Capítulo XVI Os Brilhantes · Capítulo 16 de 48
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Capítulo XVI

Uma espiral de fumo subia e se emmaranhava na copa verde -escuro da matta virgem. A folhagem esbatia a fumaça, que seguia uma linhaverticale, sem vento que a desviasse do rumo, chegaria em breve ao céo. O soldes pedia-se da terra, as derradeiras ondulações esmoreciam de todo no valle. As cristas dos oiteiroseram illuminadas ainda por um clarão baço de incendio, a claridade crepuscular, o ultimo adeus do dia, que além, muito além, desapparecia na fimbria do horisonte. A visinhança da floresta mais soturna fazia a tarde, já por si triste, de uma monotonia do. lente. O esmorecimento da luz, a transiçãopara as trevas, tudo se havia calado, até a viração que soprava, como se o menor rumor, o mais leve ruido perturbassea natureza em seus primeiros momentos de repouso. O silencio dominou tudo por alguns instantes.

A crise passou em breve e a vida, como acordandode um desmaio, manifestou-se; ouvi ram -se as notas dos cantos das aves nocturnas, o zumbir dos grillos e o coaxar das ras. Dir-se-ia deshabitada aquella solidão se o fumo de um lar não subisse ennovelando se nos ramos das arvores seculares. Pela estrada que ladeava um dos flancos da matta, vinha um homem a cavallo, vestido de couro e armado de bacamarte. Seguira até enfrentar-se com a bocca de estreita vereda, que entrava em zigue-zague de matta a dentro. Deixou a estrada e tomou a tortuosa trilha. Caminhou cerca de tres kilometros, sem ver onde o cavallo punha os cascos, tal era a escuridão da matta; apenas de quando em vez a luz es verdeada dos pyrilampos brilhavae se apagava no espaço. A vereda findava no pateo de um casebre de palha. Dentro ardia um fogo, cujo clarãovermelho se espalhava a pouca distancia.

Uma porta de talos de carnahúbeira dava entrada ao casebre, que não tinha compartimentos: era um vão só e pequeno. O viajante parou no terreiro e exclamou: -Oh de casa! . . . Ao som da voz ergueu -se o vulto de um homem, que estava acocorado ao pé do fogo. Era um preto bastante velho, nojento e maltrapilho. O negro dirigiu-se para a porta arrastando os pés. -Quem vem? -Sou eu, pai Mané. Vossuncê quem, mê branco? Francisco Calangro. -Eh bem, esta hora? ! E ' negocio. -Eh bom, vossuncê pode vir. O sertanejoapeou-se e depoisde prender as redeas do cavallo na parêde entrou no casebre. O negro fitavao hospede com um olhar investigador. Os seus pequeninos olhos, cujo iriş estava em parte velado por um debrum cinzento, tinham vivas as pupillas, que scintillavam dando ao rosto uma expressão feroz.

Francisco Calangro estava calmo em presença d'aquelle homem rombo e quasi bestializado. Dos sentidos do matuto apenas um se impressionavamal ali, era o olfacto. Aquelle ar, tão puro lá fóra, estava impregnado no casebre de um fedor de anum, que embebedava. Quanto mais se movia o negro mais fetido se tornava o ambiente. O matuto disse ao africano o motivo de sua visita e teve em resposta: -Eh mé branco, fecha corpo de fogo, de agua, de bala, de faca, mas custa pataca boa, um patacão, uma cousa. -Sim, pai Mané, pago bem, quero o negocio bem feito. Dou os quatro patacões; quero é que no meu corpo não entre nem bala, nem faca, nem se queime e nem se afogue.

-Eh bem fechadinho fica. Espera, senta ahi em pilao que vai fazer arranjo. O africano moveu -se com difficuldade e foi ter a um dos cantos da sala onde estava um cassud cheio de diversos objectos velhos de seu uso. Tirou de entre elles uma pequena combuca e desta um saquinho de couro encardido e sebento, e despejou o conteúdo na fralda da camisa suja. Algumas duzias de besouros, uruds, folhas seccas, ossos e raizes cahiram no panno. Manoel do Congo com olhar penetrante de cobra, mirava a miscellanea. D'aquelles specimens retirou quatro, dous vegetaes e dous animaes, e depois recolheu ao sacco o que ficara na fralda e aquelleá combuca, que poz no cassud. De posse dos ingredientesda mandinga, se approximou do fogo e pol-os a ferver em agua n'uma cafeteirade barro, guardada no caritósómente para aquelle mister.

Prompto o cosimento que despejou em uma pequena cuia, o negro sahiu para o terreirodo casebre, voltando minutos depois com um grande galho de pinhão e um raminho de arruda. Com todos os aprestosdo sortilegio, Manoel do Congo ordenou ao Calangro que se despisse. O matuto, quasi tão rombo como o africano, e tào crente como elle n'aquellas bruxarias, tirou a roupa, muito convencido de que era necessario expôr toda a pelle ao fetichistaafim de ser preservada de todo mal. A luz vermelha da fogueira resvalou na figurado sertanejo, que em completa nudez aguardava as ordens do feiticeiro. O negro muito senhor de si e sem a menor artimanha entregou a cuia da beberagem ao matuto ordenando -lhe que bebesse.

Francisco Calangro não hesitou, poz na bocca e enguliutudo em poucos tragos. Achou o liquidoamargo, travoso, acre; mas, nem por um gesto mostrou a má impressão que recebêra o seu paladar. O africano mandou que ellese deitassea fiocomprido no chão. Obedeceu. Era feia a pos turaresupinado sertanejo, allumiada agora não sópela chamma da fogueira, como pela luz de quatrovelas de cêra de abelha que ardiam, duas a duas, aos lados da cabeça e dos pés. O acto começava funebre como uma encommendação de defuncto. O africano, de pé na cabeceira do matuto, se conservava calado, immovel, tendo na mào direita o raminho de arruda e na esquerda o galho de pinhão.

Pelo olhar fito em cheio no rosto do matuto, parecia que o negro se orientava, esperando momento opportuno para começar a ceremonia. Francisco Calangro não se movia; os olhosha via pouco arregalados, desappareciam pouco a pouco dentro das palpebras, que se fechavam. As faculdades intellectuaes se embotavam e a luz se lhe apagava dos olhos. Sentiu a vista escurecer e um esmorecimento geral relaxar -lhe a forte musculatura do corpo. O ultimo gole da beberagem como se fossechumbo derretido, deixara-lhe a garganta torrada e em afflictivaseccura; procurava humedecel -a com saliva, mas a bocca toda secca, nada vertia, e a sede intensa continuava sem esperança de termo. O estomago nauseado augmentava o desequilibrio, esfriando as extremidades do corpo e trazendo ao paciente uma agonia que o traspassava.

O coração por sua vez participavada influencia do veneno que invadia o organismo inteiro, e perdendo a força, custosamente impellia o sangue de vasos á fóra. O matuto, sem dar accordo de si, ficarianaquelle estado até que a venenosa beberagem lhe sahisse do corpo. Manoel do Congo pensava com a maior phlegma que o sertanejo dormia placidamente e começou a ceremonia. Cantarolava na sua lingua, rodeando o corpo a passo lento e agitando para o ar os ramos que tinha nas mãos. Depois de tercantaroladomeia hora, sempre caminhando á roda do matuto, parou á cabeceira do Calangro e, acocorando se, soprou -lhe no rosto todo seu halito quente e fetido; apagou uma das velas, ergueu -se e continuou a cerimonia. Outra meia hora gastou na segunda cantarola, que terminou do mesmo modo. O acto concluiu-se com o apagamento da ultima vela.

O sertanejo continuava sem dar accordo de si. Sabia -se que vivia pelo curto resfolegar. O africanoalimentou o fogo, quasi extincto, e voltou ao lado do corpo. Olhou-o com at tenção. A syncope continuava. O negro receioso de ter fechado para sempre o corpo do Calangro, fez-lhe cocegas nos pés por algum tempo e soprou -lhe com força nos ouvidos. O mestiço estremeceu. Manoel do Congo animou -se e, agarrando-o com força nos braços, solevantou-o. O matuto abriu os olhos e deu um profundo suspiro. Acordou, aparvalhado, olhando sem consciencia. Tinha o corpo todo frioe humido, e as pupillastão dilatadasque lhe tomavam quasi o preto dos olhos. O africano ergueu -o até polo de pé. A custo conseguiu equilibral-o. O sertanejofoipouco a pouco tornando a si, reanimando -se; o calor voltouá pelleresfriada. O que continuavaa mortifical-o era a vista, que não se tinha restabelecidode todo, a cabeça que lhe andava á roda. Os ouvidos lhe zuniam e o corpo não tinha o preciso equilibriopara se conservar de pé sem tombar.

O africano tendo pressa de receber o pagamento, disse ao sertanejo que se vestisse, e que podia de agora em dianteentrarnas luctasque quizessesem receiode ser ferido, nem de leve. As palavras do feiticeirochamaram á rea lidade da vida aquelle ser supersticioso e embrutecido, que acabava de expôr miseravelmente a existenciaaos caprichosda mais chata ignorancia. Francisco Calangro vestiu-se e pagou com satisfação o fechamento do corpo. O frio da noite e uns restosde desfallecimentoque lhe deixara a beberagem do negro reclamavam um estimulante, e o matuto pediu instinctivamente aguardente, que o preto deu com usura. Bebeu, e sahindo do casebre, tomou o cavallo e voltou á casa, inteiramenteconvencido de que estava com o corpo fechado.

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