Capítulo 21
Adwig observou Poseidon antes de pensar em atacá-lo. Não sabia qual dos dois venceria. Talvez conseguisse enfrentá-lo, mas não poderia fazer isso e, ao mesmo tempo, proteger Mantelar, Ferne e todos os que estivessem em Atlantis.
Ter Mantelar ao seu lado não fora um erro. Ele escolhera acompanhá-la depois de conhecer os riscos. A preocupação que sentiam um pelo outro apenas tornava qualquer decisão mais difícil.
Poseidon abriu uma parede do salão e retirou uma garrafa da adega escondida. Entregou-a a um homem, que serviu os convidados.
— Você foi a única pessoa em quem o processo de Ferne funcionou — disse Poseidon. — Precisamos descobrir o que existe de diferente em seu corpo. Com seu consentimento, os próximos testes terão mais chance de sucesso.
Adwig recebeu uma taça, mas não bebeu.
— E se eu não consentir?
— Essa é uma possibilidade cujo resultado você não gostaria de conhecer.
Mantelar se colocou entre os dois. Enquanto falava, examinava as portas e a distância até Ferne.
— Então não é consentimento.
Poseidon uniu o indicador ao polegar e golpeou o ar. O impacto atingiu Mantelar no rosto e o lançou contra uma coluna.
— Um mestiço — disse Poseidon. — Sangue de gigante em um corpo que nunca será aceito entre eles. Não confunda minha tolerância com permissão para me desafiar.
Mantelar tentou se levantar. Adwig sentiu a corrente elétrica percorrer os próprios braços, pronta para alcançar Poseidon. Conteve-a.
— Ferne, você acredita que pode descobrir por que o processo funcionou comigo?
— Sim.
— Então não devemos perder tempo.
Poseidon sorriu.
Adwig ajudou Mantelar a se erguer. Ao passar um braço dele por seus ombros, falou perto de seu ouvido:
— Preciso que você me ajude a tirar Ferne daqui.
Mantelar não perguntou como.
Ferne abriu uma passagem com a espada e os levou ao laboratório. Adwig esperou que ela se fechasse antes de se voltar para ele.
— Se continuarmos, Poseidon usará meu corpo até descobrir como repetir o processo — disse. — Você pode abrir uma passagem e nos entregar a ele ou pode nos ajudar a sair.
Ferne segurou a espada com mais força.
— Ele monitora este lugar.
— Então já sabe que estamos conversando. Escolha depressa.
— Elaryan não me deu instrução para isso.
— Talvez seja sua primeira oportunidade de decidir sem ela.
Ferne olhou para Mantelar, ainda com sangue no rosto, e depois para as mesas onde tantas pessoas haviam sido examinadas sem escolha.
— A espada só alcança destinos de nível igual ou inferior ao meu. Quanto maior a distância, mais difícil manter a abertura. Poseidon sentirá assim que eu a usar.
— Abra para Key.
Ferne negou com a cabeça.
— A assinatura de sua energia foi presa aos sistemas de Atlantis durante os testes. Poseidon pode detectar seu corpo dentro de uma passagem física e desestabilizá-la antes que você atravesse. A morte dirigida não deixa a mesma marca no portal.
Adwig compreendeu o que ele propunha.
— Você e Mantelar atravessam. Eu chego pelo soro.
— Adwig... — começou Mantelar.
— Se houver outro caminho, diga agora.
Ele procurou nos olhos dela uma hesitação que pudesse interromper o plano. Não encontrou.
— Eu seguro a passagem com ele.
Adwig estendeu o braço a Ferne. Antes que ele aproximasse a seringa, fechou os olhos e suspendeu a resistência do próprio corpo.
O líquido entrou sem dor.
Ferne ergueu a espada. Uma abertura surgiu no laboratório, instável nas bordas. Mantelar passou primeiro e se virou do outro lado para ajudá-lo.
A porta do laboratório explodiu.
Poseidon apareceu antes que Ferne atravessasse. O ataque partiu de seu tridente e atingiu a passagem como uma onda elétrica. Ferne poderia ter soltado a espada e permanecido em Atlantis. Em vez disso, segurou-a com as duas mãos até o corpo de Mantelar desaparecer do alcance do golpe.
Adwig acordou em Key no instante em que os dois caíram perto dela. A descarga atravessara a abertura. Mantelar estava desacordado. Ferne ainda segurava a espada, embora parte do peito tivesse sido destruída.
Ele entregou a arma a Adwig e empurrou uma pequena maleta em sua direção.
— As rotas recentes estão salvas. Zen está entre elas.
Adwig segurou a mão dele.
— Não sei se isso repara alguma coisa — disse Ferne.
— Não repara tudo. Mas foi uma escolha sua.
O corpo dele desapareceu.
Elfos começaram a se aproximar. Um deles reconheceu Adwig e gritou que a rainha havia retornado. Ela pediu ajuda para Mantelar antes que as perguntas se multiplicassem.
Levaram-no a uma casa próxima. O curandeiro que os recebeu se apresentou como Caster e começou a tratar as queimaduras. Pouco depois, Mantelar abriu os olhos.
— Seu plano deu certo — murmurou.
— Ferne morreu.
Mantelar viu a espada e a maleta no chão.
— Ele decidiu ficar com a passagem aberta — explicou Adwig. — Não podemos permanecer aqui. Poseidon conhece Key e talvez consiga rastrear a arma.
Caster terminou de cobrir uma das queimaduras.
— O povo está melhor do que esteve sob os antigos reis, majestade. Frempor e Servero mantêm a administração provisória e começaram a investigar os membros do conselho.
— Avise aos dois que voltamos. Diga que Ferne morreu e que Poseidon pode rastrear esta espada.
— E o conselho?
— A investigação continua. Ninguém receberá o governo de todo Key porque me pareceu confiável durante uma conversa.
Caster assentiu.
Adwig abriu a maleta. Havia ampolas, instrumentos e uma peça com símbolos semelhantes aos que vira acender na espada. Um deles correspondia à rota usada por Krakor para chegar a Zen. Ela encaixou a peça na base da lâmina e tentou reproduzir o fluxo de energia que observara em Ferne.
A primeira abertura se fechou antes de alcançar a altura dos joelhos. Na segunda tentativa, as bordas oscilaram e revelaram por alguns segundos a floresta de Zen.
— Não sei quanto tempo consigo manter isso — disse Adwig.
Mantelar segurou sua mão.
— Então vamos juntos.
Eles atravessaram. A passagem se fechou atrás dos dois com um estalo que derrubou folhas das árvores próximas.
Adwig sentou-se na grama, encostada em um tronco. Mantelar permaneceu ao lado dela.
— Como você está?
— Bem.
— Essa resposta serve para Caster. Não para mim.
Ela respirou fundo.
— Morrer com o soro não dói. O pior vem quando eu acordo. Em cada planeta, por alguns segundos, não sei o que ficou comigo. Tenho medo de perder minhas lembranças, de abrir os olhos com outro rosto, de olhar para você e não reconhecer quem é.
Mantelar tomou o rosto dela entre as mãos.
— E agora?
— Agora eu sei quem você é.
Ele a abraçou. Adwig apoiou a cabeça em seu peito e ouviu a respiração dele até conseguir acompanhar o mesmo ritmo.
Ficaram deitados na grama, sem decidir o que fariam depois.