro horas, não haverá ordens da monarquia. Decidam quais atividades importam, quais desejam interromper e como pretendem resolver o que surgir.
O povo aguardou uma instrução seguinte que não veio.
— Eu também me afastarei da cidade — continuou ele. — Pela primeira vez, não como Rei em missão. Apenas porque escolhi sair.
Adwig o levou para uma região distante, perto de um lago cercado por areia. Dafa os acompanhou.
— Onde ficarei? — perguntou o homem.
Adwig abriu uma passagem no solo usando o vento. A escuridão fortaleceu sua energia, e ela fez raízes, folhas e flores ocuparem a caverna. Conduziu parte da água do lago por um canal subterrâneo, criando um curso que descia por uma parede e retornava à superfície.
Pequenas borboletas surgiram entre as plantas.
Dafa observou as asas se multiplicarem.
— Elas vieram de você.
— Minha simbiose é uma borboleta. Quando a libero, ela pode se reproduzir dessa forma.
— Por que nunca contou?
— Passei tempo demais cercada por pessoas que esperavam uma deusa, uma bruxa ou uma guerreira. Uma borboleta parecia frágil demais para qualquer dessas imagens.
O antigo Rei percorreu a caverna.
— Durante quanto tempo deseja permanecer aqui? — perguntou Adwig.
Ele olhou para o rio e para as borboletas.
— Não sei. É a primeira vez que alguém me pergunta o que desejo sem acrescentar Majestade no fim.
Adwig mostrou a saída, as plantas comestíveis e a passagem pela qual poderia chamá-la caso precisasse de ajuda.
— Não está preso. Pode voltar quando quiser.
— Acho que vou começar com um dia. Depois decido o próximo.
Adwig e Dafa retornaram à Fortaleza.
Cleópatra as esperava sem a coroa. Parecia inquieta, mas não apavorada.
— Seu marido está vivo e escolheu permanecer no retiro — disse Adwig. — Você não é nossa prisioneira e pode sair por aquela porta. Agora quero saber o que Cleópatra deseja quando não precisa responder como Rainha.
Ela olhou para a saída.
— Esperei por toda a vida por alguma coisa que rompesse o controle. Quando vocês chegaram, tive medo de morrer. Parte de mim também sentiu alívio por imaginar que, finalmente, eu não teria de decidir nada.
Dafa se aproximou.
— Entregar uma decisão ainda é decidir. Mas não faremos nada enquanto o medo de nós puder ser confundido com desejo.
— E se eu quiser descobrir até onde consigo me entregar?
— Primeiro precisa aprender que pode dizer não — respondeu Dafa. — Depois conversamos sobre o que deseja pedir.
Cleópatra atravessou a porta, caminhou até o corredor e voltou por vontade própria.
— Estou ficando.
Conversaram por muito tempo. Cleópatra falou sobre limites que nunca tivera oportunidade de nomear. Dafa pediu que escolhesse uma palavra capaz de interromper tudo.
— Coroa — respondeu ela.
— Se disser essa palavra, paramos — disse Adwig. — Sem perguntas, sem punição e sem tentativa de convencê-la.
Cleópatra beijou Dafa. Depois se voltou para Adwig e esperou.
Adwig encostou a testa na dela.
— Tem certeza?
— Tenho.
Cleópatra a beijou também.