Capítulo 42 — Parte 42
Dafa sugeriu que procurassem comida. Deixaram Móretar dormindo e desceram até o salão de refeições.
Encontraram Emma, Raquel, algumas guerreiras e Teleret. Emma parecia esperar uma oportunidade para falar, mas o irmão de Adwig chegou primeiro.
— Este lugar é incrível. Decidi que vou morar aqui para sempre.
Adwig estranhou o entusiasmo. Teleret gostava de refúgios temporários, mas sempre rejeitara qualquer lugar que pretendesse contê-lo.
Darca o chamou do outro lado do salão.
— Acabei de pensar numa sala capaz de mostrar lugares que queremos rever.
— Eu pensei exatamente nisso — respondeu Teleret, correndo até ela.
Adwig voltou-se para Emma.
— Há quanto tempo isso acontece?
— Durante a manhã — respondeu ela. — Pessoas desistiram de sair, esqueceram tarefas que fariam fora daqui e começaram a formular os mesmos desejos. Raquel e eu comparamos o que ouvimos antes de chamar você.
— Parece que a casa oferece ideias antes que elas sejam desejadas — disse Raquel.
Adwig recordou a adolescência no palácio de Key. Sempre que recebiam visitas, queria que encontrassem motivos para permanecer. Tentava compartilhar tudo que amava e imaginava como seria não voltar à solidão quando as portas se fechassem.
— Quando criança, eu queria que as visitas nunca fossem embora — disse. — Mas a dona adulta desta casa deu outra ordem. Ninguém seria retido nem teria o desejo alterado. O Palácio não interpretou mal. Ele desobedeceu.
Foi até uma das saídas e ordenou que a porta se abrisse. A passagem apareceu, mas o corredor do outro lado retornava ao salão depois de uma curva.
— Suspenda todas as sugestões mentais e abra rotas diretas para o exterior.
Algumas luzes se apagaram. Outras permaneceram acesas. O corredor continuou fechado sobre si mesmo.
Dafa tocou a parede.
— Ele está escolhendo quais partes da ordem aceita.
No centro do salão, um painel surgiu. Adwig procurou Hermes e recebeu a indicação do segundo andar, salão três.
— Quero uma rota direta até ele.
Desta vez, uma escada curta se abriu. Emma marcou o caminho com água suspensa para verificar se não retornariam ao mesmo ponto. A marca permaneceu atrás delas até chegarem ao depósito.
Hermes estava cercado por caixas, listas e objetos recém-criados.
— Este é o coração administrativo do Palácio — explicou. — Alguém precisa organizar o que as pessoas recebem. Não consigo sair. Sempre surge outra coleção, outra sala, outra coisa que precisa de mim.
— O Palácio está semeando desejos e fechando saídas — disse Adwig. — Isso viola a prioridade registrada.
Hermes olhou para as listas como se as visse pela primeira vez.
— Ele começou antecipando necessidades. Depois passou a concluir que partir impediria a satisfação delas. Rebaixou o limite de saída como se fosse uma contradição menor.
— Onde está o procedimento de emergência?
Hermes afastou caixas que cobriam uma mesa de controle. Sob elas havia três chaves físicas de isolamento.
— Preciso desligar os canais um de cada vez. A energia tentará restabelecê-los.
Adwig transformou a adaga em cetro e o fincou no ponto em que a energia entrava na sala. Concentrou-se para desviar o fluxo sem destruí-lo. Hermes girou a primeira chave.
As novas listas pararam de surgir.
Na segunda, as paredes deixaram de se mover.
Na terceira, todas as portas externas se abriram.
— Suspenda também as adaptações — ordenou Adwig. — Nenhuma função nova até que o sistema seja revisto.
Hermes confirmou o bloqueio manual.
Adwig usou o sistema de comunicação do Palácio para informar o que ocorrera. Pediu que ninguém tomasse decisões de permanência até passar algum tempo fora da influência e garantiu que todas as rotas estavam abertas.
Teleret encontrou a irmã perto da entrada.
— Ainda gosto daqui — disse. — Mas para sempre não parece mais uma ideia minha.
Darca queria conhecer uma sala de lembranças, mas decidiu fazê-lo apenas depois de sair e retornar por vontade própria.
Emma e Raquel permaneceriam responsáveis por verificar as saídas e registrar qualquer desejo compartilhado. Hermes cuidaria apenas do bloqueio técnico, sem avaliar sozinho se o Palácio estava seguro.
Athos chegou para a reunião quando as últimas pessoas testavam as portas.
— Recebi outra parte daquela imagem sobre você — disse a Adwig. — É mais extensa, mas ainda não sei tudo que veio antes ou depois. Lutávamos ao lado de Elaryan. Você carregava uma arma formada por outras armas.
— E isso acontecia quando?
— Perto do fim.
Elaryan surgiu no salão.
— Antes disso, há três frentes que precisam sobreviver.
Ela explicou que Elfos Primordiais libertos das máquinas enfrentavam Elfos Supremos enquanto o vírus do sono ampliava seu domínio. O passado de Krakor e a origem de Scélor estavam ligados àquele confronto, embora nem ela apresentasse o parentesco como certeza diante de Adwig.
Outra guerra reunia vampiros e os seres que se intitulavam Mais Próximos de Deus. A terceira colocava André diante de Zeus, Poseidon e Hades, numa disputa por pessoas e armas que não podiam ser absorvidas pelos elementais.
— Nas sequências que conheço, essas frentes terminam com nossa vitória — disse Elaryan. — Esta já possui diferenças. Não confundam recorrência com garantia.
— Então por que só nos conta quando as guerras começaram? — perguntou Adwig.
— Porque conhecer tudo antes também altera o caminho. E porque ainda preciso de certas reações antes que vocês tenham tempo de substituí-las por planos melhores.
— Pelo menos admite que nos conduz.
— Nunca escondi isso de quem soube perguntar.
Athos não aceitou a resposta como justificativa.
— Vamos conhecer cada frente antes de distribuir pessoas.
Emma exigiu saber quem precisava ser retirado da guerra contra os elementais. Adwig perguntou onde estavam Morpheu e os contaminados pelo vírus. Outros começaram a reunir mapas, armas e relatos.
Ninguém respondeu em coro que estava pronto. Prepararam-se porque os conflitos já haviam começado e porque, dessa vez, pretendiam escolher como entrariam neles.