Capítulo 14
Séculos antes, no primeiro parto de Key, Médera apertava a mão de Krakor enquanto outra contração atravessava seu corpo.
A gestação completara doze meses. As tecnologias trazidas por Krakor ajudavam a acompanhar as crianças, mas não ofereciam comparação. Ninguém havia passado por uma gravidez como aquela.
— Perdoe-me — disse Krakor. — Não deveria ter colocado sua vida em risco.
Médera esperou a dor diminuir.
— Você não decidiu sozinho. Eu sabia que não havia garantias.
— Saber não tornou isso menos perigoso.
— Não. Mas continua sendo uma escolha minha.
Antes de Key, Médera vivia em Zen, planeta formado principalmente por pessoas vindas de Erulen. As condições naturais eram parecidas, e a nova vida repetira grande parte da organização de Erulen. A produção era imposta, os recursos se concentravam nas mãos de poucos e governantes se apresentavam como protetores para justificar o domínio sobre os demais.
Foi ali que ela conheceu Krakor.
Ele era um dos Doze do Éden. O grupo viajava por outros planetas para estudar sociedades e acumular conhecimento, com a recomendação de interferir o mínimo possível. Krakor nunca demonstrara grande capacidade de obedecer a esse limite.
O interesse entre ele e Médera surgiu cedo. O amor veio depois, enquanto discutiam sobre o modo como a comunidade dela vivia, sobre o poder que ele possuía e sobre aquilo que se recusava a fazer com esse poder.
Krakor começou a ajudar no cultivo e na construção de abrigos. Tentou esconder a origem das mudanças, mas os governantes de Zen perceberam. Ordenaram que partisse e ameaçaram aprisionar toda a comunidade caso continuasse interferindo.
Ele voltou ao Éden e pediu aos outros onze autorização para preparar um planeta desabitado. A proposta foi aceita como experiência que não deveria ser repetida. Krakor retornou a Zen, apresentou Key e permitiu que cada pessoa decidisse se desejava partir.
Médera foi uma das primeiras a aceitar.
Krakor tornou o planeta habitável, construiu as primeiras estruturas e usou as lembranças de Nordok para planejar a região que mais tarde seria conhecida como Terra dos Elfos. Em Nordok, muitos elfos ofereciam energia e direção para que a matéria assumisse uma forma comum. Em Key, os primeiros abrigos, canais e áreas de cultivo respondiam somente ao poder de Krakor. Os moradores podiam modificar o que recebiam com trabalho e outros recursos, mas a base do novo mundo nascera de uma decisão individual.
Médera percebeu a diferença. Ele havia retirado aquelas pessoas de governantes que concentravam produção e proteção; agora, toda construção essencial dependia de sua capacidade. Krakor dizia que a dependência terminaria quando a comunidade dominasse outras formas de manter o planeta. Enquanto isso, cada solução ampliava a autoridade que ele afirmava exercer apenas por necessidade.
Oferecer um lugar seguro não bastava. Os adultos que chegavam a Key eram renascidos e não conseguiam gerar novas vidas.
Os Elfos Primordiais de Nordok haviam estudado casos em que pessoas renascidas conceberam com seres de primeira vida. A partir desse conhecimento, Krakor desenvolveu um procedimento com material biológico de corpos que ainda não haviam morrido. O tratamento poderia devolver a fertilidade a alguns casais.
Os pais carregariam vidas anteriores. Os filhos concebidos e nascidos em Key, não. Cada criança começaria do princípio, com um corpo que ainda não conhecera a morte.
Médera escolheu ser a primeira a tentar.
Outra contração a fez gritar. Krakor usou seu poder para reparar os ferimentos que se abriam, mas uma energia vinda de dentro do ventre se opôs à dele. Uma luz branca atravessou a pele de Médera e ocupou o aposento.
— Afaste-se — ela ordenou.
— Você está ferida.
— E sua energia está disputando com a dela.
Krakor recuou. Médera permaneceu consciente enquanto o corpo fazia o que nenhum conhecimento disponível conseguia orientar.
A primeira criança nasceu envolta pela mesma luz. Krakor precisou proteger os olhos antes de conseguir pegá-la.
— Adwig — disse Médera.
Outra contração lhe roubou o ar.
O parto ainda não havia terminado.
Teleret veio depois, menor e silencioso por um instante, até o choro ocupar o aposento. Não havia luz ao redor dele. Havia calor, respiração e um corpo tão novo quanto o da irmã.
Adwig e Teleret eram as primeiras crianças élficas nascidas em Key e os primeiros casos conhecidos daquele procedimento. Ambos começavam ali sua primeira vida. A energia que cercara Adwig, porém, indicava que os dois não haviam nascido iguais.
Outros casais decidiram tentar. Novas crianças nasceram, e seus descendentes formaram povos que transformaram Key durante os séculos seguintes.
Pouco depois do nascimento dos gêmeos, Krakor se declarou rei. Fez de Médera rainha e chamou os filhos de príncipes. Havia retirado aquelas pessoas de um mundo governado por homens que decidiam tudo por elas; agora dizia que uma autoridade central seria necessária para protegê-las enquanto o planeta crescia.
Médera não concordava com todas as decisões dele. A comunidade também não. Key prosperou, mas as divergências não desapareceram com a abundância.
Adwig e Teleret cresceram num ritmo que os pais não sabiam prever. Ela demonstrava uma resistência que Krakor não conseguia explicar. O irmão adoecia, se feria e se recuperava como as outras crianças nascidas no planeta.
Médera viveu por séculos, mas não era imune à morte. Krakor conhecia maneiras de preparar a busca por alguém depois que uma vida terminasse. Adiou todas. Agia convencido de que o tempo que possuíam não acabaria.
Quando Médera morreu, ele não conseguiu localizar o destino dela.
Krakor procurou em outros planetas. As viagens se tornaram mais longas, os retornos mais raros, até que deixou de voltar. Abandonou o reino, o povo que ajudara a levar para Key e os dois filhos que tivera com a mulher que procurava.
Adwig e Teleret ficaram para trás.