Capítulo 46 Adwig — Rainha Imortal · Capítulo 46 de 51
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Capítulo 46

Sarilyan caminhou até o centro da avenida. Adwig permaneceu perto o bastante para protegê-la, mas deixou que fosse a princesa de Nordok a responder.

— Não viemos governar vocês. Desligamos a rede porque ela não permitia que nenhuma recusa durasse.

— E agora? — perguntou uma mulher entre os revolucionários. — Os alimentos pararam. As portas não fecham. Morpheu continua dentro de nós.

— Agora podemos tentar romper o segundo domínio.

Um homem levantou a arma.

— Tentar? Vocês destruíram a primeira prisão sem saber se conseguem abrir a outra?

— A máquina não ficaria desligada se esperássemos certeza — respondeu Steve.

Nortforth pressionava o ferimento no braço, e o sangue já atravessava o tecido usado para contê-lo.

O elfo que falara primeiro se apresentou como Dárion. Contou que a Revolução reunia pessoas despertas havia anos. Alguns fingiam permanecer nos ambientes artificiais; outros saíam dos apartamentos apenas nos períodos em que Morpheu desviava a atenção para os Elfos Supremos. Tinham depósitos, armas e passagens escondidas, mas o vírus transformava qualquer reunião num risco.

— Ele pode olhar por nossos olhos — disse Dárion. — Nem todos aceitam continuar assim.

— Ninguém deveria aceitar — respondeu Teleret.

Uma senhora atrás dele guardou a arma.

— Eu aceito viver com o vírus se a alternativa for morrer hoje.

Outro elfo se voltou para ela.

— E quantos ele obrigará você a matar amanhã?

— Meu filho ainda está num apartamento. Não escolho a morte dele para provar que sou livre.

— Qual é o seu nome? — perguntou Sarilyan.

— Leria. Meu filho se chama Aren.

Sarilyan pediu que uma das pessoas com as placas registrasse os dois nomes.

As vozes aumentaram. Alguns queriam atacar Morpheu antes que ele reagisse. Outros pediam tempo para retirar crianças e pessoas incapazes de caminhar. Um grupo defendia a fuga pelas passagens da resistência; outro lembrava que ninguém sabia se o vírus permitiria que cruzassem os limites da cidade.

Teleret tentou apresentar Adwig, mas ela levantou a mão antes que ele dissesse mais que seu nome.

— Eu não posso prometer que todos sobreviverão — disse. — Também não decidirei por vocês que a morte é um preço aceitável. Vim porque já enfrentei um organismo que controlava outro povo e porque Morpheu precisa ser atingido pelo soro. Ainda não sei se isso bastará.

Dárion olhou para Sarilyan.

— Então registre as escolhas.

Sarilyan pediu três placas finas às pessoas da resistência e as colocou sobre o pavimento, afastadas umas das outras. Na primeira, marcou a rota para os depósitos do sul. A segunda recebeu os nomes de quem precisava ser encontrado. A terceira ficou voltada para o centro da cidade, onde Morpheu teria de ser enfrentado.

— Ofereçam energia somente à tarefa que desejam sustentar — disse. — Quem ainda não escolheu não será incluído por silêncio.

Dárion tocou a terceira placa. O pavimento se ergueu diante dela e formou uma barreira baixa, apontada para o centro. Outros revolucionários se juntaram, aumentando a extensão e a espessura da defesa.

Leria colocou a mão sobre o nome de Aren. Uma linha surgiu no chão e avançou na direção do prédio que indicara, mas parou depois de poucos metros. Médera acrescentou energia. Teleret fez o mesmo, e o caminho continuou pela rua lateral.

Na primeira placa, um Supremo liberou uma reserva muito maior que a dos demais. A rota para os depósitos se alargou depressa e começou a retirar pedras da barreira construída por Dárion.

Sarilyan fincou os dedos entre as duas formações. O pavimento se rompeu numa linha funda, separando os fluxos. A rota perdeu parte da força, mas deixou de consumir a defesa dos revolucionários.

— Nenhuma tarefa usará energia entregue a outra — determinou. — Quem não conseguir contribuir ainda terá o nome registrado e receberá passagem, alimento ou busca. Poder físico não define quem precisa sobreviver.

Médera organizou a primeira escolta para Leria. Teleret pediu para acompanhá-la. Adwig deixou que ele fosse depois de a Jupera confirmar que o caminho permanecia livre.

Krakor observava as janelas.

— Ele já sabe.

— Provavelmente soube quando aqueles três nos viram — respondeu Juper pela aranha junto à orelha de Adwig. — A queda da rede só retirou as máquinas. O vírus continua sendo os olhos dele.

Adwig procurou Dárion.

— Por que vocês entraram no circo?

— Vimos uma porta abrir sozinha. O sistema nunca cometia esse tipo de erro. Pensamos que alguém tentava chegar ao dispositivo.

— E Morpheu viu vocês entrarem.

Dárion perdeu a cor. Virou-se para as pessoas que ainda discutiam e mandou que abandonassem a avenida.

Antes que completasse a ordem, três figuras atravessaram as nuvens. Supremos em patrulha abriram os braços e ligaram suas reservas. A energia passou de um para outro, formando uma barreira sobre a avenida e uma lâmina de vento que arrancou armas das mãos dos revolucionários.

Pedras deixaram as três formações iniciadas no pavimento e subiram para reforçar a barreira dos atacantes. Nenhuma das pessoas que as havia reunido retirara sua direção; a reserva Suprema simplesmente a sobrepujava.

Sarilyan atingiu o primeiro com uma descarga. O ferimento no peito dele se fechou quando os outros dois transferiram energia. Nortforth rompeu a ligação com um pulso curto lançado do dispositivo preso ao braço. A barreira falhou, e Krakor derrubou os três com uma massa de água.

Eles tentaram se levantar. A reserva coletiva passou para a única elfa que ainda mantinha consciência, aumentando a luz sob a pele dela. Sarilyan precisou imobilizá-la com o peso do próprio campo até a energia se dissipar.

— Três — disse Krakor, recuperando o fôlego. — Um exército completo teria nos prendido nesta rua.

O primeiro raio de Morpheu desceu antes que Sarilyan respondesse.

Sarilyan ergueu uma barreira. A descarga atingiu a proteção e se espalhou pelas fachadas. Vidros estouraram. Pessoas correram para as entradas dos prédios, enquanto Médera abriu o tridente e desviou o segundo ataque para o chão.

Morpheu pousou no meio da avenida.

Não usava armadura. Trazia roupas claras e caminhou sobre o pavimento quebrado sem olhar para os que fugiam. Atrás dele, uma área de sombra se desprendeu da parede e ganhou o corpo de Hypnos.

— Princesa — disse Morpheu. — Achei que já tivesse desistido.

— Você passou anos confundindo silêncio com desistência.

Steve e Nortforth correram em direção ao circo.

Morpheu acompanhou os dois com os olhos.

— Foram eles.

Sarilyan avançou, mas Hypnos abriu os braços. O ar perdeu calor. Steve alcançou a porta; Nortforth empurrou o companheiro para dentro e tentou fechar a passagem. Morpheu apontou dois dedos.

Os raios atravessaram ambos.

Steve caiu dentro do corredor. Nortforth permaneceu preso entre a porta e a parede, ainda segurando o dispositivo que impediria o reinício da rede. Sarilyan o chamou. Ele pressionou a peça contra o metal antes de cair, e as luzes de emergência do circo se apagaram.

Morpheu voltou-se para ela.

— Agora ninguém reconstrói o que eles destruíram sem começar do princípio.

Sarilyan lançou contra ele uma descarga que abriu o pavimento, mas Hypnos recebeu o golpe e o devolveu em ondas. Adwig segurou Sarilyan antes que atingisse a parede.

Krakor avançou sobre Hypnos.

— Você se lembra de mim — disse o deus do sono. — O único elfo de Nordok que alcançou o sexto nível e nunca voltou para salvar seu povo.

— Se eu tivesse aberto um portal, as máquinas teriam atravessado comigo.

— Essa foi a explicação que guardou durante todo esse tempo?

Krakor golpeou o chão com o tridente. Uma massa de água subiu das tubulações rompidas e arrastou Hypnos até a esquina.

— Não. Durante parte dele, achei que mereciam o que aconteceu. Essa é a explicação que eu não guardo mais.

Morpheu sorriu.

— Vocês continuam pensando que desligaram meus olhos.

Dárion, caído perto de uma porta, levantou-se contra a própria vontade. O braço dele apontou a arma para um revolucionário que tentava ajudá-lo. Adwig desviou o disparo. Outros contaminados pararam de correr. Um a um, viraram o rosto na direção do grupo.

— A inteligência artificial só administrava uma cidade — continuou Morpheu. — Eu administro tudo o que o vírus alcança.

Sarilyan pediu aos revolucionários que fechassem os olhos. Alguns obedeceram; outros não conseguiram. Morpheu avançou usando a visão deles para atravessar cada defesa.

Adwig retirou a seringa da roupa.

Ele percebeu.

— Elaryan realmente mandou você acreditar que chegaria até mim com isso?

— Ela não me mandou acreditar em nada.

Adwig lançou uma corrente de energia. Morpheu desviou e respondeu com uma névoa quase invisível. Krakor reconheceu o ataque e correu para a frente dela.

— Pai!

Médera tentou alcançá-lo, mas o vírus já tocara seu rosto. Krakor caiu de joelhos. Manteve o tridente erguido por alguns segundos, impedindo que a nuvem avançasse até Adwig, e depois tombou.

— Foi escolha dele — disse Hypnos, voltando à avenida. — É disso que vocês gostam de chamar cada perda?

Médera atacou. Hypnos recebeu o tridente entre as mãos e liberou outra camada do vírus. Ela caiu ao lado de Krakor.

Teleret regressou pela rua lateral e tentou chegar à irmã. Dárion se lançou contra ele sob o comando de Morpheu. Teleret o conteve sem feri-lo, mas outros três contaminados o cercaram. O vírus entrou por sua boca quando ele procurou ar.

Sarilyan resistiu até ver Steve e Nortforth imóveis na entrada do circo. A raiva sustentou o primeiro ataque e desorganizou o seguinte. Morpheu alcançou sua testa com a mão. Ela desabou.

Adwig permaneceu sozinha.

Dircle saiu do ombro dela e disparou eletricidade contra Morpheu. O golpe o atingiu no peito, mas Hypnos capturou o gnomo numa corrente de ar escuro e o lançou sobre a arquibancada do circo.

Adwig tentou avançar. As pernas perderam força.

A invasão começou retirando a distância entre os sons. A respiração de cada pessoa caída passou a ocorrer dentro da cabeça dela; depois vieram imagens, lembranças e desejos abertos sem ordem. Mantelar apareceu. Dafa e Móretar surgiram logo em seguida. A caverna, Key, o Vale dos Gigantes e as mortes em Zen se sobrepuseram.

Adwig procurou o chão e encontrou o piso do Palácio.

As portas estavam fechadas. As janelas mostravam cenas que ela desejaria viver se ainda pudesse escolher apenas pelo conforto. Em algum lugar da casa, uma vontade diferente testava corredores, abria quartos e procurava o ponto de onde poderia governar tudo.

Ela se levantou e começou pela primeira porta.

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