Capítulo XXXVIII
Continuava o inverno. O dia havia amanhecido limpo. O sol, que assomara muito claro e muito quente, se nublou, e o brilho dos seus raios foiempanado por enormes nimbus côr de chumbo, que se ergueram do levante e em pouco tempo tomaram conta do espaço. A chuva não se demorou; cahiu, pesada e sem vento. Embora em quantidade, não dava para correr, não tinha fartado a terra, era toda embebida pelas superficiesem que cahia. Dir-se-ia que as arvores e as rochas inchavam. Viam -se já pontos verdes salpicando a pretidão da terra. Eram as sementes que se abriam, deixando apparecerem os embryões. Jesuino Brilhante via na volta da chuva a confirmação do inverno. Alguns meteoros electricos fuzilavam e retumbavam no espaço e mais se fortalecia no criminoso a esperança do termo do flagello. A chuva acabaria a insana tarefa de Jesuino, despovoando a serra. Livre dos retirantes e de Maria, tinha a liberdade de cor rer em soccorro do pai e irmãos. O inverno livrava-o dos famintos e esperava que o feiticeiro mandasse a dormideira para a retirante.
Pensava estar o libertomuito longe, já proximo á casa do velho Soares, e José, mettido n'uma furna, perto da Casa de Pedra, esperava a escuridão da noite, para, á traição, assassinal-o. O mestiço, logo que recebeu a ordem de partir, julgou azada a occasiãode matar o amo. Dentro da gruta parecia uma féra na jaula. A faca que devia atravessar o coração do Brilhante, havia sido afiada com o maior cuidado. O cabra tinha as feições carregadas de ferocidade. Na cabeça do mestico se atropellavam idéas sanguinarias. Esperava a noitecom grande ancia. Jesuino não escaparia de seu golpe traiçoeiro e, antes do sol allumiar de novo a terra, dous crimes estariam consummados: a morte do chefe e o defloramento de Maria.
José, nem um instantepensou que podesse ter máo exito o seu commettimento. Saboreava já os gosos da victoria e o deleite do corpo virgem da retirante. Escureceu. Uma bruma pesada cobriu toda a serra, desde a fundura das cavernas até as eminencias dos mais elevados cabeços. N'aquella escuridão quasi nada se via a alguns palmos de distancia. A nevoa parecia elevar -se até o céo e impedia o clarão dos astros de chegar á terra. A chuva tinha alliviado. Uma aragem sorrateiraciciava, movendo o nevoeiro, que se atufava em grandes medas na espessurada matta. De quando em vez, brilhava uma scintillaçãocambiante e fugaz: eram va galumes, que passavam com suas lanternas de luz intermittente e esverdeada.
A noite se fechara havia mais de duas horas quando José, armado de bacamarte e faca, sahiu da furna. Conhecedor do terreno, mesmo assim, não foi sem grande custo que conseguiu chegar á Titéla do Perigo. A Casa de Pedra tinha uma apparencia phantasticano seio da noite. Pelas boccas das claraboias, sahia uma claridade baça que, resvalando na superficieda rocha, a salientava da treva. José chegou á ponte e escutou. Era completo o silencio. Da caverna não sahia o menor rumor, nem as crepitações da fogueira chegavam fóra. Era prudente esperar, mais tarde seria certa a victoria; e o Brilhante, ferrado no somno, iriaaccordar no outro mundo. O mestiço, estacadona extremidade da ponte, aguardava a hora. Não conservava a calma que procurava ter. Logo ao avistar a caverna, um espasmo sacudiu-lhe todos os nervos. Aquelle arrepio incommodou o deveras.
As pernas bambalearam eo cabra se revoltou contra aquella amostra de covardia. Reagiu, mordendo os beiços, que espirraram sangue. A flexura muscular mudou -se em rigidez tetanica. O cabra ficou teso como se estivesse com um accesso de catalepsia. Até os cabellos se eriçaram, tal foi a reacção que oppoz ás manifestaçõesdo medo que sentira. O silencio e a escuridão eram cada vez mais intensos. Não se sentia o mais leve sopro da viração, não se via a claridade das estrellas. O clarão que sahia da Casa de Pedra, esmorecia cada vez mais e quasi se confundia o contorno da rocha no escuro da noite. José atravessou a Titéla com passo firme. Parou á entrada da caverna e espreitou, Não ouviu o menor ruido. Galgou o batente e ficou com o salão debaixo de vista. A um canto ardia uma fogueira, cuja labareda, já pouco intensa, roia as derradeirasachas de páo d'arco, que Jesuino havia posto ao lume em começo da noite.
A luz era sufficientepara allumiar toda a estancia. Uma rede estava armada em cada extremidade do salão, occupada e immovel, estando o fogo de permeio. O mestico cravou os olhos na rede de Maria e um formigamento nervoso o arrepiou dos pés á cabeça. Julgou o volume do leitogrande para uma pessoa só e acreditou que o amo dormia com a retirante. Essa idéa que o torturava ha al gumas semanas, via agora realisada. O Brilhante pagaria com a vida aquelle amor illicito, punido inexoravelmente pelo amor de José. O cabra, fulo de colera, não tirava os olhos da rede da moça. O leitoda donzella se lhe apresentava como o prostibulo da mais vil meretriz. Todos os seus sentidos eram impressionados pelo quadro sensual que acreditava ter á vista.
O desvairamento do mestico crescia com as visões que a sua mente avolumava. Completamente convencido de que Jesuino estava com a retirante, desceu o batente e pisou no salão. O silencioque reinava ali, foium instante perturbado pelos seccos estalidos que soltaram as juntas dos pés do mestiço. Alguns segundos esteve parado, encostou o bacamarte á parede, e sacando a faca da bainha, deu alguns passos em direcção à rede de Maria. A cada passada de José acompanhava um estalo muito semelhante ao que se ouve quando as cabras pisam nos lagedos. O mestiço, impressionado com o estranho arruido de suas juntas, parou. O Brilhante, cuja sagacidade tanto conhecia e admirava, poderia ouvir a fraca bulha de seu caminhar e não esperaria ser atacado. A posição do cabra era melindrosa; e, como prova da difficuldade da empresa, bastava ver -lhe a catadura: tinha a fronte fula e rugada. Pensou no caso e quasi retrocede. Estava em meio do caminho e a retirada talvez lhe fosse fatal.
Continuaria irresoluto a meditar na situação se a chamma ardente do ciume nào se ateasse indomavel, empurrando -o para adiante. Seguiu dentro de uma salva de estalos. Por mais que procurassecaminhar com pés de gato, mais agudo se tornavam os estalidos das articulações. Disposto a tudo, marchou até a distancia de ter sob os olhos o interior da rede. A luz vermelha da fogueira, em amortecidasscintillações, resvalava no rosto moreno de Maria. O cabra cravou a vistana figuraadormecida da moça. A calma e suavidade das suas feições e a placidezdo somno mais aguçaram os desejos sensuaes do mestiço. Todo volupia, José fitava o semblante da retirante, mordendo os beiços e sentindo fluido da concupiscencia the correr o corpo inteiro.
Lançar -se-ia sobre a moça com a sensualidade de um bode, se entre as imagens crapulosas que lhe assaltavam a mente, não appa recesse destoando do cortejo luxurioso a figura do Brilhante. O fogo da paixão libidinosase amorteceu um pouco, mas o cabra, exasperado com a presença do amo, embora idéal, se decidiu a matal -o logo, para poder realisar os seus desejos, e encaminhouse para a rede de Jesuino. O Brilhante accordara no momento em que José pulava dentro do salão. Bastaram os pri meiros estalosdos pés do cabra para despertal-o. Viu tudo e ficoude guarda, com a faca núa e empunhada. O mestiço, com as juntassem. pre a estalar, caminhou até ficarcom o rosto do amo debaixo de vista. Fitou-o com attenção: parecia dormir.
Jesuino, por entre as palpebras mal fechadas, via a cara do liberto e o espelhar da faca que elle trazia. Custava se conter. A vida do mestiço era muito pouca coisa para pagar tão grande atrevimento. Logo que o cabra se approximou, quiz saltar-lhe em cima e esfaqueal-o; mas esperou, para ver -lhe a intenção. José parecia petrificado. O odio que tinha ao amo, fundindo-se com o desejo de matal-o, nào superava o temor que lhe infundia a presença d'elle. Esteve irresoluto alguns segundos e contando que seu golpe seria certeiro, que o amo, ferido no coração, só accordaria no outro mundo, armou a faca e, pé ante pé, approximou -se da rede. O ferro brilhou no ar e se enterraria no peito do Brilhante, se este, no momento de ser ferido, não pulasse fóra da rede, ligeirocomo um gato.
A surpresade José foigrande, mas o temor da morte dissipou-se e travou -se uma lucta desesperada. Jesuino, a distancia, possesso de raiva, mediu o liberto da cabeça aos pés e gritou-lhe: -Preparate para morrer, cabra. Avançou para elle. O mestiço não se acovardou, recebeu -o na ponta da faca. Cada qual dos luctadores era mais destro. Livravam -se dos golpes que atiravam um para o outro com a maior agilidade. Maria havia accordado e espiava aterrada, do fundo do salão, aquelle duello de morte. A escaramuça durava havia dez minutos. Não se ouvia uma palavra, apenas o som cavo dos passos nas lages do pavimento. Um banho de suor inundava as frontes dos luctadores e parte das vestes voavam em tiras, retalhadas pelasfacas, que a destreza fazia resvalar em tempo. Os golpes, entretanto, já não eram tão amiudados. Os movimentos não eram mais ligeiros como em começo e as respiraçõesprincipiavam a ficar offegantes. A retirante, vendo que a luctanão tinhafim, caminhou para o meio do salão, gritando por soccorro.
A voz de Maria, em vez de esfriar a briga, accendeu a mais. José investiu desesperado contra o amo, correndo -lhe facadas a torto e a direito. Jesuino, com grande presença de animo, não atacava, defendia-se. O libertotinha perdido de todo a calma e o adversario, presentindo isso, aguardava o momento de craval -o. Em uma das investidas, o cabra quasi ė vencedor: a faca passou arranhando o peito esquerdo do Brilhante. Jesuino não viu o perigo e muito menos sentiu a arranhadura do ferro. Quando lhe pareceu chegado o momento de dar o golpe decisivo, investiu como um touro contra o adversario. O cabra, ainda forte, resistiu, mas o Brilhante fez uma negaça com o corpo, no momento em que o mestiço descarregava-lhe um golpe; a faca furou em cheio o ar e, antes de José poder secundar a aggressão, o ferro do inimigo decepava-lhe de um golpe as veias do pescoço. Dous canudos de sangue jorraram e o cabra empinando -se na ponta dos pés, deu um gemido, um urro de bicho; ergueu-se emquanto pôde, inteiriçado, teso, até que, se desequilibrando, pendeu para traz e se estatelouem cheio no chão.
Maria, que tudo vira, e de perto assistia á lucta, quando viu o sangue de José esguichar nas lages da gruta e o corpo baquear, soltou um gritode espanto e perdeu os sentidos. O Brilhante offegava, proximo do morto. Aprasia-se de ver as ultimas contracções da vida nos musculos do rosto do adversario. A morte do mestiço nada era comparada á sua offensa e atrevimento. Jesuino tirar-lhe-ia cem vidas, se as tivesse, e talvez não se julgassevingado. O Brilhantenão ouvira o gritoda retirante, nem vira o desmaio d'ella. Com o coração cheio de odio, entregava -se ao goso da vingança, sa boreando o deleite que lhe dava o cadaver do inimigo dentro de um lago de sangue. O triumpho lhe serenou pouco a pouco o animo e foi então que elleviu, no chão, o corpo de Maria.
Outros pensamentos, outrasidéaslhe suggeriram o desmaio da moça. Em um instante, mudouse-lhe o ar das feições. A catadura feroztransformou -se em cara alegre. Soara afinal a hora da liberdade. Anima do pela esperança de salvação, approximou-se da retirante. Não se lembrava mais da morte do companheiro. Observou a moça, que lhepa receu dormir profundamente. Tinha o sem blante calmo, mas um pouco pallido. Jesuino segurou nos braços de Maria e le vantou-lhe o tronco. Sentiu que o corpo d'ella estava mais rijodo que devia. Soltou-a, e ella tomou a antiga posição. Não dava accordo de si. Não consultou as forçase muito menos pensou nos perigos da Titéla.
Como o preso que se evade depoisde lon. gos annos de carcere, o Brilhantetomou a retirante nos braços e sahiu para a bocca da caverna. A claridadeda fogueira, a que os olhoses tavam affeitos, tornava mais caliginosaa noite. Jesuino nada divulgava em tão densa pretidão. Sentado no batente, com Maria ao collo, esperava que passasseo offuscamentoe podesse veraomenos a sombra do dorso da ponte. A escuridãojá não era tão espessa, já o Brilhante distinguia do negrume, que tudo confundia, o contorno obscuro das rochas e o perfilapagado das arvores. Era tempo; descançou no batente o corpo da moça e desceu para a Titéla. Firmado que foi na rocha, tomou Maria nos braços e com pé seguro atravessou a ponte. A retirantenão dava signalde vida.
Transposto o precipicio, JesuinodeitouMa riano chão, com o maior cuidado, sobreas lages dos contra-fortes da ponte e voltou á caverna. O nevoeiro que tanto escureciaa noite, começava a se resolverem chuvisco, em um chuviscointermittente, que cahia em gottas grossas, fartase compassadas bagas. O Brilhantesentiuquando regressavaáCasade Pedra, alguns pingos d'agua lhe cahirem no rosto, e nem se lembrou de que Maria ficara aotempo. A retirante, deitadade costas, recebia em cheio no rosto os chuviscos e não tardou em sentiros seus salutareseffeitos. A syncope foi sedissipando; o coração, que havia quasiparado, voltavaao rhythmo e compasso normal. Maria tornavaá vida, mas não tornava a si. Quando passoude todo o desmaio, sentou -se, fitou a es curidãoda noite, soltouuma gargalhada, que repercutiupavorosa e agoureira nas covoadas soli.
`tariasda montanha, e poz-se de pé. Por algum tempo esteve immovel, depois acenoucom os braços, articuloualgumas phrases em voz baixa e sahiu correndo para o lado da Titéla. Os passossoaram nas pedras do solo; mas, logo calou-se a bulha e ouviu-se o ruido deum corpo, que cahia, rolandode despenhadeiro abaixo. Maria precipitára-se no abysmo. Corria sem consciencia, de serra a fóra, quando, no fossoda Titélado Perigo, faltou-lhe a terra. O craneo partiu-se logo de encontroa primeirarocha em que bateu; depois, as pernas, osbraços, o tronco se fracturaram nas cristas, nas anfractuosidades do penhasco. A morte havia anniquilado aquellas opulentasformas de mulher, nas quaes o cinzel delicadoda natureza tinha esculpido linhas de uma esthetica admiravel. As saliencias abruptasda pedra reduziram o formoso corpo da donzellaa um embrulho de carnes esfrangalhadase ossos fracturados. A identidade hu mana teria desapparecido daquella massa informe, se não fosse a caveira, que apparecia dentro de uma rede de cabellos negros e longos, que se desgrenhavam, cobrindo a tulha de carne, que lhe servia de pedestal. Assim repousavam, no fundo do abysmo, os restos de Maria, e, por uma fatal coincidenciaao lado de outra pilha de carne e de ossos, de um embrulho humano, que fôra o corpo em que outr'ora viveu e amou o espiritode José.
O Brilhante não tinha conhecimento do que se estava passando. Na caverna, preparava a bagagem para a proxima viagem. Tudo prompto, tratou de retirarda gruta o cadaver do liberto. O corpo do cabra já estava teso como um prego. Jesuino teve repugnancia de carregal-o e amarrando -o pelos pés, arrastou-o até a bocca da caverna. Ahi, depois de estiral-o no batente, com um forteponta-pé atirou-o ao abysmo, dizendo com convicção: -O corpo dos traidoresdeve ser lançado aos urubús. O cadaver rolou, de pedra em pedra, até as profundezas do antro.