Capítulo 29 Adwig — Rainha Imortal · Capítulo 29 de 51
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Capítulo 29

Adwig, Dafa e Dircle atravessaram a sala do trono vazia e encontraram os Reis numa câmara de conselho. Um terceiro homem aguardava à mesa com eles.

— Não queremos morrer — disse o Rei.

— Foi por isso que pedi esta conversa — respondeu Adwig. — Quero saber o que vocês desejam e o que acreditam que o povo deseja.

A Rainha segurava a mão do marido.

— Existe uma escolha? A história diz que você veio nos matar.

— A história existia antes de mim. Elaryan colocou meu nome nela. Vocês esvaziaram as ruas, convocaram guardas e se trancaram antes que eu chegasse. Parte do caos começou com a maneira como reagiram à profecia.

O terceiro homem pediu permissão para falar.

— Meu nome é Lottor. Sou conselheiro do Reino. Talvez a expectativa por sua chegada tenha revelado um desejo que ninguém sabia formular.

— Que desejo? — perguntou Dafa.

— O de que alguma coisa finalmente mudasse. Sua chegada foi o acontecimento mais comentado de muitas vidas.

O Rei pareceu ofendido.

— O que há de errado com nossa sociedade?

— Nada, majestade. Talvez esse seja o problema. Todos cumprem as rotinas, recebem o necessário e respeitam as regras. Até as mudanças acontecem nos períodos destinados a elas.

— Como sabem que todos estão satisfeitos? — perguntou Adwig.

— Cumprimos as metas de bem-estar há gerações.

— Isso mede se as pessoas obedecem à vida que receberam. Não se escolheriam outra.

Lottor admitiu que a satisfação era calculada por assiduidade, produtividade, saúde e cumprimento das atividades previstas. Ninguém fazia perguntas abertas a toda a população. Os padrões mais antigos antecediam os atuais Reis, e os registros usavam a palavra readequação para qualquer comportamento que ameaçasse a estabilidade.

— O que acontece durante uma readequação? — perguntou Dafa.

— Nunca precisei acompanhar uma.

Dircle pousou sobre uma cadeira.

— Quase ninguém precisa. Quando acontece, tudo volta ao normal.

Dafa olhou para Adwig.

— Acabem com a monarquia, com as leis e com o trabalho.

A Rainha perdeu a cor.

— Ela está provocando vocês — disse Adwig. — Mas existe uma pergunta real. O que aconteceria se, por um dia, ninguém recebesse uma ordem apenas porque sempre recebeu?

— Quem manteria os serviços? — perguntou o Rei.

— Quem considerar o serviço necessário pode mantê-lo. Quem nunca teve oportunidade de propor outra forma poderá falar. A Fortaleza ficará aberta, haverá assembleias e parte das jornadas será suspensa.

— E o que as pessoas farão com o tempo? — perguntou a Rainha.

— O que quiserem — respondeu Dafa. — Inclusive nada útil.

Adwig perguntou se existiam apresentações públicas, música, dança ou espaços em que alguém pudesse criar diante dos outros. Os três explicaram que as pessoas podiam desenvolver habilidades nas horas livres, mas reuniões barulhentas e grandes aglomerações não faziam parte das práticas locais.

— Quero ver o que acontece quando alguém recebe espaço sem receber uma tarefa — disse Adwig.

Os Reis aceitaram participar da experiência. Seguiram juntos para o jardim central.

A passagem deles atraiu moradores. Pessoas saíam das construções e acompanhavam o grupo, enquanto os comentários anunciavam que Adwig decapitaria os Reis diante de todos.

No jardim, Dafa flutuou alguns metros acima do chão. Adwig permaneceu ao lado dos governantes.

— Ninguém será executado — anunciou. — Queremos saber se alguém deseja apresentar alguma coisa que nunca encontrou onde mostrar.

Dafa perguntou quem cantava, dançava, interpretava, tocava ou criava apenas porque sentia vontade. O silêncio permaneceu por algum tempo.

Então uma mulher ergueu a mão.

— Eu.

Chamava-se Alye e carregava um tândaro, instrumento de cabo comprido e extremidade côncava. Ao tocar o fio metálico que atravessava a peça, produziu uma vibração baixa. Sua voz entrou no mesmo ritmo.

O vento começou a circular ao redor dela. Alye se ergueu e deixou que a corrente conduzisse sua dança. O tândaro girava, os cabelos acompanhavam o movimento e a voz continuava mesmo quando o corpo se inclinava no ar.

As pessoas se aproximaram. Quando a música terminou, Dafa aplaudiu. Adwig fez o mesmo. Pouco a pouco, a multidão repetiu o som até Alye se curvar, aprendendo diante deles como receber uma reação que nunca tivera.

— Este será o momento Alye — disse Adwig. — Um espaço em que qualquer pessoa poderá mostrar algo sem precisar provar utilidade antes.

Outras mãos começaram a se levantar.

Adwig olhou para os Reis.

— Não vim condená-los ao caos. Vim lembrar que uma ordem incapaz de receber algo novo já começou a se transformar numa prisão.

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