Capítulo 15 Adwig — Rainha Imortal · Capítulo 15 de 51
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Capítulo 15

Em outro planeta, uma mulher despertou com gotas frias caindo sobre o rosto.

Reconheceu árvores, céu e chuva. Não reconheceu a si mesma.

A floresta era formada por troncos altos e copas afastadas, carregadas de frutos coloridos. O céu azul permitia ver estrelas mesmo sob a luz forte de um sol. Outros corpos celestes se deslocavam depressa, sem trajetória regular, como se não pertencessem àquele sistema.

Ela sabia nomear as cores, distinguia flores de frutos e percebeu que as estrelas não deveriam estar tão visíveis durante o dia. Quando tentou lembrar onde aprendera qualquer uma dessas coisas, não encontrou nada.

Não havia rosto, lugar ou acontecimento ligado a ela.

Levantou-se com tontura, caminhou alguns passos e tropeçou numa raiz.

— Quem é você? — perguntou uma voz. — O que faz aqui?

Ela olhou para a árvore na qual havia caído.

— Não faço ideia. Árvores falam?

— Claro que não. Eu estou dentro da árvore.

Isso não ajudou.

— Aqui!

Ela se aproximou e encontrou um homem de cerca de trinta centímetros numa abertura do tronco. Ele mantinha mãos e pés encaixados na madeira. Soltou-se, planou por uma distância curta e pousou no ombro dela.

— Não se mexa depressa. Sei planar, mas prefiro não precisar. Meu nome é Saturne.

— Você sabe quem eu sou?

— Ainda não. Acontece de alguns renascidos chegarem sem lembranças. Ultimamente, tem acontecido mais do que deveria. Groguerar talvez consiga ajudar.

Saturne indicou o caminho, segurando-se na gola da roupa dela. A mulher só então reparou que vestia blusa grossa, calças com muitos bolsos e botas impermeáveis. Tudo preto.

Não gostava de roupas pretas.

A certeza surgiu sem explicação. Podia ser uma lembrança ou apenas uma opinião formada naquele momento.

— Está pensando na morte do Calugo? — perguntou Saturne.

— Não sei quem é Calugo.

— Ninguém sabe mais. Por isso pensamos tanto na morte dele.

Ela decidiu caminhar antes que a conversa ficasse ainda menos compreensível.

A paisagem mudava depressa. Árvores espinhosas davam lugar a plantas de folhas largas, e os perfumes variavam conforme atravessavam cada trecho. Chegaram a uma passagem aberta numa montanha. Depois de algumas descidas e curvas no escuro, uma claridade azul apareceu adiante.

Do outro lado havia uma fortaleza subterrânea feita de gelo. Colunas, pontes e paredes se distribuíam por uma cavidade tão ampla que a luz não alcançava o teto.

— Groguerar construiu tudo — explicou Saturne. — Manipula água em estado sólido. Também guarda comida e suprimentos para o caso de guerra, desastre ou outra ideia ruim de alguém poderoso.

— E ele ajuda pessoas sem memória?

— Quando está de bom humor.

— Como é que é, Saturne? — perguntou uma voz atrás deles.

O homem que se aproximava era gigantesco, com ombros largos e expressão pouco receptiva.

Saturne tentou se esconder atrás dos cabelos da mulher.

— Eu disse que você ajuda as pessoas sempre com muito bom humor.

Groguerar olhou para ela.

— Outra renascida sem memória?

— Eu acho — respondeu a mulher.

— Isso está ficando frequente. O rei precisa investigar.

Groguerar ainda conversava com outra pessoa do lado oposto de uma divisória de gelo. Era um homem de cabelos desarrumados que se movimentava enquanto falava, como se ficar parado lhe custasse esforço.

— Aquele é Drevuz, mensageiro do rei — sussurrou Saturne.

A mulher observou Drevuz por tempo demais. Não sabia quem era, mas seu corpo parecia possuir critérios próprios para reconhecê-lo como atraente. Ele percebeu, olhou para ela e perdeu o ponto da conversa. Ao sair, voltou a cabeça mais uma vez e quase pisou fora da passagem.

Groguerar nem precisou se virar para notar.

— Um idiota de bom coração — comentou Saturne. — Combina com um gigante grosseiro de bom coração.

— Um dia vou confundir você com um inseto e esmagá-lo.

— Não existem insetos aqui.

— Imagine meu estado para cometer um erro desses.

Groguerar riu. O som pareceu estranho até para ele.

Depois conduziu a mulher até uma plataforma baixa.

— O frio reduzirá os estímulos do corpo. Em seguida aplicarei uma descarga leve na base da sua cabeça. Pode não acontecer nada. Pode doer. Você pode interromper quando quiser.

Ele mostrou uma proteção térmica para os braços, pernas e tronco. Apenas a nuca ficaria exposta ao gelo.

— Quer tentar?

Ela concordou.

Deitou-se de bruços. O frio atravessou a nuca, tornou-se dor e depois diminuiu. Groguerar tocou a base da cabeça dela.

A primeira descarga trouxe imagens sem ordem. Na segunda, viu o interior de um avião. Havia fogo, pessoas gritando e uma queda que seu corpo reconheceu antes que a lembrança desaparecesse.

As tentativas seguintes não produziram nada.

— Chega — disse Groguerar. — Minha hipótese é que lembranças de outras vidas dependem da ligação entre o cérebro atual e a partícula essencial. Consegui provocar uma resposta, mas insistir pode causar dano. Outras experiências talvez recuperem o acesso naturalmente.

Ela se levantou.

— Preciso de um nome enquanto isso.

— Como quer ser chamada? — perguntou Saturne.

— Alice.

A resposta veio tão depressa que os três ficaram em silêncio.

— Parece que alguma coisa voltou — disse Saturne.

Alice deixou a fortaleza com ele. Seguiram por uma trilha mais aberta, em direção às primeiras construções da cidade.

— Ainda é dia? — perguntou ela.

— O ciclo dura perto de oitenta horas. A noite ocupa apenas três, mas é quando quase ninguém quer ficar do lado de fora.

— Por quê?

Saturne apontou para a cidade.

— Prefiro explicar dentro de uma casa.

Gritos vieram antes que alcançassem as ruas.

Criaturas escuras corriam entre as construções. Tinham o corpo coberto por pelos misturados a escamas e dedos brancos, longos demais para as mãos e os pés.

— Golfens — disse Saturne. — Eles nunca atacam durante o dia.

Mandou Alice correr até uma árvore, mas seis criaturas já os cercavam.

— Foi bom conhecer você — disse o pequeno, sem convicção alguma de que voltariam a conversar.

Os Golfens saltaram.

O primeiro tocou o braço de Alice e se desfez em fumaça. Os outros sofreram o mesmo ao atingi-la. Um cheiro forte tomou o ar, e pequenas queimaduras surgiram nos lugares em que os dedos brancos encostaram.

As criaturas espalhadas pela cidade soltaram um grito agudo. Depois fugiram.

Saturne olhou para Alice e, em seguida, para as marcas deixadas na estrada.

— Você pode ser a Prometida.

— Com base em quê?

— Em textos escritos antes da chegada de Baltazar. Eles dizem que ele criaria seres de trevas e que uma mulher seria capaz de destruí-los. Também dizem que ela poderia se voltar contra nós.

— E decidiu que sou essa mulher porque monstros morreram quando me tocaram.

— É o que tenho por enquanto.

— Espero que esteja certo sobre a primeira parte — disse uma voz atrás deles. — Quanto à segunda, farei o possível para impedir que qualquer força a corrompa.

Um homem vinha na direção de Alice, acompanhado por guardas e moradores da cidade. Ela reconheceu a voz que, durante o ataque, prometera protegê-la.

Saturne se inclinou perto do ouvido dela.

— Rei Kaled.

Alice observou o homem que já falava em protegê-la antes mesmo de perguntar quem ela era.

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