Capítulo 23
Depois da conversa sobre Krakor e Dafa, Adwig começou a contar à mãe o que acontecera durante os séculos em que estiveram separadas. Mantelar percebeu que as duas precisavam de algum tempo e convidou Móretar a conhecer outra parte da floresta.
Falar em voz alta obrigava Adwig a organizar lembranças que preferira manter distantes. Médera não tinha culpa pela própria morte nem pela decisão de Krakor de abandonar Key para procurá-la. Ainda assim, precisava conhecer o que a ausência dos dois deixara.
Adwig contou como ela e Teleret permaneceram no Castelo depois que o poder passou para Farmer e Elena. Ninguém os expulsou formalmente. A cada dia, porém, ficava mais evidente que eram tolerados como restos de um governo encerrado.
Conversas cessavam quando Adwig entrava nos corredores. Alguns diziam que ela deveria agradecer a benevolência dos novos reis. Outros discutiam se os filhos de Krakor ainda representavam uma ameaça.
Farmer se apresentava como a única pessoa disposta a protegê-la. Dizia que os comentários não importavam e prometia cuidar para que permanecesse no Castelo. Ao mesmo tempo, repetia que qualquer reação dela poderia provocar uma revolta.
— Só depois percebi que ele me mantinha com medo enquanto fingia me dar segurança — disse Adwig. — Quando finalmente saí, achei que a decisão tinha sido apenas minha.
Teleret não queria partir. Acreditava que o pai voltaria e que a família recuperaria o reino. Os dois discutiram tantas vezes que passaram séculos sem conversar.
Antes de desaparecer, Adwig procurou Mantelar. Ele pediu que ela ficasse no Vale dos Gigantes. Parte dos amigos ainda a tratava com afeto, mas muitos haviam se acomodado ao novo governo e não queriam ser vistos apoiando a antiga princesa.
— Mantelar me pediu que ficasse — disse Adwig. — Eu fui embora sem me despedir. Na época, achei que desaparecer era a única decisão que ninguém poderia tirar de mim. Só muito depois percebi que também tinha decidido por ele.
Médera não tentou aliviar a responsabilidade da filha.
— Você estava com medo. Isso explica a escolha. Não apaga o que ela causou.
Adwig concordou.
Na floresta, encontrou uma caverna e a transformou em lar. Fez a vegetação crescer ao redor das entradas, alterou trilhas e espalhou sinais que afastavam caçadores. Assim nasceu a história da bruxa que vivia escondida entre árvores escuras.
O medo protegia Adwig e a região. Também afastava qualquer pessoa que tentasse procurá-la.
Com o passar dos anos, novas flores, insetos e pequenos animais apareceram na floresta. Adwig começou a sair da caverna para acompanhar as mudanças. Em uma dessas saídas, encontrou uma jovem fada presa numa armadilha deixada por Coraces. Libertou-a e curou seus ferimentos.
Outros pedidos chegaram. A bruxa que aterrorizava invasores tornou-se guardiã para quem vivia ali. Ainda assim, Adwig quase nunca permitia que alguém se aproximasse o bastante para conhecê-la.
Teleret foi uma das poucas pessoas que insistiram. Seguiu as histórias sobre a protetora da floresta até encontrar a irmã.
Ele contou que Krakor havia retornado, não como o governante que recuperaria Key, mas como um viajante embriagado e confuso. Continuava procurando Médera. Teleret o acompanhara por diferentes planetas, tentando evitar que se destruísse.
Em uma dessas viagens, Krakor deixou o filho para trás e só percebeu muito tempo depois. Teleret narrava o episódio como mais uma aventura, mas Adwig reconhecia o abandono por trás da tentativa de rir.
— Ele continuou acompanhando nosso pai? — perguntou Médera.
— Continuou. Acreditava que ainda podia trazê-lo de volta. Tentou fazer o mesmo comigo.
Teleret repetia que Adwig poderia ajudar Krakor, proteger Key e cumprir a promessa feita na infância. Falava da profecia segundo a qual ela assumiria o reino e reuniria os povos para enfrentar uma ameaça maior.
Adwig recusou durante muito tempo. Cuidar da floresta parecia suficiente. Mais do que isso: parecia seguro.
— Seu pai nunca procurou você? — perguntou Médera.
— Não. Primeiro pensei que sentisse vergonha. Depois achei que não se importava. Acabei decidindo que o motivo não mudaria a ausência.
Médera desviou os olhos.
Adwig contou que Teleret acabou convencendo-a a deixar a caverna. Ela ainda não sabia tudo sobre a profecia naquela época. Agora sabia que os registros que chegaram a Krakor e depois ao irmão haviam sido preservados por Elaryan.
— Ferne disse que ela precisava que Teleret acreditasse, que meu pai repetisse a promessa e que eu saísse da floresta. A profecia ajudou a produzir aquilo que dizia prever.
— Então não prova que sua dor tinha algum propósito — respondeu Médera. — Prova que alguém conhecia suas feridas e soube pressioná-las.
— Eu me tornei rainha. Reuni Key.
— Porque você escolheu agir. Errou, perdeu pessoas e continuou tomando decisões. Nada disso pertence a Elaryan só porque ela tentou conduzi-la.
Adwig pensou em Teleret. O irmão acreditara que a profecia devolveria sentido à família. Morreu antes que pudessem conversar sem aquela promessa entre os dois.
— Eu queria ter entendido isso antes da morte dele.
Médera segurou a mão da filha.
— Você ainda pode amá-lo e reconhecer o dano causado pelo que ele acreditava.
Adwig ergueu os olhos para o céu.
— Tudo parecia mais simples quando nós apenas olhávamos para as estrelas.
— Naquela época, não sabíamos quem vivia perto delas. Agora cada ponto pode guardar alguém que conhecemos.
As duas permaneceram em silêncio por alguns instantes.
— Você falou sério sobre meu pai? — perguntou Adwig.
— Falei. Se Krakor e eu tentarmos reconstruir alguma coisa, ele saberá sobre Móretar antes. Não vou pedir que aceite o que não teve oportunidade de conhecer.
Adwig abraçou a mãe.
Um estrondo veio da parte da floresta para onde Mantelar e Móretar haviam seguido. O solo tremeu sob os pés das duas.
— O que eles fizeram? — perguntou Adwig.
As duas correram na direção do barulho.