Capítulo XXX
A secca continuava a assolaralgumas pro vincias equatoriaes do Brasil. A miseria cada vez mais enterrava a garra no coração do povo, que, de um dia para outro, viu-se reduzido ao recursoselvagem e unicodas raizes silvestres, O governo do imperio, solicito, attendiaaos pedidos de soccorro, abria creditosque se esgottavam logo, mas tudo issopouco ou nada attenuava o soffrimento da população flagellada. A esmola mais abatia o animo dos famintos, já bastante avassalado pela miseria. Os poderes publicos não descuravam das necessidadesdos acossados pelasecca, mas sem resultados satisfactorios. Levantava -se para em baraçar -lhes o serviço da distribuição dos soc corros a politica de localidade, com os seus odios e exigencias. Em breve appareceram os apaniguados dos chefes de partido que foram arvorados em commissarios do governo.
A gana d'esses fingidospatriotas, que só visavam o interessepessoal, não tardou a se manifestar. Conscios da impunidade, commet tiam os mais escandalososestellionatos, defraudavam o Estado em prejuiso das populações famintas. Esse bando de commissarios ladrões invadiu todo o territorioassolado pela secca; producto obrigado dos tempos de calamidade, devia apparecer e influirmaleficamente sobre os destinos do povo, que soffriasem forças para reagir. Jesuino sabia de tudo isso. Os retirantesdomiciliadosno Cajueiro haviam -no informado do procedimento dos agentes encarregados dos soccorros publicos. O Brilhanteouvia sempre com a maior indignação aquellas narrativas. O furto para elle era um crime hediondo que o seu caracter repellia in-limine.
A sequidão da planicie completamente queimada e o silencioda solidãoapressavamno cerebro de Jesuino a gestação de uma idéa preconcebida desde a manhã anterior. O criminoso, concentrando todas as suas energias, meditava nos meios de salvação dos famintos. Todo absorto em acompanhar a imaginação nos seus vôos arrojados, ficaria, se a consciencia das difficuldades da situação não o tivesse chamado á realidade da vida. Accordou d'aquelle lethargo d'alma já perto do clarear do dia, Nem um instantede modorra lhe cerrou as palpebras em toda aquella noite. Os companheiros dormiam e elle velava. Os cavallos, perto do rancho, uns deitados, outros de pé, continuavam em jejum; a terra nua nada tinha para lhes matar a fome.
O Brilhante, resolvido a achar a incognita do problema em que parafusou toda a noite, deu signal de alarma. Em um instante todos Já estavam a postos, e uma vez ensilhados os cavallos, montaram e partiram. Jesuino continuou como chefe de fila. Andaram alguns kilometros quasi sem luz. O crepusculo matutino foipouco a pouco allumiando a terra, destacando da bruma cinzenta os perfis das montanhas, ao longe, e os esqueletos das arvores da matta. O sol vinha muito perto as nuvens acastelladas no levante se tingiam de rosa, se franjavam de ouro. As alegrias do amanhecer, o drama imponente e sempre novo do nascimento do dia passava despercebido n'a quelle pedaço de terra. Nem uma ave trinava, nem um insecto zumbia. Os homens, afadigados pela viagem, não viam as bellezas que decoravam o oriente. Sumido de todo um resto de noite, que ennevoava ainda o fundo das caver nas, brilhou a luz viva do sol em todo o seu resplendor equatorial. Dentro daquelle banho de claridade, apparecia a terra tristemente vestida por uma florestamoribunda, desfolhada, negra, sem uma folha que abrigasse uma ave, sem uma flor que alimentasse um insecto.
O silenciodaquelle deserto era apenas interrompido pelo tropél das cavalgaduras. O pó levantado do solo pelas patas dos animaes envolvia em tenue nuvem os viajantes, e entrando-lhespelas narinas, titillavaa garganta, produzindo violentos accessos de tosse. A estrada estava sem gente. Não se via um rastona areia, que parecia nivelladaem toda a largurado caminho, o qual seguia, ora direito, ora em agudos cotovellos. As cavalgaduras caminhavam a passo e mesmo assim fatigava-as bastante o exercicio depois de um dia inteiro de fome e sêde. O sol já não apparecia no horisontena altura dos esqueletosdas arvores, tinha assomado alem da linha da floresta e os raios mais vivos e quentes scintillavam nas núas penedias. Os cristaesdos rochedos faiscavam, batidos em cheio pelaluz e as chispasd'ellesdesprendidas feriam desagradavelmente a vista dos viandantes.
Cavallos e cavalleiros tinham os olhos molestados pelo excesso de claridade. O Brilhante scismava, sabiam -no os companheiros pelo ar meditativo das feições. Acom panhavam o chefe ás cegas, sem direito de indagar o destino. As fadigas da jornada cresciam com o levantamento do dia. O sol a pino mordicavathes a pelle, que se tumeficava, como se tivesse soffrido uma fricção de urtigas. Os cavallos esbofados mais saliente tornavam a fundura dos vasios, cujo couro estiraçava-se na ponta dos quadris. Os alforges pendurados nas garupas, ainda bem providos, em constante attritonas ancas dos cavallos, levantavam uma espumosidade alvadia, que descendo de coxa abaixo chegava até o machinho.
Os companheiros do Brilhante levavam á conta da loucura do chefe aquellas provações. Censuravam -no intimamente, mas não se atreviam a proferir a menor queixa. O que mais os apoquentava, era não saber para onde iam. A viagem podia ser de horas, mas tambem podia ser de dias ou de mezes. A avaliarpelo ar meditabundo de Jesuino, tratava-se de uma empresa seria e arriscada. O sol já pendia e a marcha não tinha sido interrompida, nem para tomar a refeição da manhã. A cavallo mesmo, quem tinha fome comeu a carne assada dos alforges, com farinhae rapadura, mas não tiveram agua e a sêde os torturava. O Brilhante não metteu um boccado na bocca; um jejum de tres dias não lhe abatia as forçasdo corpo e nem tão pouco o animo.
Andaram até que os cavalloscomeçaram a fraquear. O proprio Exhalação já consentiaa espora roçar-lhe a barriga, tal era o cançaço que o tolhia. Os outros, animaes possantese briosos, quasi affrontados, com as ventas abertas como boeiros, caminhavam a vara e a remo, a custa de muito castigo. A's tres horas da tarde entravam na Varzea de Fóra. Era ahi muito differente o aspeeto do solo e da vegetação. Verdadeiro oasisperdido no meio daquella terratostadapela secca, offerecia aos viandantes a sombra das verdes frondes de seu carnahubal. A atmosphera era mais suave. O calor do sol, que esbrazeava as rochas e os esqueletos das arvores, era ali mi tigado pela vegetação das palmeiras. Os vian dantes sentiram-se bem naquelle ar, morno é verdade, mas que respiravam sem lhes arderem as ventas. A vista, molestada pelas reverberações dos rochedos nús e das estradas de areias brancas, achava allivio, descansava no verde das carnahubeiras.
Jesuino arranchou -se com os companheiros. Os cavallos desencilhados ficaram estacados a dous passos do rancho, sem animo de mudar os pés e procurar os seccos hervanços enre. dados nos troncos das palmeiras. Homens e bestas, moidos de fadiga, abençoavam a sombra, que os acolhia, e de boa vontade ficariamalio resto do dia e a noite inteira. Aos viandantes, entregues á quietação do repouso, não tardou o somno, e eil-os adormecidos profundamente. O proprio Jesuino luctava para ficarem vigilia. De quando em vez fechavam -se-lhe as palpebras em gostoso coxilo, que o Brilhante espancava arregalando os olhos; mas issonão impedia que voltasse de novo o mensageiro do somno. O sol pendeu de todo para o occaso; os Brilhantes e os seus cavallos não se moveram do logar do rancho.
O esforçoque faziaJesuinopara estaracor dado, era grande, davam testemunho os olhos injectadose as faces entumescidas. Parecia embriagado. uma Anoiteceu. O espaço illuminou-se de es trellas, que scintillavamna immensa e azulina abobada. O calor da soalheira foi enfraquecendo e o ar quente foi-se tornando de tepidez supportavel. O solo e as arvores, em continua reverberação, perdiam a quentura recebida durante o dia inteiro, amornando o vento, que soprava brandamente de varzea a fóra. A medida que a temperatura baixava, os cavallos se animavam a procurar pastagem. O cançaço, que lhes tolhia os membros, desapparecia com a frescurada noite. Seguiram a passo, um após outro, e foram comer as hervas seccas, que em pequenas medas o vento havia atufado no tronco das carnahúbeiras. A fome não lhes permittiaapreciar o paladar da forragem.
Depois de uma boa hora de refeição, mas que não deu para encher a barriga, as caval gaduras seguiram, acompanhando o Exhalação, para o extremo da varzea. O guia, antes de pôr- se a caminho, ergueu tres vezes a cabeça, resfolegou com força e deu um saudoso relincho. cavallos. Jesuino acompanhava os movimentos dos O instinctode sua cavalgadura valiamais n'aquella occasião do que a finura de seu espirito. Os animaes caminhavam a passo; o Brilhante os seguia. A noitenão estava tão escura que não se enxergasse o chão. As innumeras clareiras do carnahúbal davam passagem á luz baça das estrellas. Andaram, andaram muito. O Exhalação, de quando em vez, cheirava a terra e continuava a jornada. Assim foram até que chegaram a uma cerrada deveza. O guia parou e voltando a cabeça para o senhor bufou mais uma vez. O Brilhante comprehendeu o signal. Cortava o cerrado capão uma estreita vereda, cuja bocca aberta e bem trilhadaestava escura e deserta. Entraram. Não havia a minima claridade. O Brilhante caminhava pelo tacto, de nada the serviam os olhos n'aquella escuridão. Depois de algumas centenasde passos.
Jesuino notou que a treva se rarefazia. A escuridão já não era tão densa; uma luz fraca e desmaiada vibrava intermittente e a deveza illuminava -se de uma claridade baça de crepus culo. Seguiram; as ondulações se tornavam mais vivas. Já se distinguiam os perfis dos arvoredos e as sinuosidades do caminho. Ao Brilhante pareceu que a luz não descia dos astros, mas vinha horisontalmentedo ponto que demandava. Não se enganou. Alguns passos! mais e percebeu atravéz dos esqueletos das arvoreso clarão de uma fogueira. O Exhalação parou, entesou as orelhas, e voltando-se para o senhor, soltouum relincho na altura de um cochicho. Jesuino comprehendeu que o animal hesitavae ordenou-lhe que seguisse, soltando um assobiode uma cadencia toda especial.
O cavallo obedeceu. Deram algumas dezenas de passos e entraram em campo raso, em uma varjóta fechada pelamatta e completamente illuminada por duasgrandesfogueiras. O Brilhanteparou para orientar-se; mas o Exhalação cujo faro já o tinhaorientado, ladeoua floresta, à esquerda, acompanhado dos companheiros. Não lhe foi custosoencontrar o que de tão longe vinha procurar. Jesuino com grande interesseobservou o campo. Pernoitavaaliuma caravana, um grande comboio de generos alimenticios. Os freteiros estiradosem rêdes de algodão dormiam a somno solto. Nenhuma sentinellaguardava o rancho. Jesuinopôde muito a vontade se inteirarde tudo. Dous grandes montes de saccasde farinha e fardosde carnes se erguiam perto dos comboeiros. Na parda estopada saccariavia-seS. P.
em lettrasnegras. Eram essasas iniciaesque • Brilhanteprocurava e, certo da existencia d'ellas, deu porconcluidaas pesquizas. Voltava Jesuinopara sahirda varjótaquando ouviuum relinchodo Exhalação. Quasi nem selembrava mais dos companheiros que em tão bôa hora o tinham levado até ali. Não foiprecisocaminhar muito para encontral-os. Estavam fartosd'agua. Tinham os vasios cheios e a presença mais animada. Perto d'elles uma grande fonte, tão rica que alguns decalitrosque tinham bebido, não lhe fizeram differença. O Brilhantevendo agua lembrou -se de que havia muitas horas não bebia. Era facil matar a sede; e pondo a bocca no liquido, embora salobro e de máo cheiro, encheu de todo o es tomago.
Sem mais que fazer ali, Jesuino assobiou, e o Exhalação, tomando o logarde chefe de fila, entrou no caminho que conduzia ao pouso.