Capítulo 12
Adwig atravessou o portal e encontrou uma região que lembrava a Terra dos Elfos de Key. As construções, os jardins e a distribuição das águas tinham outras formas. A ideia de lar permanecia a mesma.
— Isto é uma cidade? — perguntou.
— Uma pequena parte de Vésper — respondeu Athos. — O planeta abriga regiões reconstruídas para povos retirados de mundos ameaçados. Enquanto minha proteção temporal permanecer ativa, o fluxo daqui fica isolado do restante do Universo.
Krakor observava a paisagem com satisfação.
— Quando criei a região élfica de Key, usei minhas lembranças de Nordok, onde vivi minha vida de nível cinco. Fiz o mesmo aqui, mas adaptei o lugar para receber comunidades diferentes.
Krakor apoiou a mão num banco de pedra. O assento se alargou, ganhou outra curva e abriu espaço para mais duas pessoas.
— Em Nordok, uma construção não nascia da vontade de um só elfo. Cada pessoa oferecia energia e uma direção. A matéria assumia a forma que elas conseguiam sustentar juntas. Eu reproduzi as cidades usando meu próprio poder, mas isso não reproduziu o modo como eram decididas.
— E quando as pessoas discordavam? — perguntou Adwig.
— A transformação enfraquecia, dividia-se ou não acontecia. Depois criaram máquinas para conservar o que já havia sido construído. No início, elas apenas evitavam que tudo precisasse ser sustentado sem descanso.
Krakor retirou a mão. O banco conservou a nova forma porque a energia dele permanecera depositada na pedra.
— Imagino que não tenham parado nisso — disse Adwig.
— Não.
Adwig percebeu que o pai construíra dois lares a partir do mesmo planeta perdido. Nos dois, a primeira decisão fora apenas dele. Isso dizia muito sobre Krakor e não respondia a nenhuma das perguntas que importavam naquele momento.
O rapaz resgatado começou a despertar.
— Onde estou? — perguntou. — Como cheguei à Terra dos Elfos?
Krakor o ajudou a se sentar.
— Este lugar se chama Vésper. Você estava preso na coleção do Magnata. Meu nome é Krakor.
O rapaz o encarou.
— Então você existe.
— Já ouviu falar de mim?
— Minha mãe dizia que eu era filho do Deus Criador. Às vezes eu acreditava. Em outras, achava que ela havia inventado tudo para explicar por que eu era diferente.
Krakor sentou-se diante dele.
— Não sou um deus. Mas existe a possibilidade de que ela tenha dito a verdade sobre mim.
O rapaz falou aos poucos. Nunca se sentira parte das comunidades que o acolheram. A mulher que amara e o filho haviam se afastado. Depois disso, isolou-se na floresta e encontrou os Salvitares, povo que se chamava de fada e vivia ligado à natureza. Tornou-se um de seus líderes, participou de guerras e acabou capturado numa emboscada.
— Qual é seu nome? — perguntou Krakor.
— Scélor.
Krakor repetiu o nome e examinou os traços dele. A semelhança, a origem em Key e o interesse do Magnata sustentavam a hipótese, mas não a confirmavam.
— Se você for meu filho, sua história pode explicar parte da origem das fadas. Talvez seus descendentes tenham espalhado essa linhagem entre os Salvitares e, depois, entre os outros grupos.
— Todo aquele povo pode descender de mim?
— Pode. Ainda precisamos descobrir.
O nome de Scélor trouxe outra lembrança a Krakor.
— Conheci seu filho como Fyedor. Depois da morte, ele renasceu com o nome de Bornurar. Móretar é filho dele. Se você for mesmo meu filho, isso faz de Móretar seu neto e meu bisneto.
— Móretar está vivo? — perguntou Scélor.
— Está. Passou por Key há pouco tempo e foi levado pelos Fortenses, mas Dafa o resgatou.
Adwig acompanhava o entusiasmo de Krakor. Ele encontrara um possível filho, uma explicação para o surgimento das fadas e uma nova ramificação familiar. Parecia esquecer quanto aquela mesma família havia perdido para chegar ali.
— Já entendemos que você pretende se tornar o pai do ano — disse ela. — Agora explique por que queria os povos de Key reunidos sob uma única liderança.
Krakor percebeu a mudança no tom.
— Existe uma ameaça maior se aproximando. Se for preciso evacuar Key, organizar defesa, distribuir alimento ou tomar uma decisão urgente, quatro governos em guerra podem condenar todos antes que consigam conversar.
— Então me tirou da reclusão para transformar meu poder numa solução administrativa.
— Eu sabia que os povos reconheceriam você.
— Você esperava que reconhecessem a filha de um deus. Nem sequer veio fazer o pedido pessoalmente.
Krakor tentou responder, mas Adwig continuou.
— Farmer matou Teleret. Mas foi você quem transformou meu irmão em mensageiro de uma decisão que não teve coragem de entregar. Ele morreu tentando cumprir o que você começou.
— Eu não sabia que isso aconteceria.
— Nunca sabe. Ainda assim, decide pela vida de todos e desaparece antes das consequências.
O ar começou a circular ao redor dela. Folhas e pequenas pedras se levantaram do chão.
Adwig se voltou para Athos.
— E suas imagens mostraram tudo isso como necessário?
— Não. Mostraram perigo e pontos de chegada. Não mostraram seu irmão. Já sei o que essa diferença custou.
— Então nenhum de vocês sabia o que aconteceria, mas decidiram que eu precisava obedecer a uma profecia.
Adwig subiu do chão. Faíscas percorreram seus braços e uma nuvem escura começou a se formar. Krakor permaneceu onde estava, sem preparar defesa.
— Adwig, pare, por favor, filha.
Ela conhecia aquela voz.
Médera vinha na direção deles. Athos a havia levado para Vésper com outros sobreviventes antes de partir para Key.
Adwig desceu sem retirar os olhos da mãe.
Médera a abraçou. Adwig permaneceu sem reação.
— Não quero que esqueçamos o que aconteceu — disse Médera. — Quero saber se ainda existe alguma coisa que possamos construir depois disso.
Adwig desejara aquele abraço durante séculos. Agora lembrava Teleret, a fumaça rosa, o pai explicando a morte como consequência imprevista e Athos admitindo que suas imagens não haviam mostrado o irmão.
— Passei tempo demais esperando que nossa família voltasse para que eu pudesse ser feliz. Agora todos começam a aparecer, e Teleret está morto.
Ela se afastou.
— Não acredito mais nesse mito.
Adwig saiu sem escolher um destino. Vésper lhe dava tempo, mas não oferecia uma resposta.