Capítulo 35 — Parte 35
O retorno dos habitantes de Alfheim provocou silêncio antes de qualquer comemoração. As pessoas que esperavam na praça conheciam os Elfos Luminosos como guardiões distantes, figuras representadas em orações e histórias. Vê-los atravessar a passagem um a um tornava difícil decidir entre reverência e medo.
A mulher que saíra primeiro contou o que havia do outro lado. Outros explicaram como a estabilidade de Alfheim dependia das rotinas de trabalho, circulação e repouso da comunidade física. Lottor confirmou que os líderes empresariais executavam protocolos sem conhecer toda a finalidade deles.
— Os líderes tentaram reativar o toque de recolher — disse Chae. — Pela primeira vez, uma ordem foi dada e nós perguntamos de onde ela vinha. Ninguém voltou para casa.
As pessoas ao redor dela reagiram com comentários e perguntas. Não havia acordo sobre o que fazer com os Reis, os líderes empresariais ou os habitantes que ainda permaneciam no véu.
— Ainda não sabemos governar sem os protocolos — continuou Chae. — Podemos começar escolhendo quem participa da próxima conversa.
Lottor indicou os grupos reunidos na praça.
— Trabalhadores, moradores, líderes empresariais, os Reis e quem saiu de Alfheim.
— E quem não quiser nenhum desses representantes — acrescentou Adwig. — A forma também precisa poder ser contestada.
— Você acha que ainda precisamos de Reis? — alguém perguntou.
— Acho que não devo responder isso por vocês — disse Adwig. — Podem manter a monarquia, substituí-la, dividi-la com conselhos ou criar outra coisa. O importante é que a decisão não venha de uma ordem escondida.
A conversa durou até que nomes fossem indicados para uma primeira assembleia. Chae escolheu participar como representante dos trabalhadores do SDI, mas deixou claro que não falaria por toda a cidade. Alguns dos que saíram de Alfheim também aceitaram contar o que sabiam.
O Lissar que testara a passagem permanecera junto à estátua durante toda a assembleia. Quando Chae se afastou da mesa, ele desceu pela pedra e acompanhou seus passos. Klif não o chamou de volta.
Somente depois disso a tensão começou a ceder. A praça recebeu música, comida e os primeiros relatos menos cautelosos sobre o que existia no véu.
Dircle voou acima das cabeças.
— Foi o grande Deus Urano! Derrubou a tirania de Freyr e destronou Gaia deste mundo!
Athos abriu as asas, chamando atenção antes que o título fosse repetido.
— Não. Se a primeira decisão de vocês for trocar Gaia por mim, nada mudou. Dircle pode me chamar como quiser. Vocês não precisam obedecer.
O gnomo cruzou os braços.
— Um deus que recusa ser deus. Prova de humildade divina.
— Ou prova de que não sou um.
Dafa se aproximou de Athos.
— O que aconteceu depois que saímos?
— Vi uma imagem quando a passagem começou a se fechar. Havia luz, Freyr e alguém que podia ser Elaryan. Não sei o que veio antes nem o que aconteceu depois.
Dircle tentou reabrir o caminho, mas o ponto em que a passagem existira não respondeu.
— Então Freyr continua lá? — perguntou Adwig.
— Não sei — respondeu Athos. — Minhas imagens não trazem todas as causas ou consequências.
— Mas Elaryan sabe — disse Lottor.
— Elaryan conhece sequências que voltam a acontecer e prepara caminhos para mantê-las — explicou Athos. — Isso não significa que saiba tudo. Diferenças acontecem.
Adwig lembrou a pista que ele prometera.
— E Móretar?
— O soro de Hades o enviou para a frente de Inc. Odin usava o poder das fadas numa ruptura que ameaçava a cidade. Móretar assumiu a liderança porque alguém precisava fazê-lo, não porque desejasse outro trono.
— Onde ele está agora?
— Bornurar sabia onde Teleret estava. Móretar e Krakor partiram para buscá-lo.
Adwig tentou não transformar a informação em esperança antes de ouvir o restante.
— Eles encontraram meu irmão?
— A última notícia que recebi dizia que chegaram ao mundo em que ele estava preso.
Athos contou também que parte dos Doze do Éden se reunira em Fóster. André, o Prometido dos Doze, havia partido com Afrodite e Hagar para procurar a irmã.
Dafa quis seguir para lá. Adwig concordou, mas ainda precisava encerrar o que começara em Percento.
Chae decidiu permanecer.
— Eu disse que acompanharia vocês por um trecho. Este foi o trecho. Quero descobrir se conseguimos transformar a primeira pergunta numa forma de viver.
Dafa a abraçou.
— Se mudar de ideia, procure por nós.
— E, se eu não mudar, vocês podem voltar mesmo assim.
Adwig e Dafa foram ao castelo. Bateram antes de entrar no aposento de Cleópatra.
— Quero receber vocês — respondeu ela.
As duas contaram o que descobriram sobre Alfheim, Freyr e a energia retirada da regularidade social. Explicaram que uma assembleia começava a ser formada.
— Não viemos devolver sua coroa — disse Adwig. — Viemos perguntar o que você quer fazer com essa informação.
Cleópatra olhou para a peça guardada sobre a mesa.
— Quero participar da assembleia sem falar por todos. Enquanto outra forma não for escolhida, posso impedir que os antigos protocolos voltem a funcionar em nome da monarquia.
— E seu marido? — perguntou Dafa.
— Precisa conhecer tudo antes de decidir se volta.
Elas foram juntas à caverna. O Rei ouviu a explicação, perguntou pelo povo e aceitou retornar como participante da transição, não como autoridade restabelecida por silêncio.
No castelo, Cleópatra pediu alguns minutos a sós com ele antes da assembleia.
— Podemos nos despedir? — perguntou Dafa.
Cleópatra consentiu. Beijou Dafa e depois Adwig, sem transformar nenhum dos contatos em promessa.
— Voltem quando quiserem — disse. — Mas batam na porta.
— Justo — respondeu Dafa.
Na praça, Athos aguardava com Dircle no ombro. Alguns habitantes de Alfheim optaram por viajar e conhecer outros modos de organização; outros permaneceram para participar da reconstrução.
O portal os levou a Fóster.
Dafa reencontrou aliados entre abraços e perguntas. Adwig procurou André e soube por Nerfate que ele ainda estava com Afrodite e Hagar na busca pela irmã.
Hermes apareceu pouco depois.
— Para quem pretende permanecer, posso criar casas. Somente se quiserem.
Ele mostrou algumas das construções já produzidas. Quando ofereceu um palácio a Adwig, ela perguntou como o processo funcionava.
— A energia de Fóster responde à imagem de lar que você oferece e às associações ligadas a ela — explicou Hermes. — Algumas podem vir de lembranças que você não escolhe conscientemente no momento.
— A casa continuará mudando depois?
— Pode adaptar espaços. Se quiser interromper as mudanças, eu as suspendo. Também posso desfazer a estrutura.
Adwig pensou na caverna, no castelo de Key e nas histórias que o pai contava quando ela era criança.
— Quero ver o que Fóster entende como meu lar. Mas nenhuma mudança depois de pronta sem que eu saiba.
Hermes aceitou a condição.
A construção se ergueu diante deles. Torres, jardins, passagens e janelas ocuparam uma extensão que parecia maior por dentro do que o terreno permitia. Adwig reconheceu o palácio antes de compreender por quê.
Era o Palácio das Histórias de Krakor.