Capítulo 49 — A arma das armas Adwig — Rainha Imortal · Capítulo 49 de 51
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Capítulo 49 — A arma das armas

Gabriel abriu as asas e esperou que sua declaração bastasse.

Ao redor dele, os seres alados mantinham os prisioneiros acima do alcance das famílias. Alguns recém-renascidos ainda não conseguiam ficar de pé. Outros protegiam o peito com os braços, sem saber por que as armas inimigas buscavam aquela parte do corpo.

Adwig ergueu o cetro.

— Você encontrou pessoas sem alimento, roupa ou defesa e decidiu que este era o momento de provar sua superioridade.

— A fraqueza apenas torna visível o lugar de cada um — respondeu Gabriel. — Paradise não foi preservado para receber tudo o que os outros mundos recusaram. Os dignos não dividirão a salvação com povos incapazes de governar a própria existência.

Sarilyan se posicionou entre Primordiais e Supremos.

— Ele quer que respondamos a ele — disse. — Retirem primeiro quem não consegue lutar.

Ela abriu no chão as quatro marcas iniciadas antes do ataque. Dárion tocou a formação de defesa. Dois Supremos se juntaram a ele, seguidos por elfos dos dois grupos. A terra se elevou em duas linhas baixas, criando um corredor até os abrigos atrás das colinas.

Leria entrou no caminho com Aren e começou a conduzir crianças, feridos e pessoas que ainda procuravam parentes. Mantelar correu pela lateral em forma de lobo. Cada vez que um anjo descia, ele saltava contra as asas e o desviava para longe da fila.

Os primeiros metros resistiram. Então três seres alados atingiram as marcas que ligavam o corredor à âncora. Uma delas rachou. A parede do lado direito perdeu altura, e pedras voltaram ao solo.

Sarilyan distribuiu o restante da energia entre as marcas preservadas.

— Não reconstruam a parte perdida. Mantenham a saída.

Primordiais retiraram material da parede quebrada e o conduziram para o trecho ainda protegido. Os Supremos ofereceram reservas maiores, mas seguiram a direção aberta por Dárion. Pela primeira vez, Adwig os viu sustentar uma forma comum sem que um dos povos tentasse tomar a energia do outro.

Um anjo atravessou a abertura e avançou contra Leria. Adwig o atingiu com o cetro. O corpo desapareceu, mas outro ocupou o lugar antes que ela alcançasse a fila. Médera lançou o tridente e prendeu as asas do atacante no chão. Teleret retirou duas crianças do caminho, enquanto Krakor ergueu água do canal e a transformou numa barreira curta diante dos elfos.

Gabriel não se moveu.

— Vejam o que chamam de união — disse ele. — Criaturas diferentes empilhadas pelo medo. Quando a ameaça terminar, voltarão a disputar água, terra e poder.

— Provavelmente — respondeu Adwig. — Isso não autoriza você a escolher quem terá a chance de disputar qualquer coisa.

Uma mulher atravessou um portal perto deles carregando duas armas. Adwig reconheceu Emma, a Rainha das Águas que encontrara no Vale dos Gigantes. Guerreiras surgiram atrás dela e ocuparam a abertura deixada no corredor.

Emma examinou as asas de Gabriel.

— Vocês têm certeza de que não são os anjos das histórias humanas?

Algumas pessoas riram. Gabriel desapareceu.

Adwig tentou erguer uma defesa, mas ele reapareceu diante de Emma com a mão atravessando seu peito. Arrancou o coração dela no mesmo instante em que a Lança do Destino entrou em seu olho.

Emma sumiu com as duas armas. O coração caiu na mão de Gabriel e se desfez antes de chegar ao chão.

Um grito percorreu as guerreiras.

Gabriel levou a mão ao olho. A lança desaparecera com Emma, mas a cavidade continuava aberta. Sangue desceu por seu rosto. Acima dele, as nuvens adquiriram a mesma cor e começaram a despejar chuva vermelha sobre a planície.

Emma reapareceu junto ao canal, respirou uma vez e se teletransportou para perto das companheiras.

Gabriel virou o rosto ferido na direção dela.

— Na próxima vez, não haverá outro corpo.

O olho começou a se recompor.

Adwig conhecia a diferença entre impedir um coração e eliminar aquilo que permitia a alguém continuar depois da morte. Morpheu se tornara uma consciência sem um único corpo. Os anjos haviam encontrado o caminho contrário: alcançavam pelo peito a partícula que deveria escapar.

Athos surgiu entre os grupos que ainda atravessavam os portais. Olhou para Emma, para o sangue no céu e para dois aliados que haviam desaparecido sob as armas dos anjos sem retornar.

— Protejam o coração — gritou. — Não deixem que atravessem o peito.

O aviso mudou a retirada. Pessoas passaram a carregar os feridos com o tórax voltado para baixo. Os elfos engrossaram a parte superior do corredor, mesmo perdendo altura nas laterais. Médera recuperou o tridente e ficou diante de Leria. Mantelar abandonou uma perseguição para arrancar um atacante de cima de um Primordial caído.

Gabriel avançou contra Athos.

— Abre asas para imitar aquilo que não compreende. Como soube que nossas simbioses também eram pássaros?

Uma ave se mostrou por trás dos ombros de Athos. Abriu as asas sem deixar o corpo dele.

— Não sabia — respondeu. — Roc permanece ligado a mim porque pode manter ao menos as asas livres.

Outras simbioses apareceram pelo campo. Lobos, aves, dragões e formas que Adwig não conhecia se revelaram junto aos portadores. A demonstração não deteve os anjos, mas ajudou os aliados a se reconhecerem dentro da chuva.

Elaryan apareceu diante de Gabriel.

Ele sorriu.

— Finalmente.

— Você esperou muito para dizer isso — respondeu ela.

Gabriel atacou. O choque entre os dois abriu uma depressão no chão e lançou pedras contra o corredor élfico. Adwig ergueu o cetro. A energia desviou parte dos fragmentos, enquanto Sarilyan e Dárion mantiveram as paredes.

As formações dos anjos avançaram.

Lúcifer entrou pelo alto com dragões, abrindo espaço sobre a rota de retirada. O fogo obrigou os inimigos a abandonar a primeira linha, até rajadas de água e gelo atingirem as criaturas. Henri e Magno vieram de lados diferentes e romperam o ataque antes que alcançasse o corredor. Emma e suas guerreiras recolheram a água espalhada e a devolveram contra os seres alados.

André surgiu com armas presas ao corpo e pessoas que Adwig conhecia apenas pelas histórias dos outros. A chegada dele conteve uma frente que avançava pelas colinas. Móretar apareceu depois com fadas e seres iluminados. A energia do novo grupo reforçou a defesa no momento em que a segunda marca do corredor se partiu.

Sarilyan caiu sobre um joelho.

— Retirem a âncora — ordenou.

Dárion arrancou a peça do chão. As paredes cederam atrás das últimas pessoas, cobrindo o caminho em vez de deixá-lo aberto aos perseguidores. Os anjos haviam rompido a formação, mas a retirada terminara antes dela.

Leria e Aren estavam além das colinas.

Sarilyan se levantou sem energia para abrir outra estrutura. Primordiais e Supremos permaneceram ao lado dela, agora reduzidos às armas e ao próprio corpo.

Adwig correu para a frente.

Um anjo tentou atravessar seu peito. Ela desviou a lâmina, prendeu o braço dele sob o cetro e descarregou energia até o corpo desaparecer. O vírus reagiu dentro dela, reconhecendo a ameaça. Adwig ordenou que permanecesse afastado de sua mente e continuou lutando.

Ao redor, os ataques deixaram de possuir centro. Fogo, gelo, vento, metal, água, descargas e alterações de gravidade abriam caminhos que se fechavam logo depois. Cada grupo conseguia mudar uma parte do campo, mas nenhum mantinha a vantagem por muito tempo.

Dafa surgiu ao lado de Móretar e atingiu um anjo que se aproximava de Adwig pelas costas. A água envolveu o rosto do agressor e o lançou contra uma pedra. Móretar prendeu outro sob a espada, permitindo que duas fadas retirassem uma mulher ferida.

Adwig encontrou os olhos de Dafa.

— Você voltou.

— Móretar terminou o que precisava fazer. Eu também.

Não havia tempo para perguntar o custo. Dafa olhou para Mantelar lutando perto das colinas e voltou a atenção para Adwig.

— Depois você me explica.

— Foi o que ele disse.

Teleret caiu entre as duas, atingido por uma rajada. Médera o puxou antes que um anjo alcançasse seu peito. Adwig descarregou o cetro no atacante, enquanto Krakor cobria os três com uma camada de pedra arrancada do chão.

— Vão para trás das colinas — ordenou Adwig.

— Você não manda em mim desde que nascemos — respondeu Teleret, voltando a se levantar.

Médera entregou a ele uma das pontas do tridente.

— Então permaneça perto o bastante para que eu possa impedir outra morte idiota.

Teleret aceitou a condição. Os dois seguiram juntos para proteger a lateral por onde alguns anjos ainda tentavam alcançar os recém-renascidos.

Elaryan atingiu Gabriel e o lançou contra o chão. Ele se levantou coberto por sangue e fechou os olhos.

O primeiro anjo foi puxado para dentro dele.

O ser tentou resistir. As asas se desfizeram, a luz ao redor do corpo se concentrou e desapareceu no peito de Gabriel. Outros começaram a seguir. Alguns eram absorvidos durante o combate; outros abandonavam seus adversários e tentavam fugir.

— Ele está recolhendo o próprio exército — disse Médera.

Adwig procurou Gabriel. A pressão criada ao redor dele tornava cada passo mais difícil.

Um golpe atingiu o cetro e o arrancou de sua mão. A arma caiu entre pedras partidas. Antes que Adwig a recuperasse, a superfície recebeu linhas de luz. Cores diferentes percorriam o metal e respondiam a armas espalhadas pelo campo.

O cetro não tentava puxá-las. Reconhecia nelas partes de uma mesma energia.

Athos também percebeu. Segurava a espada com as duas mãos, enquanto Elaryan abria uma faixa no combate para chegar até ele.

— Entendeu agora? — perguntou ela.

— Entendi uma possibilidade.

Athos chamou Adwig. Ela correu até ele, desviando de dois atacantes. Lúcifer queimou as asas do primeiro. Móretar interceptou o segundo com a espada.

Athos ofereceu a própria arma.

— Minhas imagens terminam com esta espada em suas mãos. Não sei tudo o que acontece entre uma coisa e outra.

Adwig não a pegou imediatamente.

— Está pedindo que eu cumpra sua visão?

— Estou dizendo o que vi. Gabriel está absorvendo os únicos seres que talvez pudessem enfraquecê-lo por dentro. Se a arma responder a você, podemos reunir força suficiente. A decisão continua sendo sua.

Outro anjo desapareceu dentro de Gabriel. O chão afundou sob os pés dele.

Adwig olhou para o corredor destruído, para os corpos que não haviam retornado e para o cetro aceso entre as pedras. Pegou a espada.

— Então abra o caminho.

Elaryan lançou campos de força contra as últimas formações inimigas. André, Emma, Henri e Móretar atacaram pelos lados. Adwig correu na direção de Gabriel.

A espada reagiu ao cetro antes de alcançá-lo. Athos disparou energia contra a lâmina.

— Que todas as armas se unam em sua forma original.

O cetro deixou o chão. O tridente escapou das mãos de Médera, e a espada de Móretar foi arrancada de seu golpe. Armas vieram de Emma, Lúcifer, Krakor, Athena, André e Magno. Cada uma atravessou o campo e desapareceu na lâmina carregada por Adwig.

A lâmina pressionou os braços dela para baixo. Técnicas incompatíveis disputavam passagem pela mesma arma. O vírus percorreu seus nervos e ajudou o corpo a suportar a descarga sem tocar as outras consciências.

Gabriel absorveu o último anjo e abriu os olhos.

Adwig perdeu velocidade. O espaço entre os dois resistia a cada movimento. Ataques vieram de todos os lados, mas pararam antes de alcançá-lo.

Gabriel ergueu uma das mãos.

Athos abriu um portal junto ao braço dele e atravessou o próprio corpo para prendê-lo. Elaryan segurou o outro. Gabriel liberou uma onda que arremessou os dois, mas a interrupção durou o bastante para Adwig avançar mais um passo.

Carl correu ao lado dela.

Adwig o vira partir com Móretar e sabia apenas que carregava o Cálice dentro do corpo. Ele olhou para a espada, depois para Gabriel. A luz do artefato apareceu sob sua pele e respondeu à lâmina.

— O cálice amplia o poder de outra arma? — perguntou Carl.

— Foi feito para isso — respondeu Adwig.

Ele diminuiu a corrida por um instante.

— Então precisa sair de mim.

— Podemos encontrar outra maneira.

Carl olhou para Gabriel, que já recuperava o movimento do braço.

— Não antes que ele alcance você.

— Se eu entregar isto, use.

— Carl, espere.

Ele se lançou contra a lâmina.

O corpo desapareceu no contato. Uma nova camada de energia atravessou a espada e devolveu movimento aos braços de Adwig.

Gabriel tentou fechar a distância com a mão livre. Adwig desviou, entrou sob seu alcance e cravou a arma reunida no peito dele.

A lâmina atravessou o coração.

Gabriel segurou o braço dela. Sangue saiu de sua boca, mas ele ainda sorriu.

— Posso morrer. Voltarei em outro corpo.

— Não desta vez — disse Elaryan.

Ela apertou o coração preso à espada e disparou uma descarga que subiu pelo corpo de Gabriel. Os olhos dele perderam a luz antes de desaparecer. A energia que tentava abandonar o crânio foi retida pela arma.

Adwig quase caiu quando a resistência desapareceu.

Elaryan segurou a lâmina e cortou a própria mão. A arma deixou de responder a Adwig.

Athos se aproximou.

— Devolva. As peças precisam ser separadas.

— Acabamos de provar o contrário — respondeu Elaryan. — Divididas, exigiram guerras, perdas e coincidências demais. O poder reunido pode proteger todos até o fim.

Adwig reconheceu a proposta. Percento medira satisfação para decidir por uma população. O Palácio transformara desejo em permanência obrigatória. Morpheu distribuíra a própria consciência entre corpos que deixaram de controlar. Elaryan oferecia a mesma concentração numa escala que nenhum deles poderia contestar.

— Você não quer proteger o poder de todos — disse Adwig. — Quer que todo poder precise passar por você.

Elaryan não negou.

Athos avançou para recuperar a espada. Ela abriu uma passagem atrás de si. Ele agarrou seu braço antes que desaparecesse, e os dois foram levados.

Adwig tentou segui-los. O espaço já havia se fechado.

A chuva vermelha perdeu força. Ao redor, sobreviventes procuravam quem não voltara. Sarilyan caminhou até as pedras do corredor destruído. Mantelar reapareceu em forma humana perto de Adwig, ainda coberto pelo sangue de outras pessoas.

Móretar procurava Carl entre os sobreviventes. Adwig tentou chamá-lo. O portal se abriu antes que conseguisse dizer que ele não voltaria.

Um portal se abriu onde Gabriel havia morrido.

Trovar atravessou sozinho.

— A batalha terminou — disse ele. — A disputa, não.

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