Capítulo 45
O prédio ocupava quase todo o quarteirão. Não tinha janelas nos primeiros andares, e a porta pela qual os três elfos haviam entrado permanecia aberta apenas o bastante para deixar passar uma pessoa.
Steve consultou o mapa preso ao braço e apontou uma passagem lateral. Sarilyan negou com a cabeça. Os sensores de pressão daquela parede ainda respondiam à rede. Entrariam pela mesma porta usada pelos desconhecidos, mesmo sem saber por que ela funcionava.
A camuflagem desviava a luz, mas não apagava seus corpos. Caminhar depressa alteraria o ar; tocar uns nos outros poderia produzir um contorno visível. Adwig avançou atrás de Steve, apoiando cada pé onde ele indicava. O esforço para não refletir luz fazia sua pele arder.
Dircle permaneceu agarrado à roupa dela. Pela primeira vez desde que despertara, não tentou conversar.
Passaram pela porta e encontraram um corredor largo, coberto por cartazes desbotados. Criaturas equilibravam objetos, saltavam entre plataformas e sorriam sob tintas muito claras. Adwig apontou para uma delas, e Krakor aproximou a boca da orelha dela.
— Palhaço — murmurou.
Ela decidiu que o nome combinava com a ameaça.
O corredor desembocava num espaço circular, cercado por arquibancadas. Cordas pendiam do teto. Estruturas metálicas, caixas pintadas e animais mecânicos ocupavam a pista central. Os três elfos que haviam entrado não estavam ali.
Sarilyan se agachou perto de uma placa no chão. Passou os dedos sobre a borda, retirou a poeira e encontrou quatro pequenas cavidades. Uma vibração atravessou o teto. Ela ergueu a mão, e uma camada de energia cobriu o grupo.
O ar ficou pesado. Acima do circo, algo percorreu o céu depressa demais para ser visto pelas frestas.
Sarilyan desfez a proteção e precisou apoiar a mão no piso.
— Patrulha Suprema — explicou Nortforth. — Eles procuram alterações na distribuição.
— Você mal usou poder — disse Adwig.
— Minha reserva não é alimentada por ninguém há anos. Cada defesa precisa valer o que consome.
— É aqui.
Krakor olhou ao redor.
— Vocês esconderam o dispositivo num circo?
— Quando foi construído, este lugar recebia milhares de pessoas. A manutenção possuía acesso próprio à distribuição de energia, e ninguém achou necessário informar a inteligência artificial de que também existia um sistema capaz de destruí-la.
— Finalmente uma decisão irresponsável que serviu para alguma coisa.
Sarilyan indicou posições ao redor da pista. Médera ficou junto à entrada. Teleret subiu até a primeira fileira de assentos para enxergar os corredores. Krakor e Adwig guardaram as laterais enquanto Steve e Nortforth retiravam do corpo peças pequenas, sem conexão com a rede, e as encaixavam nas cavidades do chão.
Nada aconteceu.
Sarilyan colocou a mão no centro da placa. Steve e Nortforth tocaram as peças que haviam encaixado. O objetivo comum era alcançar o dispositivo sem produzir um chamado à rede; cada um ofereceu o elemento que dominava para executar uma parte. Sarilyan produziu uma descarga curta com os dedos, Steve aqueceu a placa e Nortforth conduziu uma corrente de ar pelas frestas. As travas internas receberam as três direções e o piso se abriu alguns centímetros.
— A inteligência artificial não consegue abrir isto? — perguntou Adwig.
— Consegue destruir o piso — respondeu Steve. — A abertura depende de contribuições diferentes apontando para a mesma função. Foi uma das poucas proteções que ela nunca aprendeu a simular sem revelar o próprio acesso.
O som de uma máquina ligando veio do teto.
Krakor ergueu as mãos, pronto para lançar fogo. Um foco de luz atravessou a pista e encontrou um boneco suspenso. O boneco desceu por uma corda, bateu contra uma caixa e começou a rir.
Dircle gritou. Krakor queimou o boneco, a caixa e outros dois palhaços antes que Sarilyan cortasse a energia.
— Não era um ataque — disse ela.
— Agora não será.
Médera pisou numa chama que avançava pelo tecido da pista.
— Tente não destruir o esconderijo antes de usarmos o que está escondido.
Steve e Nortforth abriram a placa por completo e desceram. O riso do boneco morreu num chiado. Sarilyan se ajoelhou junto ao buraco para acompanhar os sinais enviados pelos dois, enquanto Adwig observava os acessos.
O primeiro aviso veio do lado de fora. Um ruído de metal percorreu a cidade e parou. Depois outro, mais distante. Pelas frestas da porta, Adwig viu um veículo perder altura até repousar sobre a avenida.
Sarilyan levantou um dedo.
— Transporte.
As imagens nos cartazes apagaram. As portas automáticas dos prédios próximos se abriram e tornaram a fechar, todas ao mesmo tempo.
Ela levantou o segundo dedo.
— Controle de acesso.
O teto do circo escureceu. O ar, antes frio e constante, começou a aquecer com o calor dos corpos.
— Ambientes.
Uma faixa decorativa se desprendeu da parede. Sem o estabilizador, as pedras procuraram posições anteriores e abriram uma fenda junto à arquibancada. Sarilyan conteve a queda com a própria reserva.
O quarto sinal demorou. De dentro do buraco vieram três batidas, uma pausa e mais duas. Sarilyan respondeu no metal. Steve e Nortforth não saíram.
Adwig se aproximou.
— O que falta?
— A camada que decide quando uma função pode voltar. Se apenas desligarmos os sistemas, a inteligência artificial reinicia por outra rota. Eles precisam corromper a ordem de recuperação.
Na avenida, alarmes começaram a tocar. Não formavam uma sirene única. Cada edifício emitia um aviso diferente, programado para a rotina de seus habitantes. Alguns duraram poucos segundos. Outros continuaram, sem que ninguém os interrompesse.
Uma mulher apareceu numa janela. Abriu o vidro com as duas mãos, inclinou o corpo para fora e olhou para baixo. Em outro prédio, uma porta se abriu e um homem permaneceu no corredor, segurando uma bandeja vazia.
— A produção de alimentos parou — disse Sarilyan.
Adwig viu outras pessoas surgirem. Nenhuma celebrava. Algumas tentavam fechar portas que já não obedeciam; outras chamavam a máquina que sempre respondera. Um homem desceu para a rua, deu alguns passos e voltou correndo para o edifício.
Uma elfa apoiou as duas mãos na entrada do prédio e tentou reduzir a abertura. O material respondeu com alguns centímetros de movimento e parou. Outro morador se juntou a ela, mas conduziu a energia para o lado oposto, desejando manter uma saída. A porta se deformou entre as duas direções.
— Eles perderam a prática — disse Krakor.
— Perderam também o hábito de descobrir o que o outro pretende construir — respondeu Sarilyan.
— Eles precisam saber onde conseguir água, comida e abrigo antes do escurecer — disse Adwig.
— Nossos grupos têm depósitos e rotas preparados.
— Para quantos?
Sarilyan não respondeu de imediato.
— Para menos do que sairão hoje.
Adwig olhou para a cidade. Desligar a máquina criava uma abertura, mas a abertura não ensinava ninguém a atravessá-la.
Teleret desceu das arquibancadas.
— Posso levar os primeiros para os depósitos.
— Se sair sozinho, o vírus pode usar qualquer contaminado para encontrar você — disse Médera.
— Então vamos em grupo.
— Ainda não — decidiu Sarilyan. — Se a inteligência voltar, perderemos a única chance de terminar.
Outra sequência de batidas veio do subsolo. Sarilyan apoiou a mão na placa. Um pulso percorreu o piso, passou pelas estruturas do circo e seguiu pela rua. As luzes se apagaram até onde Adwig conseguia ver.
Por alguns segundos, Nordok ficou escura.
Então a iluminação de emergência surgiu em faixas baixas, alimentada por circuitos isolados. Não havia imagens nos vidros, veículos no ar ou vozes saindo das paredes. A cidade ainda possuía máquinas, mas nenhuma delas parecia decidir o que deveria acontecer em seguida.
Steve saiu do buraco, respirando com dificuldade. Nortforth veio atrás, com sangue num dos braços.
— Ela tentou fechar as rotas com a gente lá dentro — disse Steve.
Sarilyan examinou o ferimento de Nortforth.
— Terminou?
— A estrutura central foi corrompida. Se tentarem reconstruí-la, terão de fazer isso parte por parte.
— Então vamos tirar as pessoas dos apartamentos — disse Adwig.
Saíram do circo e encontraram dezenas de elfos na avenida. Os três que haviam entrado antes estavam na frente. Agora carregavam armas retiradas de compartimentos que a queda do sistema deixara abertos.
Outras pessoas surgiam atrás deles, vindas das ruas laterais. Algumas ainda vestiam roupas domésticas; outras traziam nos braços as marcas da resistência. Nenhuma apontava a arma para Morpheu.
Apontavam para o grupo de Sarilyan.
— Foram vocês que desligaram a inteligência artificial? — perguntou o primeiro elfo.
Krakor reuniu fogo nas mãos. Adwig tocou o braço dele e fez com que baixasse.
— A decisão foi nossa — respondeu Sarilyan.
O elfo olhou para as portas abertas, os veículos imóveis e as pessoas que começavam a ocupar a rua.
— Vieram nos libertar ou decidir quem manda agora?