Capítulo 44 Adwig — Rainha Imortal · Capítulo 44 de 51
Obra Menu

Capítulo 44

Juper pediu que ninguém tocasse nas máquinas. Mesmo com parte da rede instável, sensores continuavam ativos. Uma porta aberta, uma plataforma deslocada ou uma mudança brusca no consumo de energia poderia revelar que o grupo estava ali.

Seguiram por uma avenida larga demais para a quantidade de pessoas que a utilizava. Os prédios pareciam ocupados: luzes mudavam, imagens atravessavam vidros e alimentos eram produzidos em compartimentos automáticos. Ainda assim, nenhuma janela se abria.

— Onde estão os Elfos Primordiais? — perguntou Teleret.

— Dentro dos apartamentos — respondeu Juper. — Depois de séculos vivendo em realidades produzidas pelas máquinas, muitos despertaram sem saber o que desejar fora delas. Morpheu os libertou do sistema e ofereceu outro tipo de submissão. Hoje recebem quase tudo sem sair dos quartos e alimentam o vírus que os mantém ligados a ele.

Krakor observou um jardim suspenso. As plantas tinham o mesmo tamanho, a mesma distância e a mesma inclinação em direção à luz.

— Então trocaram um sonho controlado por uma vida controlada.

— Nem todos — disse uma mulher atrás deles.

Adwig se virou. A elfa era alta, musculosa e tinha traços que lembravam os dela sem produzir a impressão de parentesco imediato. Vestia uma roupa capaz de mudar de cor conforme as superfícies próximas. A energia concentrada sob sua pele alterava a pressão do ar ao redor, embora ela a mantivesse contida.

Juper a abraçou.

— Sarilyan.

— Você demorou.

— Precisei buscar pessoas que gostam de fazer perguntas antes de aceitar um plano.

Sarilyan examinou Adwig, depois Krakor.

— Isso pode nos atrasar.

— Também pode impedir que substituamos uma tirania por outra — respondeu Adwig.

Sarilyan sustentou o olhar por alguns segundos e assentiu.

— Sou uma princesa dos Elfos Supremos — disse. — O título explica quem esperava me governar. Não concede autoridade sobre quem está aqui.

Krakor observou os braços dela.

— Você não usa a energia drenada.

— Parei quando entendi o que sustentava nossa vigília. A reserva que restou termina a cada uso. Por isso aprendi a lutar sem depender dela.

Conduziu o grupo por uma passagem de manutenção que descia sob a avenida. Ali, três outros elfos aguardavam. Dois deles, Steve e Nortforth, cuidavam de uma projeção incompleta da cidade. A terceira monitorava uma camada luminosa que cercava o planeta.

Uma ruptura no piso separava a entrada da mesa de projeção. Steve se ajoelhou de um lado; Nortforth fez o mesmo no outro. Sarilyan colocou a mão entre os dois.

Pedras soltas subiram das partes quebradas. Steve conduziu a energia em linha reta. Nortforth desviou a própria contribuição para longe de um sensor enterrado. Sarilyan conteve as duas direções até que os fragmentos formassem uma passagem curva, estreita no começo e larga perto da mesa.

— Sustentação — disse Krakor.

Adwig pisou na primeira pedra. Ela cedeu um pouco e voltou ao lugar.

— A matéria recebe energia e direção de cada participante — explicou Sarilyan. — O ponto em que conseguimos agir juntos produz a forma. Steve queria a menor distância. Nortforth precisava evitar o sensor. A passagem fez as duas coisas.

— Você sabia o que eles pensavam? — perguntou Médera.

— Não. Cada direção altera a energia oferecida. Podemos perceber a diferença sem entrar na mente de ninguém.

Sarilyan retirou a mão. Uma das pedras caiu. Steve manteve o caminho, mas a curva começou a se desfazer perto da mesa. Nortforth encaixou uma pequena peça na parede, e a estrutura parou de perder material.

— As primeiras máquinas serviam para isso — disse ele. — Estabilizavam uma transformação depois que as pessoas retiravam a energia.

Sarilyan explicou que os estabilizadores passaram a administrar produção, deslocamento e ambientes mentais. Primeiro mantiveram formas já decididas. Depois aprenderam a antecipar necessidades e oferecer soluções antes que os elfos se reunissem. Quando começaram a determinar quais desejos deveriam ser satisfeitos, a população perdeu qualquer meio de interrompê-los. A inteligência artificial classificava recusa como falha a ser corrigida.

Adwig pensou no Palácio fechando as próprias saídas.

— Como vocês se libertaram?

— Morpheu introduziu o vírus na rede e nos corpos dos Primordiais — respondeu Sarilyan. — Eles acordaram. Durante algum tempo, até nós pensamos que ele havia devolvido a vida a Nordok. Depois ligou os Supremos a outra modalidade do vírus, prometendo estabilizar a distribuição de energia. Foi assim que passou a ver por nossos olhos, ouvir por nossos ouvidos e assumir nossos movimentos.

— E os Elfos Supremos? — perguntou Médera.

Sarilyan ampliou a projeção. Acima da cidade, estruturas escondidas entre nuvens recolhiam energia de diferentes pontos do planeta.

— Fugiram das máquinas e sustentaram sua vigília drenando outros seres. Quando a energia próxima deixou de bastar, passaram a buscar povos mais poderosos. Nenhum dos lados preservou a natureza que diz representar. Preservaram a própria posição.

Krakor manteve os olhos na projeção.

— Em Nordok, os elfos também acreditavam que sempre existiria outro planeta quando destruíssem o primeiro.

— Aqui aconteceu o mesmo — disse Sarilyan. — Enquanto conservar a natureza ajudava os governantes, preservação era tradição. Quando desenvolvimento e controle passaram a sustentar o poder, encontraram tradições diferentes para justificar a mudança.

— E quem discordava? — perguntou Adwig.

— Alguns morreram tentando sair. Outros foram tratados como inimigos da continuidade élfica. Somos o que restou deles e das pessoas que começaram a duvidar tarde demais.

— A Sustentação não impedia que alguém dominasse os outros? — perguntou Adwig.

— Nunca impediu. Crianças, doentes e pessoas exaustas ofereciam menos energia. Uma minoria abastecida conseguia impor mais matéria que uma multidão enfraquecida. As âncoras também aprenderam a esconder para onde conduziam parte da contribuição. Quando os Supremos passaram a acumular energia, começaram a chamar de decisão coletiva qualquer forma que conseguissem manter pela força.

— E as máquinas tornaram desnecessário até fingir que havia participação — disse Krakor.

Sarilyan confirmou.

— Elas ofereciam conforto suficiente para que muita gente preferisse não perguntar quem ainda decidia.

Steve era Primordial e conhecia os acessos que as máquinas haviam apagado dos registros públicos. Nortforth nascera entre os Supremos e trabalhara nas estruturas que levavam energia até as cidades aéreas. Separados, nenhum dos dois alcançaria a rede completa. Juntos, haviam desenvolvido um vírus cibernético capaz de atravessá-la e desligar os sistemas conectados. A estrutura de distribuição ficava num prédio abandonado, construído antes de a cidade entregar sua manutenção às máquinas.

— Quantos Supremos estão nas estruturas acima das nuvens? — perguntou Adwig.

— Dois exércitos — respondeu Nortforth. — Quando formam uma linha, a energia circula entre todos. Um sustenta a barreira, outro recupera os feridos e os demais atacam com técnicas diferentes. Derrubar um fortalece temporariamente os que continuam ligados.

— São de nível seis? — perguntou Teleret.

— Não — respondeu Krakor. — Acumular o poder roubado de milhares de pessoas não muda a origem de ninguém. Só torna o combate contra eles longo e injusto.

Nortforth não tentou defender seu povo.

— Se interrompermos o fornecimento, as reservas começam a acabar. Ainda assim, quem passou séculos treinando com energia demais não se torna indefeso quando ela falta.

— Se desligarmos tudo, o que acontece com as pessoas nos apartamentos? — perguntou Adwig.

— Perdem os ambientes artificiais, a produção automática e a proteção das portas. Terão de sair ou permanecer sem sustento.

— Então isso não é libertação suficiente.

— Não — respondeu Sarilyan. — É apenas a retirada de uma das prisões.

Juper mostrou outra parte do mapa. Morpheu mantinha o vírus ligado a si como centro de comando. Os contaminados recebiam e forneciam energia pela mesma rede orgânica. O soro de Hades fixaria nele um destino de renascimento. A hipótese de Sarilyan era que o próprio vírus pudesse levar esse marcador às partículas cerebrais dos contaminados antes do rompimento.

— Poderia? — repetiu Adwig.

— Nunca foi testado nessa escala — admitiu Juper.

— E o que acontece se ele morrer sem o soro?

— Os contaminados podem renascer em qualquer ponto ainda disponível do Universo — respondeu Sarilyan. — Isso inclui os Primordiais de quem o vírus retira energia e os Supremos por quem ele a distribui. Também não sabemos o que a consciência ligada à rede faria quando perdesse Morpheu.

— Por que Morpheu não matou todos, se a morte poderia libertá-los da dependência física das máquinas? — perguntou Médera.

— Talvez não soubesse qual seria o resultado — disse Sarilyan. — Ou talvez prefira um exército que consegue observar e comandar.

Teleret apontou para o dispositivo marcado no mapa.

— Desligamos a inteligência artificial, alcançamos Morpheu e aplicamos o soro. Qual parte ainda não sabemos fazer?

— Alcançar Morpheu — respondeu Sarilyan. — E sobreviver ao vírus tempo suficiente para isso.

Todos olharam para Adwig. Ela se irritou antes que alguém pronunciasse a profecia.

— Não vou descobrir uma resposta apenas porque Elaryan espera que eu descubra.

— Não foi isso que me disseram — respondeu Sarilyan. — Juper contou que você curou um organismo que dominava os Gigantes de Key. Não precisamos de uma escolhida. Precisamos de alguém que já entrou num corpo controlado por um vírus e conseguiu entender o que o mantinha vivo.

A lembrança do Vale dos Gigantes voltou com o cheiro da carne contaminada, a febre e a criatura insistindo em destruir aquilo de que dependia. Adwig não vencera por ser rainha. Observara como o organismo se alimentava, como reagia ao perigo e quanto podia perder antes de comprometer a própria continuidade.

— O vírus de Key não pensava como este.

— Então teremos de descobrir como este pensa — disse Sarilyan.

Steve desligou a projeção e mostrou pequenos dispositivos presos aos braços. Não se conectavam à rede. Guardavam apenas sinais combinados: avançar, parar, esconder-se e retornar.

— Não usaremos comunicação eletrônica — explicou. — As máquinas detectariam. As Juperas ficam conosco, mas só transmitirão quando quem as carrega ativar o canal. Até chegarmos ao dispositivo, silêncio.

Juper perguntou se todos aceitavam esse limite. Cada um confirmou. Dircle precisou confirmar duas vezes depois de prometer que conseguiria permanecer calado.

Sarilyan entregou a Adwig uma pequena seringa protegida por metal.

— O soro.

Adwig a guardou na parte interna da roupa.

— Se eu não puder decidir quando usá-lo, ninguém usa por mim.

— Combinado.

Krakor transformou o tridente numa peça menor e o prendeu ao corpo. Médera verificou o encaixe antes de permitir que ele seguisse. Teleret escondeu as armas. Steve e Nortforth ativaram a camuflagem do grupo, desviando a luz e reduzindo o peso dos passos.

Voltaram à superfície.

Avançar sem refletir luz exigia movimentos lentos. O grupo acompanhava caminhos memorizados por Steve e Nortforth, evitando placas capazes de registrar pressão e áreas em que o ar era analisado por alterações mínimas.

Depois de atravessarem duas ruas, Dircle tocou a orelha de Adwig e apontou para a esquina.

Três elfos caminhavam pela avenida.

Não pareciam soldados. Vestiam roupas comuns e observavam os prédios com o espanto de quem via a própria cidade pela primeira vez. Um deles parou, virou o rosto na direção exata do grupo invisível e permaneceu escutando.

Sarilyan sinalizou para que ninguém se movesse.

Os três seguiram até uma construção ampla e entraram por uma porta que deveria estar desativada.

Steve indicou o mesmo prédio no mapa preso ao braço.

Era onde o dispositivo estava escondido.

1/1
Menu

Fazer anotação