Capítulo 32 — Parte 32
Klif, Gagoim e Bortu reapareceram diante delas.
— Terminando as apresentações — disse Klif —, os corpos que destruíram eram réplicas controladas à distância. Podemos produzir quantas forem necessárias.
Dafa puxou o cetro para perto do corpo.
— Réplicas nunca carregam toda a capacidade dos originais.
Klif ergueu a mão. Outra cópia de Bortu avançou.
Adwig conteve o corpo com uma corrente de ar, e Dafa encostou a ponta do cetro no centro luminoso que pulsava sob o peito da réplica. A imagem perdeu a forma.
— Não trataremos com bonecos — disse Dafa. — Se quiserem nos readequar, apareçam pessoalmente.
Os três desapareceram.
Dafa deu um passo na direção do ponto em que estiveram, mas Adwig segurou seu braço.
— Caçar inimigos que podem produzir corpos sem fim é aceitar o terreno deles.
— E esperar que venham buscar a gente é aceitar o tempo deles.
— Por isso vamos descobrir o que sustenta esse sistema.
Dircle surgiu perto da travessa de frutas.
— Gaia não faria isso — disse. — Se enviou o caos, enviaria alguém capaz de controlá-lo.
— Elaryan faz muitas coisas — respondeu Dafa. — Chamar alguém de mãe ou deusa não torna cada decisão dela justa.
— Você não a conhece.
— Conheço o que ela fez conosco. Por enquanto, isso basta.
Dircle baixou os olhos. Parecia procurar uma resposta que não encontrou.
— Vocês não entendem o que ela preservou — disse antes de desaparecer.
Adwig tocou duas vezes a têmpora, mas Dafa levantou a mão.
— Agora não. Não quero ninguém na minha mente.
— Tudo bem.
Dafa saiu do palácio. Adwig a acompanhou sem insistir.
— Eu ainda quero conhecer esta cidade — disse Dafa. — Os guardiões escondidos que escolham outro momento para aparecer.
Lottor as esperava no caminho para o centro comercial. Havia mais pessoas nas ruas do que o toque de recolher permitia.
— Algumas decidiram manter as atividades — explicou ele. — Outras vieram observar. Ninguém sabe o que acontecerá quando os mantenedores voltarem.
Adwig notou que, pela primeira vez, Lottor descrevera uma decisão coletiva sem atribuí-la a um protocolo.
— Vocês têm lojas de roupas? — perguntou Dafa.
Lottor demorou a entender.
— Deve estar falando do Serviço de Decoração Individual.
Ele as conduziu a uma construção branca, semelhante às demais. No centro do salão vazio, pronunciou as letras SDI. Uma força as levou ao andar superior, onde portas estreitas se alinhavam de um lado e hologramas exibiam combinações de roupas do outro.
— Gostei do elevador — admitiu Dafa.
Uma funcionária se aproximou.
— Meu nome é Reflat. Podemos produzir o visual escolhido nos hologramas ou usar uma cabine de leitura mental. Nesse caso, o acesso depende da sua autorização e fica restrito ao período em que estiver lá dentro.
— Quero roupas que eu possa experimentar sem colocar uma máquina na minha mente — disse Dafa.
Reflat hesitou.
— As peças não costumam existir separadas do usuário.
— Eu consigo retirá-las depois que a cabine as materializa — disse uma jovem. — Sem ler o pensamento de ninguém.
Ela se apresentou como Chae e pediu alguns minutos. Entrou na cabine, programou combinações a partir dos modelos disponíveis e começou a trazer para fora vestidos, calças, blusas, sapatos e adornos. Em pouco tempo, havia variedade suficiente sobre uma das mesas.
— A máquina produz mais do que vocês usam — observou Adwig.
— Produz o que pedimos — respondeu Chae. — Nós é que quase sempre pedimos as mesmas coisas.
Dafa experimentou as peças e escolheu uma combinação de linhas assimétricas, tecido escuro e detalhes metálicos. Adwig preferiu a cabine. Autorizou apenas a reprodução do modelo que havia escolhido e saiu com uma composição próxima à de Dafa.
— Eu tentando quebrar padrões e você nos fazendo combinar — reclamou Dafa.
— Posso quebrar os padrões combinando com você.
Dafa tentou esconder o sorriso e falhou.
Chae observava as duas enquanto segurava uma peça que não se parecia com o uniforme dos funcionários.
— Você a escolheu para si? — perguntou Dafa.
— Montei porque queria saber como seria usar alguma coisa fora das regras daqui.
— Então experimente.
Chae entrou na cabine e voltou com uma versão própria da roupa, adaptada ao corpo e aos movimentos dela.
— Você quer vir conosco? — perguntou Dafa. — Não para trocar uma rotina escolhida por outros por outra escolhida por mim.
Adwig se aproximou.
— Antes de responder, saiba que estamos procurando pessoas capazes de controlar este planeta sem aparecer. Há risco de combate e talvez não possamos proteger você.
— Eu já combati — disse Chae. — Em outras vidas. Quando cheguei aqui, escolhi a paz porque estava cansada. Pensei que nunca mais quisesse sair dela.
— O que mudou?
— O anúncio da Destruidora. Meu coração disparou, e eu não soube se era medo ou vontade de voltar a decidir alguma coisa.
— Você procura liberdade ou alguém que escolha outro papel para você? — perguntou Adwig.
Chae olhou para o uniforme que deixara dobrado perto da cabine.
— Ainda não sei. É por isso que quero ir.
— Pode voltar quando decidir — disse Dafa. — Venha conosco por este trecho. Depois escolhe de novo.
— Nesse caso, eu vou.
Dafa apontou para o cetro.
— Antes de nos aproximarmos daqueles elfos, preciso saber o que você consegue fazer.
— Posso mostrar. Mas não aqui dentro.
As três deixaram o SDI. Chae saiu por último e avisou a Reflat que voltaria para conversar, mesmo que decidisse não retomar o trabalho.