Capítulo 3
Adwig continuou olhando para a fumaça acima da cidade.
— Vamos ao castelo — disse.
Mantelar não demonstrou surpresa. Começou a separar instrumentos, anotações e pequenos recipientes espalhados pelo laboratório.
— Quando partimos?
— Eu disse que vou ao castelo. Não posso pedir que venha comigo. Retomar a terra dos elfos já será difícil. Se eu realmente reivindicar o trono e tentar reunificar os povos, muita gente vai preferir me impedir antes que eu consiga falar.
Mantelar interrompeu o que fazia.
— Você está brincando comigo?
Adwig conhecia aquela expressão. Ele não levantava a voz, mas os olhos se estreitavam e o corpo parecia aumentar alguns centímetros.
— Quantas vezes quase morri ao seu lado? Quantas vezes você salvou minha vida? Passamos séculos separados porque você escolheu a reclusão. Agora que saiu da caverna, acredita mesmo que vou deixá-la seguir sozinha?
— Os Gigantes precisam de você aqui.
— Os Gigantes precisam de uma cura, e eu já testei tudo a que tenho acesso neste laboratório. As fadas receberam minhas descobertas e continuam acompanhando os doentes. Os arquivos élficos podem guardar estudos que nunca chegaram ao vale. Se os reis estiverem escondendo alguma informação, quero ouvi-los explicar pessoalmente.
Mantelar fechou uma caixa com registros, lâminas esterilizadas e instrumentos e a prendeu ao cinto.
— Os elfos abandonaram os Gigantes assim que surgiu a suspeita de contágio — continuou. — As fadas foram as únicas que permaneceram. Tentaram medicamentos, magia e tudo o que conseguiram adaptar. Os coraces fizeram contato algumas vezes, mas qualquer tentativa de cooperação termina em ameaça. Não vamos resolver isso com cada povo protegido atrás da própria fronteira.
Adwig sabia que ele tinha razão. Ainda sentia medo, e reconhecer a sensação continuava sendo estranho. Era praticamente imortal, conhecera todos os povos do planeta e sobrevivera a experiências que já pareciam histórias de outra pessoa. O retorno ao castelo, porém, trazia algo que a força não resolvia. Significava voltar ao lugar em que aprendera a ser princesa, filha e promessa antes de decidir quem desejava ser.
— Então prepare suas coisas — disse. — Partimos agora.
Mantelar sorriu e voltou-se para o suporte preso à parede.
Ali repousava um machado enorme, de lâmina brilhante e cabo cravejado de pedras. Mantelar retirou a arma com cuidado e a apoiou sobre o ombro.
— Caster, meu querido. Chegou a hora, meu bebê. Vamos voltar a trabalhar juntos.
— Você ainda conversa com ele?
— Ele continua sendo um ouvinte melhor do que muita gente.
Adwig sorriu. Mantelar prendeu os últimos objetos ao cinto, conferiu a caixa de pesquisa e fechou o laboratório.
Partiram pela Estrada Rouge, que levava à Grande Planície e oferecia o caminho mais rápido para a terra dos elfos. Ao deixar o vale, Adwig olhou uma última vez para a coluna de fumaça. Não sabia se voltaria com uma cura, um exército ou outra promessa incapaz de salvar alguém.
Na planície, parou e ergueu as mãos. Mantelar reconheceu o feitiço e ajustou o machado às costas.
Adwig pronunciou as palavras enquanto movia os dedos. A brisa aumentou ao redor dos dois, passou sob seus pés e os levantou. A grama se inclinou quando começaram a avançar acima do chão.
Mantelar esticou as pernas, tentou dobrá-las e acabou deixando os braços abertos para manter um equilíbrio que o feitiço não exigia.
— O caminho é longo — avisou Adwig.
— Eu já estava imaginando que ir andando seria complicado.
— Não consigo sustentar o feitiço até a capital. Quando pararmos, chamarei outro transporte.
— Está pensando em Articus? Ele ainda está vivo?
— Achei que sentir energias conhecidas fosse uma habilidade sua.
Mantelar lançou-lhe um olhar irritado.
— Articus e eu temos um laço — continuou Adwig. — Sei que está vivo. Também sei que virá quando eu chamar.
— E conseguirá carregar nós dois?
— Acho que teremos uma surpresa quando o encontrarmos.
Adwig manteve o feitiço até sentir que o gasto de energia começava a comprometer sua atenção. Os dois desceram numa área aberta da planície. Ela retirou o cetro preso às costas, moveu-o para o alto e fez um traço fino de luz atravessar o céu.
Esperou.
Uma forma surgiu entre as nuvens. Cresceu depressa e abriu asas largas antes de iniciar a descida. Quando o animal pousou, o deslocamento de ar fez Mantelar proteger o rosto com um braço.
— Grosh! Que besta é essa? O que você deu para aquele cavalo comer?
Articus estava muito maior do que Adwig recordava. A pele tinha placas resistentes, a crina descia espessa pelo pescoço e as asas reuniam penas, plumas e pelos. Mesmo parado, parecia ocupar espaço demais para ser confundido com um animal comum.
— Imaginei que tivesse crescido. Não tanto.
Adwig aproximou-se e tocou a cabeça do Pégaso. Articus respondeu com movimentos desajeitados, abaixando o pescoço e empurrando o focinho contra ela.
— Os Pégasos foram trazidos por meu pai de outro planeta — explicou. — Articus foi o primeiro a chegar a Key e já era adulto antes de eu nascer. Algumas características de animais de primeira vida foram introduzidas em sua linhagem para que pudessem se reproduzir aqui. Mesmo assim, continuam raros e quase impossíveis de domar.
— Domar não parece ser a palavra certa para isso.
— Nunca foi.
Adwig falou com Articus usando sons que Mantelar não compreendeu. O animal abriu e recolheu as asas, respondeu com um som baixo e tornou a encostar o focinho nela.
— Acho que consegue nos carregar — disse Adwig.
Mantelar pediu permissão antes de segurá-la pela cintura e colocá-la sobre o Pégaso. Depois subiu na garupa, mantendo Caster preso às costas e a caixa de pesquisa junto ao corpo.
Articus levantou voo. A planície diminuiu abaixo deles, seguida por rios, bosques e montanhas. Mantelar permaneceu rígido durante os primeiros minutos, segurando-se com força maior do que admitiria. Aos poucos, relaxou o bastante para observar a paisagem.
Depois de um longo período, a capital dos elfos apareceu adiante.
Adwig conduziu Articus até uma área afastada da entrada. As defesas do castelo incluíam armas e feitiços capazes de atingir qualquer criatura que surgisse no céu sem autorização. Ela não arriscaria a vida do Pégaso para anunciar o retorno de maneira grandiosa.
Despediu-se de Articus e o viu seguir na direção das florestas. Depois vestiu uma capa escura de Mantelar para esconder o rosto, os cabelos e parte do brilho da pele.
— Discreta — comentou ele, olhando para a capa e depois para o próprio corpo, o machado e a caixa presa ao cinto.
— Faça o possível para parecer menor.
Entraram na cidade.
Grande parte das ruas e construções era feita de montra, pedra encontrada em abundância nas terras élficas. Os montreiros conseguiam aquecê-la e moldá-la até obter paredes transparentes, superfícies refletivas e estruturas muito resistentes. Árvores atravessavam praças e quedas d'água desciam entre edifícios, mas a natureza obedecia ao desenho rigoroso da capital.
Adwig conhecia aquelas ruas e, ao mesmo tempo, não reconhecia quase nada. Fachadas haviam mudado, pontes ocupavam lugares novos e construções antigas tinham desaparecido. A cidade permanecera enquanto ela se escondia, sem esperar por seu retorno.
Mantelar parou diante de um bar.
— Podemos entrar?
— Acabamos de chegar.
— Estou com sede desde o vale.
Adwig não precisava comer ou beber para manter o corpo funcionando. Mantelar precisava, e havia atravessado a planície carregando ferramentas, amostras e um machado de guerra. Ela observou o movimento discreto dentro do estabelecimento. Não parecia cheio.
— Uma bebida — concordou. — Depois seguimos.
Entraram.
Adwig sentiu que havia cometido um erro antes mesmo de escolher onde se sentaria.