Capítulo 26
Adwig e Dafa acordaram na mesma cama, uma diante da outra.
— Precisamos parar com esse hábito — disse Adwig, levantando-se.
— Não pense que acontece por minha vontade.
Dafa permaneceu deitada. O quarto era uma caixa branca, sem portas ou janelas visíveis. O colchão fora feito com retalhos empilhados, macios apesar da aparência improvisada.
— Vai ficar aí?
— Quando abri os olhos, enviei uma corrente de ar em todas as direções. Não existe fresta.
Adwig tocou uma das paredes.
— E o ar?
— Há um composto chamado cartox. Ele recicla outros gases e mantém uma proporção respirável. Esta sala foi feita para espécies que precisam respirar, não especificamente para nós.
— Você descobriu tudo isso antes que eu me levantasse?
— Cinco segundos são suficientes quando se começa pelo que pode matar primeiro.
Adwig examinou a junção entre o piso e a parede.
Dafa virou o rosto para ela.
— Você também consegue observar assim. Ainda não aprendeu a organizar tudo o que percebe.
— Está lendo minha mente?
— Neste espaço, seus pensamentos chegam até mim antes que eu consiga impedir. Posso não responder ao que você não disser.
— Faça isso.
— Está bem.
Adwig se surpreendeu com a facilidade da concordância.
— O que descobriu sobre as paredes?
Dafa se levantou. Explicou que havia várias camadas, cada uma resistente a um tipo diferente de ataque. Romper a sala exigiria alternar poderes e períodos de recuperação. Elaryan voltaria antes que terminassem.
— Como sabe que ela virá?
— Porque não nos trouxe até aqui para esquecer que existimos. Esta sala é uma etapa.
Adwig concentrou energia na parede. A superfície absorveu parte do impacto e distribuiu o restante pelas outras faces.
— Podemos tentar juntas.
— Podemos. Mas primeiro precisamos descobrir se a sala reage de outro modo quando atacada várias vezes. Não pretendo desmaiar para que você prove uma hipótese.
Adwig se afastou.
— Você sempre fala comigo como se eu estivesse prestes a fazer alguma coisa irresponsável.
— Você pretendia atravessar com Emma sem saber o destino.
— E você tentou impedir segurando meu cetro.
— Nenhuma das duas tomou uma boa decisão.
Adwig não discutiu.
— Eu julguei você antes de conhecê-la — disse. — Por causa de Móretar e porque não entendia o que existia entre vocês.
— Móretar não pertence a mim. Também não pertence a Médera nem a você. Se estiver vivo, ainda teremos uma conversa que ele me devia.
— Ele está vivo.
— Você não pode saber.
— Preciso acreditar nisso.
Dafa se sentou no colchão.
— Então, por enquanto, acreditamos.
O silêncio entre as duas deixou de ser confronto. Adwig percebeu que a proximidade de Dafa produzia uma curiosidade que não sentira antes. Tentou afastar o pensamento e viu a outra mulher desviar os olhos.
— Você percebeu — disse Adwig.
— Percebi. Não vou responder se não quiser falar.
— Quero falar.
Dafa esperou.
— Existe alguma coisa acontecendo entre nós.
— Existe. Também existem uma prisão, substâncias que não conhecemos e uma mulher que pode estar observando.
Dafa se aproximou e parou antes de tocá-la.
— Se não estivéssemos aqui? — perguntou Adwig.
— Eu teria beijado você antes que terminasse a pergunta.
Dafa tomou a mão de Adwig e a colocou em sua cintura. A proximidade tornou mais difícil sustentar a cautela. Adwig sentiu a respiração dela e precisou conter o impulso de puxá-la.
— E agora?
— Agora eu não sei quanto deste desejo é nosso.
A resposta não diminuiu o que havia entre as duas. Apenas impediu que Elaryan decidisse por elas.
Adwig soltou a cintura de Dafa e olhou para as paredes.
— Não sei se o que sinto começou comigo.
— Nem eu. Isso basta para não decidirmos nada aqui.
— Se continuar quando estivermos livres, conversamos de novo.
— Sem leitura mental.
— E sem Móretar entre nós como uma pergunta que nenhuma teve coragem de fazer.
Dafa sorriu pela primeira vez desde que acordaram. Ainda estavam próximas quando a parede se abriu.
Uma abertura surgiu na parede. Elaryan entrou carregando uma bandeja, roupas dobradas e o cetro reduzido de Adwig.
— Que disciplina — comentou. — Eu esperava uma reação diferente ao confinamento.
— Estava nos observando? — perguntou Dafa.
— A sala acompanha alterações físicas e uso de energia. Não preciso de imagens para perceber atração.
— Perceber não lhe dá direito de participar — disse Adwig.
Elaryan colocou a bandeja no chão e deixou o cetro sobre as roupas.
— E se esse fosse meu plano?
— Nós nos importaríamos — respondeu Dafa.
Adwig ficou ao lado dela.
— Você controla esta sala. Não controla nosso consentimento.
Elaryan olhou para as duas por alguns segundos.
— Foi justamente uma resposta assim que me trouxe até vocês.
— Não tente transformar nossa recusa em parte de seu plano — disse Adwig.
— Nem tudo acontece como planejo. É por isso que continuo testando diferenças.
Ela apontou para as roupas.
— Quando acordarem, poderão se trocar com privacidade. A comida ajudará seus corpos a usar o que este lugar oferece. Depois, a parede à esquerda se abrirá para Percento.
— E o que espera que façamos lá? — perguntou Dafa.
— Descubram por que um mundo tão perfeito precisa de uma prometida para destruí-lo.
Um gás sem cheiro começou a sair das paredes.
Adwig tentou alcançar Elaryan, mas as pernas perderam força. Dafa segurou sua mão antes que as duas caíssem sobre o colchão.