Capítulo XV Os Brilhantes · Capítulo 15 de 48
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Capítulo XV

FranciscoCalangrofugiuaterradoegalopou até chegar ao seio de sua familia. A noticia do assassinato de Honorato cahiu como uma bomba no meio delles. As mulheres choravam e os homens praguejavam; alguns d'elleseram de opinião que fosse a affronta desaggravada em quanto o cadaver do parente estava sobre a terra. Outros, porém, opinavam pelo restabelecimentode Francisco Calangro, que, na chefiado grupo, marcharia contra os Soares para vingar a morte de Honorato. Assentou -se finalmente isto, e mais a reunião de todosos homens da familia, maiores de dezoito annos, logo que o feridose restabelecesse. Marcado o dia e logar do ajuntamento, um domingo e a casa de um d'ellesque mais conveniente fosse á todos pela distancia, trataram de preparar os fatos de coiro e azeitar os bacamartes.

Aquelles preparativos de lucta enchiam -lhes o espirito de contentamento. Estavam na indole d'ellesos desabafos, as vindictas, por isso no dia aprasado nenhum faltoua reunião. Co meçaram a chegar logo cêdo e, pelos trajese arreios, via-se que possuiam alguns bens de fortuna. Os mais arranjados, por fanfurrice, eram acompanhados por dous vaqueiros, ou antesdous pagens armados que, ao apear, tomavam conta das cavalgaduras. O pateo da fazenda ficou em breve coalhado de cavallosque, peados, pastavam á vontade. A sala de visita e o copiar estavam apinhados de gente. Os mais velhos tinham, pelo jús da idade, uma rêde, e sentados nella embalavam -se fumando. Os rapazes acocorados reuniam-se em grupos aqui e alli, e conversavam, sendo o assumpto o mesmo em todas as rodas: façanhas nas vaquejadase noticiade gados sumidos. No chão riscavam o ferro da rez de que pediam ou davam novas.

A atmosphera da sala, impregnada desse tabaco usado no sertão, com todas as suas qualidades nocivas, embebedaria a todo vivente, que não fosse fumador. O fumo de corda com todos os defeitos da viciosamanipulação sertaneja, era consumido por aquelles homens de modos differentes. Não era sómente o fumo queimado nos caximbos, o fumo torrado reduzido a pó, que sorviam em grandes pitadas, o viciod'elles; era ainda a mecha, a estupida e nojenta mecha de fumo, bem tesa e molhada de cuspo e introduzida de ventas a dentro, deformando o nariz e per vertendo o olfacto; era, emfim, o pernicioso costume de mascar fumo! Algumas dezenas de boccas mastigavam fumo e cuspiam pelas paredes, por entre os limados incisivos, em finos esguichos, que se evaporando deixavam a parede tinta e fetido o ar.

Em todo aquelle ajuntamento não se en contrava um só individuo que não usasse o fumo e de mais de um modo. A vida sem o tabaco não tinha para elles razão de ser. Consideravam -no como remedio de varias molestias, antidoto do veneno das cobras, agenteprophylacticode males epidemicos e especifico do quebranto. Convencidos de tudo isso, ninguem conse guiria proscrever o uso do tabaco tão arraigado entre elles. A questão que os reunia aliseria discutida na occasião da mesa. Uma vacca nova e gorda tinha sido abatida e preparava -se com ella uma grande comezaina. Dous garrafões de aguardente regariam a refeição. Ao meio dia foi servida a comida. Alguns alguidares grandes de pirão escaldado fumegavam ao lado de outros tantos de carne aferventada. A sucia de matutos sentou -se á mesa. Cada qual arrancou da cinta a sua faca de ponta e completando o talhercom os dedos, serviam-se brutalmente de carne e de pirão, comendo com uma gula de porco. Aquelles estomagos valentes, sadios, suppriam o defeito da mastigação imperfeita, pela pressa que tinham de encher a barriga. Comeram, até a saciedade. Os ossos ficaram limpos, mas havia ainda n'ellesalguma cousa a aproveitar, que lhes servisse de sobremesa: era o tutano. Quatro dos mais gulosos arregaçaram as mangas da camisa até os cotovellos e empregaram a força de seus musculos a bater os corredores.

A descarga de choques produzida pela pancada do ante braço da mão que segurava o ossosobre a palma da outra, despregava o tu tano, que cahia dentro do alguidar. Em pouco tempo o vaso ficou cheio pelo meio d'aquella gorduraamarella, que já começava a coalhar. Pediramalgumas rapaduras, que rasparam, misturaram -nas com o tutano e todos comeram com bom appetite aquelle doce de sebo. A refeição terminou pela aguardente, que foiservida a todos, um a um. aAntes de deixarem mesa, pozeram as mãos e rezaram, de pé, dando graças a Deus pelopão d'aquelledia. Seguiu se immediatamente a discussão sobre o melhor plano de tirara vida ao Brilhante, a seu irmão João e a seu cunhado Silvestre. Todos fallavam tão animadosque não parecia terem o estomago a estourar de cheio. Mais de trinta homens a berrar, a lançar os mais vis improperios á fa miliaSoares, foi o que fizeram durante uma horainteira. Esgotado o vocabularioimmundo, ficouassentado, entre elles, que todos os que fossem solteiros, dos que estavam presentes, d'ahia cinco dias acompanhariam Francisco Ca langroe com elleiriam vingar a morte de Honorato; que esta resolução, para que os não accusassem de traiçoeiros, seria tres dias antes da lucta escripta a carvão na porta do Brilhante.

Concordes todos, dissolveu-se o ajuntamento ao som de gritos. -Morram os Soares! . . . morram os malvados! . . . morram os assassinos! . . . 715764

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