Capítulo 34 — Parte 34
— Você mandou nos buscar? — perguntou Adwig.
— Pedi que Klif avaliasse o que fariam quando encontrassem resistência — respondeu Freyr. — Precisava saber se chegariam até aqui por força, negociação ou acidente.
— Então isso foi um teste — disse Dafa.
— Uma precaução.
Dafa abriu e fechou as mãos.
— Quero testar uma coisa também. Vou atacar você.
Freyr abriu os braços.
— Se considera necessário.
Ela avançou. O punho incendiado atingiu o peito dele no mesmo instante em que uma descarga desceu sobre o campo. A luz cobriu a margem do rio. Quando desapareceu, Freyr continuava no mesmo lugar.
— Aqui, um corpo não obedece às mesmas regras do plano físico — explicou.
— Você não é invulnerável — disse Adwig. — Apenas controla o lugar onde estamos.
— A diferença pode ser menor do que imagina.
Freyr caminhou sobre a água rasa.
— Criei uma segunda camada sobre este planeta, um véu capaz de registrar e sustentar o padrão mental de pessoas compatíveis. O corpo deixa de operar no plano físico, mas a pessoa continua aqui. Alguns chamam o processo de libertação da alma. Eu prefiro não fingir que conheço sua natureza última. Conheço apenas o funcionamento deste campo.
— E se ele deixar de funcionar? — perguntou Dafa.
— Todos aqui estarão em risco.
— Então não são imortais.
— São preservados enquanto Alfheim permanece.
Freyr retirou uma folha da água e reuniu ao redor dela pequenas partículas do ar. Em poucos segundos, formou algo semelhante a uma fruta e ofereceu a Adwig.
Ela provou. O sabor era mais complexo do que qualquer alimento servido em Percento.
— Parece real? — perguntou ele.
— A experiência é real — respondeu Adwig. — Isso não torna livre quem só pode experimentá-la dentro do mundo que você controla.
Freyr não pareceu ofendido.
— Toda realidade depende de uma estrutura que nenhuma pessoa escolheu. Aqui, ao menos, podemos ajustar a estrutura às necessidades de quem vive nela.
— Quem decide quais são essas necessidades? — perguntou Dafa.
— Nós observamos quem está preparado para vir. Pessoas compatíveis recebem a oportunidade de deixar as limitações físicas e participar da manutenção do véu.
— Elas conhecem o preço pago pela comunidade externa? — perguntou Adwig.
— Sabem que a estabilidade do planeta e a de Alfheim estão relacionadas.
— Sabem que jornadas, circulação e repouso são corrigidos para alimentar o campo?
Freyr demorou a responder.
— Nem todos compreenderiam o mecanismo.
— Então receberam uma versão incompleta antes de escolher — disse Adwig.
Klif se aproximou.
— A informação poderia produzir a instabilidade que tentamos evitar.
— E a ignorância produz obediência — respondeu Dafa.
Freyr pediu que o acompanhassem. A floresta se abriu para uma comunidade espalhada entre árvores, rios e clareiras. Algumas pessoas cuidavam de animais; outras estudavam formas luminosas suspensas no ar. Havia grupos dedicados à música, ao contato físico, à contemplação e a construções que se desfaziam assim que deixavam de ser usadas.
Nem todos viviam da mesma maneira. Alguns pareciam satisfeitos com a tranquilidade. Outros observavam as imagens distantes da cidade física por longos períodos.
— Quem entra pode fazer quase tudo que desejar — explicou Freyr.
— Pode sair? — perguntou Adwig.
— A reconstrução de um corpo exige energia e precisão que poucos possuem.
— Isso significa não.
— Significa que partir tem riscos.
Uma sequência de explosões atravessou o céu. Eram fogos disparados na cidade. Durante alguns segundos, os prédios apareceram através das árvores e o chão de Alfheim oscilou.
Freyr ergueu as mãos. Klif fez o mesmo, e a paisagem voltou a se estabilizar.
— Instabilidades externas provocam rupturas — disse Freyr. — Preciso de mais pessoas poderosas para fortalecer o campo. Um dia, Alfheim poderá ser deslocado para outro planeta, mesmo durante uma catástrofe.
— Por que não construir a sociedade que deseja no plano físico? — perguntou Dafa.
— Porque mundos físicos acabam. Vésper foi destruído durante a ligação entre os quatro Universos. Gaia salvou apenas parte dos habitantes. Nenhuma paz externa impediria aquilo.
Adwig olhou para a cidade que ainda aparecia por trás das árvores.
— Elaryan conhecia este lugar.
— Conhecia — confirmou Freyr.
— Pode querer concentrar pessoas poderosas aqui — disse Dafa. — Longe do que acontece no restante do Universo.
— Ou preservar uma reserva contra outra destruição — respondeu Adwig. — Ou usar o campo para alguma coisa que ainda não entendemos.
Freyr sorriu.
— A suspeita muda o que vocês sentiram aqui?
— Muda o que podemos escolher sabendo quem participa da decisão — respondeu Adwig.
Uma abertura surgiu entre duas árvores. Dircle atravessou primeiro, puxando Athos por uma das mãos.
— Sem mim, o grande Deus Urano não encontraria o caminho — anunciou o gnomo.
Athos soltou a mão dele.
— Encontrei a passagem porque Dircle conhecia os ritos usados para descrevê-la. Atravessei porque consigo alcançar o plano físico a partir daqui.
Ele estendeu o braço através da imagem de uma árvore distante e retirou uma fruta do outro lado.
Freyr avançou.
— Afaste-se da estrutura.
Uma rajada densa saiu de suas mãos. Athos ergueu uma barreira, e o golpe se espalhou contra ela antes de cair endurecido sobre a relva.
Os moradores recuaram.
— Não vim destruir Alfheim — disse Athos. — Também não sei por que Elaryan conduziu vocês até este lugar. Recebo imagens fragmentadas. A hipótese de simples contenção não explica tudo.
— Você pode abrir uma saída? — perguntou Adwig.
— Posso. Quem atravessar precisará de ajuda para reconstruir o corpo.
Adwig pediu que os habitantes se aproximassem. Freyr tentou falar, mas ela levantou a mão.
— Você também terá espaço para explicar os riscos. Primeiro eles precisam conhecer o custo que ficou escondido.
Ela contou que a rotina da comunidade física alimentava o véu e que a readequação restaurava o padrão sempre que as pessoas começavam a agir de maneira imprevista. Falou da suspensão dos Reis, do toque de recolher e da autoridade que nenhum habitante soubera nomear.
Freyr confirmou o funcionamento. Acrescentou que sair poderia causar falhas na reconstrução, perda de capacidades e morte. Permanecer significava continuar dependente dele e da estabilidade de Alfheim.
Athos abriu uma passagem. A praça apareceu do outro lado, onde Chae, Lottor e dezenas de pessoas esperavam.
— Athos pode abrir a passagem — disse Adwig. — Não pode escolher por vocês o que haverá do outro lado.
Ela indicou a cidade.
— Quem sair encontrará uma sociedade que ainda precisará aprender a decidir. Quem ficar continuará dependendo deste campo e de Freyr. Agora vocês conhecem parte do custo. Escolham com isso em mente.
Ninguém se moveu de imediato.
Uma mulher se aproximou e pediu para sair. Athos a recebeu na passagem e guiou a reconstrução do corpo. Depois vieram outros. Alguns seguiram sem hesitar; alguns fizeram perguntas a Freyr e a Adwig antes de decidir.
Klif permaneceu ao lado de seu criador. Gagoim e Bortu apareceram entre as árvores e também escolheram ficar. Não foram os únicos. Parte da comunidade preferiu a segurança de Alfheim, e outro grupo pediu tempo para compreender o que mudaria com a perda de tantos sustentadores.
Adwig e Dafa atravessaram entre os últimos. Dircle saiu voando sozinho, reclamando que não precisava de Athos.
Quando os corpos das duas voltaram a se formar na praça, Chae correu até elas.
— Os líderes tentaram reativar o toque de recolher — contou. — Desta vez, as pessoas perguntaram quem tinha dado a ordem. Ninguém voltou para casa.
Athos fechou parcialmente a passagem, deixando a abertura acessível a quem ainda precisasse escolher.
— Há outra coisa — disse a Adwig. — Encontrei uma pista concreta sobre Móretar.
Ela se virou para ele.
— Onde está?
— Falamos quando todos estiverem seguros fora daqui.