Capítulo XXV
Os guias da escolta fugiram logo que o capitãocahiu morto. O sargento, estomagado com os Brilhantes, havia jurado tirar o couro de Jesuino, o que muito agradava ao protectordos Calangros. De facto, todos os diassahiaem diligencia. O valhacoitoda serra do Cajueiro tinha sido visitado e encontrado vasio. Não voltaram mais áquellasparagens; os criminososhaviam mudado de domicilio. Os Calangros tinham horror ao Brilhante. A morte d'elle os alliviariade um peso que os esmagava dia e noite. Andavam sempre a procura de novas de Je suinopara avisar a força e ver se esta o matava. Constou a um d'ellesque o Brilhante tinha vindo disfarçado á casa visitar a familia. Avisadodisso, o sargento seguiu com a força e cercoupelas nove horas da noite a vivenda do Brilhante. Até amanhecer o dia não houve o menor incidente.
Dentro de casa não se ouvia o menor rumor. As sentinellas, sempre alerta, nada ouviram que denunciasse ter sido descoberta a presença d'ellasali. Pela manhã, abre-se a porta da rua e apparece um rapaz ainda imberbe. Os soldados, logo que o avistaram, fizeram fogo sobre elle, suppondo matar Jesuino, que não conheciam. A victima cahe estribuchando nas vascas da morte e os malfasejos, por cumulo de maldade, esmigalharam -lhe o craneo com o couce das armas. A escolta invadiu a sala e a soldadesca começou a obra de destruição. As portas foram arrombadas e violado o aposento em que dormiam a mulher e as filhas do Brilhante. Ahi sem o menor decoro, entre ditos indecentes e insultuosos, espaldeiraram a mulher e as meninas, obrigando -as a correrem a panno de espada.
Apossaram -se do que mais lhes aguçou a cobiça e, para apagar os traços de cannibalismo, deixadosem cada canto, largaram fogo na casa e em todas as suas dependencias. O fogo ardeu toda a manhã, alimentado pelo terral, que soprava fresco. A noticiada morte do Brilhanteespalhouse rapidamente. Os Calangros exultavam de contentes e as velhas da familia cuidavam agora em pagar as promessas feitas aos santos da côrte do Céo pela morte de Jesuino. O commandante da escolta, cheiode sipelo exito da diligencia, mandou transportar o cadaver á casa do delegado onde devia ficar em exposição todo aquelle dia. Acudiram de todas as partes curiosos e inimigos para ver o defuncto. Muitos se chegaram receiosos, talera a fama que o Brilhante havia conquistado em sua vida de criminoso.
Grande era o ajuntamento, quando o delegado, para reconhecer a identidade do assassinado, mandou descobrir o rosto do defuncto. Foi uma decepção: o cadaver não era do Brilhantee sim de seu irmão mais novo, que nunca se tinha envolvido nas lutas da familia. Em pouco tempo se desmanchou o ajuntamento e cada um procurou a casa, receiosode que Jesuino viesse a saber da parte que havia tomado na alegria por sua morte. O velho Soares, inteiradodo occorrido, veiu tercom a auctoridade policial, na presença da quallavrou o mais energico protesto. A energiado ancião e a sua justa colera desappareceram de todo á vista do cadaver do filho amado, do ultimo filho, cujasgraças infantisthe ficaram gravadas n'alma, talvez para conforto dos dias frios da velhice.
O velho, todo piedade, todo amor, abraçouse com o cadaver e chorou com desespero. A criseserenou; as lagrimas alliviaram aquelle coração profundamente ferido e o sertanejo cuidou de sepultar o filho. Inhumado o morto, Soares voltou a cuidar dos vivos. Levou a nora e os netos para sua casa e n'essa mesma noite despachou um portadorpara a Casa de Pedra com uma carta a Jesuinoem que lhe narrava com a maior ver. dade os tristesacontecimentos d'aquella manhã. O Brilhante dormia em companhia de José no grande salão de sua fortaleza. Um fogo valentearrancava das paredes de pedra fulvas scintillaçõesde incendio. Apesar do calor da fogueiraa atmosphera era tão fria que doia na pelle. Ali dentro quasi nada se ouvia do que se passavalá fóra. Jesuino, que pretendia adivinhar, nada presentiudoque se tinhapassado. Adorme cera sem cuidados. Pela madrugada despertou ao som agúdo de um buzio. Era alguem que vinha da parte de seu pai. Respondeu arremedando o toque que ouvira, e o liberto sahiu para a Titéla. Um instante depois voltava José e en tregava uma carta ao Brilhante.
siva. Jesuino approximou -se do fogo e leu a misEm um instantea sua physionomia, pouco antes tão calma, se transformou de todo. As feições, em uma decomposição medonha, não eram menos aterradoras do que a expressão dos olhos, de uma ferocidade indescriptivel. O liberto, acostumado com as coleras de Jesuino, d'esta vez estranhou -o e teve medo. Não parecia um homem, parecia um demonio. Depois de ter rangido algumas vezesos dentes, disse o Brilhante: -Estou inteirado, dize ao portador que volte. E com a cara, cada vez mais fechada, pensava em vingar-se dos inimigos, mas de um modo barbaro e cruel. Reflectiualgunsminutos, e resolvido a partir, levantou-se, e fitandoo liberto, ordenou -lhe:
-Toca reunir na ponta da Titéla, vai de poiscom Pajehú prepararcavallosparatodos. José sahiue segundosdepois o som agúdo do buzio soava monotonamente pelas covoadas da serra, repercutindode penedo em penedo até se perder de todo. Jesuino preparava as armas e as munições. Antes de uma hora o buziodava signalao chefe de estarem cumpridas as suas ordens e o Bri-lhante sahia a reunir-se aos companheiros. Todos armados de bacamarte e punhal e bem montados partiram, dous a dous. Jesuino fechava com José a columna. Ia montado no Exhalação, um animal cardão de estatura mediana, esguio como um galgo e agil como um gato. N'elle o Brilhante fazia prodigiosde ligeirezae mesmo grandes teme ridades. Montado no Exhalação havia passado diversasvezes a Titélado Perigo e não tinha perdido a esperança, dizia elle, de entrar no seu querido cavallo no salão da Casa de Pedra.
O animal parecia entender o dono. A marcha d'elleera mais uma dansa do que trote ou outro passo qualquer. Pisava subtil e na ponta dos cascos. O Brilhante apostava a cabeça com quem conseguissepegar no freiodo Exhalação, cavalgando -o elle. Cobra -Verde, que era ligeirocomo um gato, escapou muitas vezes de morrer a couces, sahindo de repente da emboscada para agarrar as redeas do cavallo. Quando o mulato suppunha segurar o freio, já tinha nas mãos a anca do animal, e uma serie de violentos couces o afastava para longe. O sequito seguiu até os arrabaldes da po voação, onde a força estava acampada. Arranchou-se em lugaronde facilmentenão podesse ser visto. Cavallos e cavalleiros se metteram dentro de uma cadeia de escarvadas rochas vermelhas, um enorme e deshabitado formigueiro, e bem escondidosahi esperavam que o chefe lhes dissesse o que deviam fazer.
Jesuino durante toda a viagem conservouse mudo. Tinha as feições tumefactas e os olhos dentro de uma rede de fios de sangue. A carta do pai deixara-lhe o espiritoenfermo, talvezpara sempre. O velho relatára -lhe tudo com verdade rude e concluira a narrativa levando á conta dos desvarios do Brilhante todas aquellas desgraças. Jesuino sentia-se devorado de um desejo vehemente de vingança. A mania do crime tocava ao paroxismo. O que o exasperava, atéa allucinação, era o aviltamento da mulher e das filhas. Quando pensava n'isso, rosnava como a onça faminta n'um repasto de sangue. O prejuiso dos bens devorados pelo incendio e a morte do irmão não o molestavam tanto como as pranchadas dadas pelos malfasejos na mulher e na prole amada.
Para vingar -se de tão grande affronta, matariasem piedade até os ultimos descendentes dos soldados que lhe deshonraram o lar. Com este proposito, logo que descansaram um pouco, Jesuino ordenou a José que fosse ao quartel da força do governo e ahi insultasse a sentinella, matasse -a e depois voltasse ao rancho. O liberto cumpriu fielmente as ordens. Ouviu -se o estrondo de um grande tiroe, minutos depois, escalavaJosé os barrancos do acampamento, perseguidopela forçado governo. Os soldados, que vinham adeante, mal trepam nas primeiras rochas, são recebidosa bala e cahem todos, uns mortos e outros feridos. Che gou novo reforço, mas a mesma sorte os espe rava; osBrilhantes, do fundo do barranco, fazem fogo e com a melhor pontaria. Cadaveres e baleados rolam de encosta abaixo e vão levar assim o panico ao espiritodo restoda escolta, que se approxima do logar em que a morte 05 espera.
Morto o sargento, a força sem commandante e desbaratada voltaao quartel, deixando no campo mais de quinze companheiros entre mortos e feridos. Os soldados amedrontados fecham -se na casa em que estavam aquartelados, em quanto Jesuino e o seu sequito se apossam das armas das victimas, acabando de matal -as com a maior crueza, surdos aos rogos dos feridosque supplicam de mãos postas que os deixem vi ver. Nada commove ao Brilhante, que, com uma fereza que horrorisa e revolta, responde ás supplicas dos baleados esmigalhando-lhes o craneo com o couce do bacamarte. Naquella sêdede sangue, naquelle deliriode matar, tirariaa vida a um exercito, mataria emquanto tivesseforças, emquanto o alentasse um sopro de vida.
Suppondo ter morto até o ultimo soldado, voltou o Brilhante com os companheiros para a Casa de Pedra, quasi ao morrer do dia.