Capítulo 33 — Parte 33
Do lado de fora do SDI, Chae apontou para uma placa metálica acima de um prédio vazio.
— Ali. Pouca força.
— Quando estiver pronta — disse Dafa.
Chae levantou dois dedos. A descarga partiu da mão de Dafa e percorreu o espaço entre elas. Antes de alcançar a placa, mudou de direção, contornou o metal e se desfez no ar.
— Controle elétrico — observou Adwig.
— De energia — corrigiu Chae. — Eletricidade é apenas uma das formas mais fáceis de reconhecer.
Dafa sorriu.
— Eu sabia.
— Eu ainda sei lutar — disse Chae. — Isso não significa que já escolhi voltar a ser guerreira.
— Por enquanto, escolheu apenas sair conosco — respondeu Adwig. — É suficiente.
As três se elevaram. Chae voava sem dificuldade, embora mantivesse os olhos na cidade como alguém que via pela primeira vez um lugar onde vivera por muito tempo.
Lottor as acompanhava do chão.
— Se procuram os Elfos Luminosos, não existe um local para onde eu possa levá-las. Eles aparecem quando consideram necessário.
— Então faremos uma pergunta que considerem necessário responder — disse Dafa.
Na praça central, uma estátua se erguia acima das construções. Representava um homem de feições élficas, cercado por animais e ramos talhados no mesmo material claro.
— Quem é? — perguntou Adwig.
Lottor baixou a cabeça.
— Vanir Freyr, senhor de Alfheim. Ele mantém nosso mundo e o plano sagrado onde vivem os Elfos Luminosos.
Dafa pousou diante da estátua e ampliou a voz para alcançar as ruas próximas.
— Klif disse que esta comunidade será readequada. Antes que alguém obedeça, quero que os mantenedores expliquem o que a palavra significa.
As pessoas começaram a sair dos prédios. Algumas permaneceram à distância; outras se reuniram ao redor da praça. Dafa formou uma esfera elétrica diante da imagem de Freyr, sem lançá-la.
— Se o símbolo pode receber nossas perguntas, seu senhor também pode.
— Você não pretende destruir a estátua — disse Adwig.
— Não. Mas eles ainda não sabem disso.
— Agora sabem.
Dafa lançou a ela um olhar contrariado. A esfera permaneceu suspensa.
Klif surgiu acima da praça.
— Se quisesse destruir a imagem, já teria feito. Essa encenação serve apenas para me obrigar a responder diante deles.
— Finalmente estamos nos entendendo — disse Dafa.
Adwig subiu até a mesma altura.
— O que acontece durante uma readequação?
Klif observou a multidão antes de responder.
— Restauramos jornadas, circulação, produção e repouso. A comunidade funciona por equilíbrio. Quando uma atividade se afasta demais do padrão, outras são prejudicadas.
— Foi por isso que os líderes empresariais decretaram o toque de recolher? — perguntou Adwig.
— Eles executam os protocolos que mantêm a estabilidade.
— Quem definiu os protocolos?
— Freyr.
O nome provocou murmúrios. Lottor olhou para a estátua, depois para Klif.
— Os Reis sabem disso? — perguntou Chae.
— Os Reis cumprem a função que receberam.
— Não foi o que ela perguntou — disse Adwig.
Klif desceu alguns metros.
— Esta conversa não deve continuar aqui.
— Deve, sim — respondeu Dafa. — A diferença é que você não quer.
— Existem informações que podem colocar em risco a proteção de todos.
— Então nos leve até quem decidiu escondê-las — disse Adwig.
Klif olhou para a esfera elétrica diante da estátua. Dafa a fechou na mão.
— Sem ameaça ao símbolo — disse ela. — Agora é uma conversa.
— Freyr vive numa camada deste mundo à qual chamamos Alfheim. A maioria de vocês a conhece como plano espiritual.
— E quem pode entrar? — perguntou Chae.
— Pessoas compatíveis com o campo. Algumas são convidadas quando demonstram capacidade para sustentá-lo.
— Elas sabem o que estão sustentando?
Klif voltou os olhos para Adwig.
— Venham comigo. Responderei no outro plano.
— Você vai aparecer pessoalmente? — perguntou Dafa.
— Sim.
O corpo diante delas se desfez. Pouco depois, uma abertura luminosa surgiu junto à base da estátua, e Klif atravessou. A energia que o cercava era mais densa do que nas réplicas.
Antes que ele estendesse as mãos, uma serpente clara saiu da base da estátua. O corpo fino contornou a borda da abertura, desapareceu na luz e voltou pelo mesmo ponto. Depois se enrolou na pedra, sem tirar os olhos do portal.
— Um Lissar — explicou Klif. — Ele percebe mudanças na passagem antes que nós consigamos vê-las.
Ele estendeu as mãos para Adwig e Dafa.
— O campo pode romper a ligação de vocês com o corpo físico. Se pedirem retorno, interrompo a travessia. Se esperarem demais, talvez eu não consiga.
Adwig olhou para Chae.
— E ela?
Klif aproximou a mão, sem tocá-la.
— Não possui compatibilidade suficiente.
— Eu fico — decidiu Chae. — Quero observar o que os protocolos farão quando vocês desaparecerem. Lottor pode me mostrar quem transmite as ordens.
Lottor demorou um pouco, mas concordou.
Adwig voltou-se para Dafa.
— Vamos juntas e voltamos quando uma das duas pedir.
Dafa tocou duas vezes a têmpora.
— Combinado.
As duas seguraram as mãos de Klif.
A praça desapareceu. Durante alguns instantes, não havia chão nem horizonte. O corpo de Adwig pareceu perder peso e contorno. A luz cresceu no peito dela, encontrou os braços e se espalhou sob a pele.
Dafa apertou sua mão. A energia ao redor dela oscilava com violência.
— Ainda consegue continuar? — perguntou Adwig.
— Consigo.
Outra parte da forma de Dafa começou a se desfazer. Adwig a puxou para perto e envolveu as duas com a própria luz. Não sabia como fizera aquilo. Sentia apenas que a energia reconhecia o caminho aberto entre elas e se distribuía pelas duas.
Quando a claridade diminuiu, estavam numa floresta sem construções visíveis. Árvores altas cobriam o céu; rios estreitos atravessavam campos de flores. Em alguns pontos, a cidade do lado de fora aparecia como uma imagem distante por trás da paisagem.
Dafa respirou fundo por hábito.
— Foi por pouco.
— A compatibilidade de Adwig sustentou as duas — explicou Klif. — Isso nunca havia acontecido durante uma travessia.
— Talvez vocês nunca tenham deixado duas pessoas tentarem juntas — disse Adwig.
Klif começou a caminhar.
— Freyr criou esta camada depois de chegar a Percento. Separá-la do plano físico exige muita energia. A regularidade da comunidade H produz um fluxo previsível, e parte dele mantém Alfheim estável.
— Então o povo trabalha, circula e descansa segundo os mesmos horários para alimentar este lugar — disse Dafa.
— E recebe em troca uma sociedade protegida.
— Eles sabem que existe uma troca? — perguntou Adwig.
— Sabem que a ordem os protege.
— Não foi o que perguntei.
Klif parou.
— Meu compromisso é impedir que aquele mundo repita as destruições de outros lugares.
— Esconder o preço não impede destruição — disse Adwig. — Impede escolha.
— Uma organização construída apenas por vontades individuais não permanece.
— Nenhuma organização permanece para sempre — respondeu Dafa. — Isso não dá a você o direito de imobilizá-la.
— E vocês? — perguntou Klif. — Não chegaram aqui conduzidas por alguém mais poderoso?
Adwig pensou em Elaryan, nas profecias e na quantidade de decisões que poderiam ter começado antes de ela conhecer as próprias opções.
— É exatamente por isso que estamos perguntando.
Um homem idoso surgiu entre as árvores. Os cabelos longos caíam sobre uma roupa clara, quase confundida com a luz do campo.
— Klif não desobedeceu — disse ele. — A missão era trazer vocês até mim.
Dafa ergueu o queixo.
— Freyr.
— Sejam bem-vindas a Alfheim.