Capítulo II Os Brilhantes · Capítulo 2 de 48
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Capítulo II

A missa conventual reunia quasi todos os fregueses, muitos dos quaes residiam a cinco, seis e mais leguas de distancia. Não eram somente os sentimentos religiososque os faziam vir de tão longe, erão tambem outras necessidades, como assistirá feira, conversar com os influentes da localidade e sobretudo saber das novidades politicas. A villa, que nos dias de semana tinhauma physionomia indolentee triste, se transformava nos dias de domingo: a transfiguração principiavapelos aguadeiros, que começavam a lida muito antes de amanhecer para que o dia os encontrassedesoccupados, e em trajesdomingueiros. Aos primeiros clarõesdo dia, as veredas e as estradasque desemboccavam na villa, foram pouco a pouco se enchendo de transeuntes a pé e a cavallo, que, vaidosos do trajeou da cavalgadura, vinham se exhibirna villa.

Mais por digressão do que por devoção, faziam aquellecaminho, que achavam curto, emborade leguas para alguns. As senhoras casadas e as solteiras, obede. cendo a pragmatica sertaneja, eram condusidas nas ancas dos cavallospelos maridos ou pelospaes, tesascomo se tivessem a extremidade da espinha parafusada aos ossos da cavalgadura. Os roceiros se misturavam á onda, que caminhava para a villa, acompanhando as bestas de carga, levando á feiraos fructosda pequena lavoura. Era um incessante formigar; homens a pé e a cavallo enchiam quasi a estrada. O domingo, destinado ao descanço, era um dia de labuta, e grande. A villaiadespertando lentamente. As portas iam -se abrindo á proporção que clareava o dia.

A's 6 horas da manhã todos estavam de pé, e a luz do sol entrava franca por todas aquellas habitações. O silencio nocturno ia sendo pouco a pouco substituidopelosrumores da vida, que despertava, pelos cantares da passarada, pelo clarim dos gallos, que, ainda nos poleiros, annunciavam a proxima vinda do sol. A luz ia brandamente dissolvendo as trevas e levantando os sons, os ruidos que a natureza ao adormecer havia calado. Notava -se mais ou menos alvoroço em todas as casas; era a luta pela vida que continuava. Em uma das habitações de melhor apparencia da villahavia a lida começado mais cedo. Desde madrugada o chefe da familialia um papel manuscripto, que lhe havia sido entregue, logo ao primeirocantar do gallo, por um estafetavindo da capitalda Parahyba. Era comica a postura do pobre homem, de camisa e ceroula, sentado á turca, em uma cadeira de solla, com uns oculos de cangalha na ponta do nariz, tendo abertoum papel, que segurava com as duas mãos e collocava á frente de uma candeia de azeite de carrapáto.

A luz avermelhada e mortiça fazia pouco legiveisos caracteresmanuscriptos, traçados no papel em optima calligraphia, que o matuto custosamentesoletrava, formando syllabas, nomes e por fim construindo phrases. Ainda assim, o sertanejo via-se embaraçado como se estivessea decifrarum hieroglipho. A luz da chamma empallidecia aos poucos, absorvidapela claridade do dia. As letras negras appareciam perfeitamente distinctasno papel, ligeiramente roseo, e o matutoia a custo soletrandotodos aquellesnomes. Havia horas que estava todo empenhado, todoabsorvido nessa tarefa ardua e improficua. Todasas suas qualidadespsychicase todo o vigor de sua mentalidade concentrava afim de triumphard'aquelletrabalhoinsano, que lhe entrava de porta a dentro ainda no melhor do somno.

Depois de soletrar pela vigesima vez o conteúdo da missiva começou a ler por cima e vagarosamente, como um gago, o que se segue: Palacio do Governo da Parahyba, 6 de Janeiro de 1874. Tendo sido adoptado pelos poderes competentes o systema metrico decimal, recommendo a Vmc. que no primeiro do mez vindouro o faça adoptar n'esse municipio, cessando absolutamenteo uzo dos antigos pesos e medidas. Deus Guarde a Vmc. Snr. Presidente da Camara Municipal da Villa. . . . . Era o presidente dos edis da villa que áquella hora recebia do governo da provincia a ordem de pôr em pratica o novo systema de pesos e medidas. Lêra finalmente o que dizia o officio, mas o que o estava preoccupando seriamente era o systema metrico decimal.

Por mais que reflectissenão chegava a comprehender a significaçãodaquellas tres palavras. Repetia-as pausadamente como se o ouvido, impressionado pelo som, the desse conhecimento e lhe clareasse a razão. A familia já estava toda de pé e a mulher, estranhando o fechamento de portas aquellahora, veioá sala e encontrou o marido na mesma posição, de candeia aceza e a repetir: -systema metricodecimal! A primeira vistajulgou-o allucinado, mas elle a tranquillisoudizendo que era uma ordem do governo mais difficilde adivinhar do que as sortesdo tioBernardo. Scientedo contratempo, a sertaneja se retirou, depois de ter aberto as portas e janellasque davão para a rua.

A entrada brusca da luz obrigou o matuto a fechar os olhos. Logo que pôde lêr, continuou a repetirsystema metrico decimal. -A claridade e a aragem fresca deram alento ao presidente dos edis que, triumphando do aperreamento, que havia tantas horas o torturava, arremessou para longe de sí o papel, disposto a chamar em seu auxilio as luzes do vigario da freguezia, seu compadre e conselheiro. O sino da matriz soava tristee pausadamente a primeira chamada da missa conventual. Os habitantes da villa já em trajes domin gueiros, esperavam que tocassea segunda para se dirigiremao templo. O vigario, em mangas de camisa, fazia a barba, sentadodefrontede um espelhode caixa, cercadode alguns compadres, chegados de fóra poucos minutos antes.

No intervallodo raspar dirigiaa palavra a umea outro, e, emquanto ouvia, uma forte bafóradade ar estiraçava-lhe a pelle verme lhadasbochechas, e a navalha trabalhava raspando ou esfolando. O presidentedos edis, mais desejosode sa beroquequeriadizersystema metricodecimal do que de ouvir missa, tomou o uniforme de ver aDeus, recolheuá algibeirao officiodo governo e sahiupara a casa do vigario. O cura fazia a ultima ensaboadella nas queixadasprecisamente quando entrou o matu to. Saudou o compadre dando lhe os dois ultimosdedos da mão, que segurava a navalha. O presidentecumprimentou os circumstantes, e sentou -se. -Por aqui antes da terceira é novidade, compadre, disse o vigario, enchendo depois as bochechasde are raspando com forçaos queixos.

-Nem tanto e nem tão pouco. E 'um papel dogovernoque tragopara mostrar a V. Revda. --Veremos isso. E continuou a raspar. Talveznão sejanada, e talvez seja muita cousa. Do governo vêm cousas más e cousas boas. E encheu de ar as bochechas. Mas isso me parece. . . Novo silencio de bochechas a estourarem; . . . pelo que já rosna o pôvo. . . que temdentede coelho. E o cura deu por concluidaa barbeação, tendo mais de um raspãoem cadaface, a minar sangue. Guardou os aprestos na gaveta do espelho e virou-se para seu interlocutor. Dente de coelho, senhor compadre, dente de coelho, repetio. -Só V. Revd. a poderá saber. E o presidente entregou o officioao vigario.

-Então, com licença, disse o cura, levantando -se e entrando para o interior da casa, acompanhado pelo compadre, e levando o papel. Foram até a sala de jantar, onde sentaram -se em um banco de madeira ao lado de uma grande mesa. O vigario sacou do bolço da calça um valente par de oculos, que poz ao nariz, abriu depois o papel sobre a mesa, apoiou os cotovellos no movele descançando a cabeça nas palmas das mãos, leu o officioem voz pou co audivel. Depois de lidos e relidos os dizeres do papel, levantou a fronte, fitouo presidente e disse-lhe, meneando, tristemente, algumas vezes a cabeça: -Abrenuncio, compadre, abrenuncio! . . . -Cousas más, compadre, não é assim?

-Parece. Ainda não vi noticia alguma tendo Y que não fosse má, e este logo aonde, na parte mais importante do papel! -Mas compadre o que será este systeта теtrico decimal? -Isto é que é precisover e estudar. Tenho setenta annos de idade, sendo quarenta de vigario. Tenho folheado muito livro em latim e nunca me encontrei com semelhantes nomes. Pelo que vejo é uma mudança de pesos e medidas. -E acha que devo fazer isso? - E 'uma injustiça, mesmo um desafôro, trocar os pesos, as medidas de nossos pais, de nossos avós, por um tal de systema metrico de cimal- inventado, talvez, nas outras terras por algum marinheiro ou pedreiro livre. E que fazer?

--Nada mais facil, officiarao governo dizendo que o povo não quer, não acceita, não se sujeitaao tal systema, ao diabo de um nome cujasegunda lettraé um Y. Machinações de Satanaz, senhor compadre, machinações de Satanaz! . . . -Será como bem diz o senhor compadre; e se o presidente teimar? -Era o que faltava ver! Elle que venha obrigar o roceiro a quebrar a sua terça e comprara medida do talsystema; o logista, a queimar a sua vara e o seu covado, e comprar outra medida. Energia, senhor compadre! Respeitemos a memoria de nossos pais e com ella as suas tradições. Hoje mesmo, do pulpito, eu clamarei contraestedespotismo do governo e direiao povo que lucte, mas não se sujeite a tão grande humilhação. Eu respondereiao officioem termos de tirar bons resultados. A terceira! . . . disse o cura ouvindo soar o sino da matriz.

E assim terminou a conferencia.

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