Capítulo 50 — Vinte e cinco anos Adwig — Rainha Imortal · Capítulo 50 de 51
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Capítulo 50 — Vinte e cinco anos

Trovar observou o lugar onde Elaryan e Athos haviam desaparecido.

Móretar foi o primeiro a alcançá-lo.

— Onde está Carl?

— O Cálice entrou na arma com ele — respondeu Trovar. — A partícula pode ter sido preservada, mas não tenho como alcançá-la enquanto a espada estiver com Elaryan.

— Isso significa que ele pode voltar?

— Significa que eu não vou transformar uma possibilidade em promessa.

Móretar se afastou. Dafa foi atrás dele e permaneceu ao seu lado sem tentar interromper o choro.

Adwig apontou para o espaço fechado.

— Para onde ela levou Athos?

— Para uma região próxima do fim do Universo. O tempo corre de forma diferente lá. Para eles, a separação pode durar minutos. Aqui, nossa melhor estimativa é de vinte e cinco anos.

Krakor ergueu a cabeça.

— Fim do Universo não é uma localização.

— Perto do colapso, acaba sendo — respondeu Trovar. — A matéria partiu de um ponto, espalhou-se e se expandiu. Agora está retornando ao mesmo eixo gravitacional. Quando tudo for sugado para a origem, uma nova expansão começará.

Adwig esperou o restante. Trovar passou os olhos pelos sobreviventes antes de continuar.

— As condições físicas se repetem com grande precisão. Mundos, espécies e pessoas voltam a se formar de maneiras semelhantes. Comportamentos também. Não acontece tudo da mesma forma, mas existe um padrão recorrente. Uma diferença pequena pode alterar o caminho posterior.

— E Elaryan conhece o padrão — disse Médera.

— Ela conserva lembranças organizadas de processos anteriores. Athos recebe imagens incompletas e as chama de visões. Ele não conhece a sequência como ela.

Adwig pensou em todas as vezes em que uma profecia havia chegado antes de sua escolha.

— A história de Krakor, da filha que deveria unificar Key, foi criada por ela?

— Nem toda crença veio de Elaryan — respondeu Trovar. — Essa já existia em versões diferentes. Ela preservou as palavras úteis, fez com que chegassem às pessoas certas e reforçou a associação entre a filha de Krakor, o trono e a guerra final. Precisava que você aceitasse o cetro, chegasse à espada e estivesse diante de Gabriel.

— Então ela conseguiu.

— Conseguiu levar você até lá. Não decidiu o que fez quando chegou.

Adwig olhou para as próprias mãos. A arma só se reunira porque ela a aceitara, mas a escolha havia acontecido dentro de um caminho preparado muito antes de seu nascimento.

— Por que você não participou da batalha? — perguntou Teleret.

— Elaryan precisava continuar acreditando que eu não alteraria o final. Érebo permite que eu faça algo que ela não controla, mas ainda não sei quantas pessoas conseguirão atravessar comigo. Voltarei quando chegar a hora.

— E até lá? — perguntou Magno.

— Não organizem esse período como uma sala de espera. Há governos frágeis, pessoas desaparecidas e relações que vocês ainda não decidiram. Usem o tempo.

Trovar abriu um portal e partiu antes que as perguntas transformassem a resposta numa despedida antecipada.

Adwig encontrou Mantelar perto das pedras do corredor destruído. Ele segurava a manta que Sarilyan havia entregado a um dos recém-renascidos; alguém a devolveria depois de receber roupa.

— Quero ir a Key — disse Adwig. — Não para ficar. Preciso saber o que fizeram em meu nome.

— Eu vou com você.

— Depois precisamos voltar ao Palácio. As saídas abertas não bastam enquanto a casa puder alterar desejos.

Mantelar colocou a manta sobre o ombro.

— Então começamos por Key. Depois desmontamos o que ainda pode prender alguém no Palácio.

Adwig chamou Médera, Krakor e Teleret. Dafa e Móretar permaneceriam em Paradise até encerrar os registros dos mortos e desaparecidos. Sarilyan não partiria enquanto os elfos ainda dependessem das primeiras formações.

Adwig se teletransportou com a família e Mantelar.

A praça central de Key estava ocupada por quatro grupos reunidos diante de mesas separadas. Não havia trono. Frempor e Servero esperavam junto a caixas de documentos, acompanhados por trabalhadores Coraces, curadores, responsáveis pelos cultivos e pessoas escolhidas pelas comunidades élficas e feéricas.

Frempor se ajoelhou quando reconheceu Adwig. Ela pediu que se levantasse.

— Se a investigação terminou, quero ouvir o resultado diante de todos.

Servero abriu a primeira caixa. O conselho que governara depois da morte de Adwig havia cobrado alimento, trabalho e armas afirmando cumprir orientações da rainha e de Teleret. Parte dos recursos abastecera as regiões centrais; outra parte fora desviada para famílias ligadas aos conselheiros.

— Onze integrantes foram afastados de qualquer função de distribuição — informou Servero. — Três admitiram os desvios. Os demais exigiram julgamento.

— E terão — disse Adwig. — Não quero trocar obediência sem prova por condenação sem prova.

Frempor mostrou os registros de entrada e saída dos armazéns. As comunidades passariam a indicar quem fiscalizava recursos, e nenhuma requisição atribuída à família de Krakor seria cumprida sem confirmação pública. Decisões, despesas e responsáveis seriam divulgados nas praças dos quatro povos.

— Ainda chamam isto de administração provisória — disse Frempor. — Esperavam que a senhora decidisse a forma definitiva.

Adwig caminhou entre as mesas. Reconheceu alguns rostos da expedição iniciada anos antes. Outros eram filhos e netos de pessoas que haviam ouvido sua história.

— Não vou escolher um governo para quatro povos e desaparecer de novo. Também não vou fingir que minha ausência me livra da responsabilidade pelo que fizeram usando meu nome.

Uma representante Corace perguntou se ela recusava a coroa.

— Recuso uma coroa que transforma qualquer frase minha em ordem. Se quiserem manter a função de rainha, ela terá limites registrados. Posso convocar uma revisão pública, apresentar propostas e suspender uma decisão até que as comunidades a examinem. Não posso criar obrigações sozinha, indicar sucessor nem governar enquanto estiver fora. Toda orientação atribuída a mim precisa ser confirmada por mim diante de testemunhas.

— E se o povo decidir extinguir a função? — perguntou Frempor.

— Eu deixo de exercê-la.

Uma elfa da região central se levantou.

— Enquanto o título existir, haverá quem considere sua opinião superior à nossa. Limites escritos não apagam séculos de religião.

— Não apagam — respondeu Adwig. — Também não consigo apagar o que minha família construiu abandonando novamente o lugar. Posso exercer uma função que vocês consigam contestar ou sair e permitir que meu nome continue sendo usado sem resposta. Escolho ficar acessível enquanto discutem se a função deve continuar.

— E se uma comunidade não reconhecer sua suspensão?

— A decisão segue para revisão sem ser interrompida, e eu apresento minha objeção como qualquer outra pessoa. O limite também precisa funcionar contra mim.

As discussões continuaram até o anoitecer. Nem todos aceitaram os limites. Alguns queriam que Adwig assumisse o comando completo; outros não admitiam conservar nenhum título ligado a Krakor. Ela ouviu os dois lados e recusou responder a cada medo com uma promessa.

Teleret escolheu permanecer durante a primeira fase da reorganização.

— Quero ajudar a desmontar as ordens que deram em meu nome — disse. — Depois vou viajar.

— Para onde? — perguntou Médera.

— Não sei. Passei tempo demais preso para transformar a liberdade em outro endereço fixo. Posso voltar em períodos combinados e continuar participando sem morar aqui para sempre.

Krakor tentou esconder a decepção. Médera segurou a mão dele.

— Deixe que ele volte porque deseja, não porque teme partir.

Ela também anunciou sua decisão. O tridente permaneceria sob sua guarda. Os habitantes retirados de Atlantis antes do ataque de Poseidon estavam distribuídos entre Paradise e Fóster; alguns desejavam construir uma comunidade aquática em Key. Médera os ajudaria sem restaurar o reino destruído nem entregar a arma a uma nova autoridade.

— Poseidon ainda procura o tridente — advertiu Krakor.

— Por isso ele não ficará com você — respondeu Médera.

Krakor abriu a boca, reconsiderou e aceitou.

Médera não retomou o casamento naquela noite. Concordou em conhecer a vida que Krakor construíra depois da morte dela, inclusive os vínculos que ele não mencionara. Os dois ocuparam casas diferentes em Key e começaram com visitas que podiam terminar sem explicação.

Quando Móretar deixou Paradise, procurou Médera sem levar Adwig ou Dafa. Os dois falaram sobre o período em que investigaram Atlantis e sobre a intimidade que nasceu durante o risco.

— Não foi um erro — disse Médera. — Também não quero continuar enquanto descubro o que ainda existe entre mim e Krakor.

— Eu não precisava que continuasse para saber que foi real.

Móretar agradeceu por ela responder sem promessa. Nos anos seguintes, ele e Médera preservaram amizade suficiente para discordar sobre Key, o tridente e quase todas as decisões de Krakor.

Adwig voltou a Fóster com Mantelar.

Emma, Raquel e Hermes já haviam iniciado a revisão do Palácio. Canais capazes de sugerir desejos foram retirados das paredes e guardados fora da casa. Cada quarto recebeu uma fechadura física controlada por quem o ocupava. As portas externas podiam ser abertas sem energia, voz ou autorização de Hermes.

Raquel entregou a Adwig uma placa arrancada do núcleo administrativo.

— Encontramos outra instrução que permitia bloquear uma saída quando o Palácio calculasse risco emocional.

— Retirem qualquer cálculo que termine em confinamento.

— Foi o que fizemos — respondeu Emma. — Agora você vai testar.

Adwig entrou sozinha. Pediu ao Palácio uma sala capaz de fazê-la feliz e, quando o caminho começou a se formar, ordenou que a porta externa permanecesse aberta. Depois pediu que fosse fechada. O mecanismo recusou a segunda ordem porque ela contrariava a prioridade física instalada.

Emma repetiu o teste. Raquel tentou por outra entrada. Hermes desligou o próprio acesso e confirmou que continuava conseguindo sair.

O Palácio voltou a receber moradores apenas depois de muitas verificações. Não ganhou um governante único. Emma e Raquel mantiveram auditorias alternadas, Hermes cuidou da manutenção e pessoas de fora eram chamadas para testar as saídas. André e Trix ocuparam um dos quartos. Famílias vindas de mundos destruídos transformaram salões em cozinhas, oficinas e espaços de estudo.

Dircle pediu um aposento ao lado da biblioteca e o título de Guardião Supremo das Memórias Divinas. Adwig entregou a chave do quarto, recusou a parte divina e perguntou se ele realmente queria cuidar dos arquivos.

— Dircle quer saber tudo e corrigir o que estiver errado.

— Então pode trabalhar com os registros enquanto desejar. O quarto continua sendo seu se escolher outra coisa.

Ele aceitou a função nessas condições e passou a receber visitantes que buscavam parentes, histórias ou caminhos entre os planetas.

Adwig e Mantelar escolheram uma torre com janelas que podiam ser abertas pelas mãos.

Antes de desfazer as malas, ela contou o que vivera. Falou de Dafa, do vínculo mental, de Cleópatra, de Médera e de Móretar. Não descreveu aquilo que pertencia à intimidade dos outros sem autorização; explicou o suficiente para que Mantelar soubesse quais relações continuavam importantes.

Ele ouviu sentado no chão, encostado na cama.

— Você quer continuar com eles? — perguntou.

— Quero descobrir o que ainda existe sem esconder você nem usar nosso passado para exigir que aceite tudo.

— Eu não preciso aprovar o que aconteceu quando estávamos separados. Preciso participar das decisões que mudam nossa vida agora.

— E se não conseguir viver com alguma delas?

— Eu digo. Você decide o que faz com a resposta, e eu decido o que consigo permanecer construindo.

Adwig sentou-se diante dele.

— Ainda quer se casar comigo?

— Quero. Não hoje, e não para encerrar esta conversa.

Casaram-se meses depois, numa área do Palácio que permanecia aberta para o jardim. As portas não se fecharam durante a cerimônia.

Dafa e Móretar chegaram na semana seguinte e pediram uma conversa com Mantelar sem Adwig.

Ela tentou permanecer na sala.

— Se vocês vão falar sobre uma relação comigo, eu deveria participar.

— Da conversa sobre você, sim — disse Dafa. — Da conversa sobre o que nós três conseguimos construir entre nós, não necessariamente.

Adwig saiu contrariada.

Horas depois, encontrou os três na cozinha. Mantelar cortava legumes, Móretar havia exagerado num tempero e Dafa tentava salvar a panela com água.

— Resolveram tudo? — perguntou Adwig.

— Resolvemos que ele não sabe cozinhar — respondeu Mantelar, apontando para Móretar.

— Ele usou a quantidade que você mandou.

— Para uma panela quatro vezes maior.

Dafa provou o caldo e fez uma careta.

— Também resolvemos que ninguém vai entrar escondido nesta casa — disse. — E que ciúme será falado antes de virar ordem.

Móretar colocou outra panela no fogo.

— Eu não vou morar aqui o tempo todo. Quero continuar em Inc, visitar minha família em Key e participar da reconstrução das fadas. Estar longe não transforma cada volta numa dívida.

Mantelar entregou a faca a Adwig.

— E eu não tenho obrigação de participar de todas as relações que você tiver. Posso construir uma amizade com eles, recusar outras aproximações e continuar sendo seu marido.

Dafa apoiou os braços na mesa.

— Eu quero Adwig. Também quero descobrir o que desejo com Móretar sem que ela seja intermediária. Com você, por enquanto, quero jantar sem precisar provar que não pretendo tomar seu lugar.

— Ótimo — disse Mantelar. — Comece fazendo outro jantar.

Dafa jogou um legume nele. A conversa continuou sem chegar a uma forma definitiva.

Nos anos seguintes, algumas aproximações produziram intimidade; outras terminaram em recusa e foram respeitadas. Móretar passava meses fora e voltava com parentes, fadas ou problemas políticos. Dafa mantinha quartos em mais de um planeta. Mantelar acompanhava os lobos em missões de retirada e retornava ao Palácio por escolha. Adwig deixou de usar a permanência como única medida de amor.

No quarto ano, os limites de Key foram testados. A administração aprovou a retirada de grãos dos depósitos Confes para abastecer a capital depois de uma falha nas colheitas. Adwig suspendeu o transporte ao receber denúncias de que a região costeira perderia sua reserva.

A revisão pública mostrou que parte dos grãos estava contaminada e precisava ser retirada de qualquer maneira. O atraso provocado por Adwig manteve carroças paradas por dois dias e reduziu a quantidade que ainda podia ser aproveitada.

Frempor apresentou o resultado diante dela.

— Sua objeção era legítima. Sua decisão estava errada.

— Então publiquem as duas coisas.

— Algumas pessoas vão usar isso para pedir o fim da função.

— É para isso que o registro existe.

Meses depois, outra suspensão revelou que responsáveis pelo cultivo inflavam perdas para receber mais ferramentas. A função de Adwig não se tornou prova de sabedoria nem cerimônia vazia. Às vezes impedia um abuso. Em outras, criava um problema que ela precisava reconhecer diante das pessoas afetadas.

As Juperas traziam notícias.

Em Percento, Chae e Alye continuavam na assembleia. Grupos ligados aos protocolos tentaram recuperar o controle duas vezes. A segunda tentativa fracassou porque trabalhadores interromperam a distribuição de energia até que os registros fossem abertos.

Chae enviou uma gravação depois de uma sessão que durara três dias.

O Lissar estava enrolado no encosto da cadeira e erguia a cabeça sempre que alguém abria a porta da assembleia.

— Descobrimos que fazer perguntas não significa gostar das respostas. Alye votou contra mim duas vezes e estava certa numa delas. A assembleia permanece lenta, discutida e incapaz de satisfazer todos. Continuamos voltando no dia seguinte.

Adwig respondeu que aquilo lhe parecia melhor do que uma satisfação produzida sem perguntas.

Em Paradise, Sarilyan substituíra a primeira âncora por várias peças menores. Algumas formações haviam terminado quando os participantes retiraram energia. Outras favoreciam os Supremos que recuperaram reservas mais depressa. Primordiais contestavam o acesso desigual a água e abrigo, e nenhuma regra impedia que uma coordenação voltasse a esconder custos.

— Já afastamos duas âncoras por desvio — contou Sarilyan por uma Jupera. — Uma terceira renunciou quando percebeu que não conseguia coordenar sem favorecer a própria região.

— Encontraram uma forma estável? — perguntou Adwig.

— Encontramos formas que podem ser desmontadas. Por enquanto, é o que temos.

As estruturas eram revistas, interrompidas e refeitas por pessoas que conheciam o risco.

Teleret cumpriu a promessa. Passava parte do tempo em Key e partia quando desejava. Médera ajudou os sobreviventes de Atlantis a construir canais sem entregar o tridente. Krakor aprendeu a visitá-la antes de anunciar que havia voltado para casa.

No vigésimo quarto ano, Adwig retomou o livro iniciado na caverna.

Não escrevia mais para ocupar o silêncio. Mantelar entrava para perguntar onde deixara uma ferramenta. Dircle interrompia parágrafos para corrigir títulos divinos. Dafa lia trechos e riscava aquilo que não lhe pertencia. Móretar acrescentava nomes de pessoas que os relatos de guerra haviam reduzido a exércitos.

Adwig registrou Teleret vivo, Carl ausente, Sarilyan diante das formas imperfeitas e a administração de Key aprendendo a não obedecer a uma mulher que não estava presente. Escreveu sobre Elaryan sem transformá-la em explicação para todas as escolhas que os outros fizeram.

Quando chegou à última página, deixou-a vazia.

Trovar ainda voltaria.

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