Capítulo V Os Brilhantes · Capítulo 5 de 48
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Capítulo V

Era domingo, dia de feira na villa. O sol nascente deixava perceber a azafama da população. O mercado era um quadrilatero encravado no centro do povoado, com todas as faces dentro da area de uma grande praça. Os angulos se fechavam quasi sobre a fachada do barracão, que, levantado em columnas de alvenaria, for. mava um casarão de grande tecto no meio do polygono. Esse espaço, sem divisõesde paredes, ladrilhadode lages toscas, já estavaáquella hora apinhado de saccas de farinha, de malas de rapaduras, de milho, feijão, cereaes e legumes, que os roceiros mais cubiçosos, na esperança de melhor collocação, tinham trazido desde a vespera. As quatro faces do mercado eram formadas por tavernas e açougues, com portas parallelas que se abriam para a rua e para o barracão. Empilhadas nas calçadas dos alpendres estavam dezenas de cangalhas, e sobre ellas grossas rodilhasde cabrestosde couro.

A praça, completamente nua de arvores, mas toda coberta por um tapête verde de capim de burro, era pasto de algumas dezenas de cavallos e eguas, que, peiados, descansavam da carga aparando custosamente a gramma, cuja haste curta difficiltornava a apprehensão. De quando em vez, uma serie de rinchos, lascivos ou de desafio, reclamava a presença dos rocei. ros, que iam ao pasto e pouco tinham que fazer, porque as peias impediam de algum modo os desabafos da colera ou os assomos da sensualidade. Nem sempre os donos das cavalgaduras se retiravamdepois de uma simples acção de pre sença. Não era raro um cavallo fogoso, excitado pelavistade luzidas eguas, quebrar a peia, e soltandorelinchos voluptuosos, revolucionara praça inteira.

Era então um fervedouro dos demonios. O animal corria de cauda erguida, a distribuira torto e a direitopatadas, couces e den. tadas, no meio dos applausos dos feirantes. Todos riam e batiam palmas, excepto o dono do garánhão, que esbaforido corria atraz do bruto, procurando laçal-o. O espectaculo terminava sempre com a prisãodo cavallo, que, para tranquillidadedo dono, era peiado de tres pés. A feira, á proporção que o dia alteava, ia-se animando com a chegada de novos comboieiros, que traziam mais generos para augmentar no mercado o numero e os specimens. Uma grande variedade de bugigangas, todas nacionaes, sertanejas, enchiam cestas e balaiossobre as côxas das mulheres que as mercavam.

Ao lado destas estavam as confeitarias ambulantes. Grandes taboleirosde pinho, repletosde pires e chicarasde arroz doce, pés de moleque e alvas tapiocasde coco em pequenas pilhas, desafiavam a guloseima dos feirantes. Debaixo dos alpendres fumegava a cosinha da feira. Grandes panellasde barro, montadas em trempes de seixos, ferviam sobre um fogo valente, que, de quando em vez, atiçava a quitandeira, temendo que á hora do almoço não estivessebem cosida a panellada. A 'pouca distancia das panellas, descançavam pequenas tulhas de pratosde louça, fundos, bem limpos, tendo dentro do ultimo algumas colheres cujo galvanismo de estanho, em parte destruido, deixava ver o ferro em alguns logares.

Estava quasi prompta a refeição que seria vendida aos feirantesa quatro vintenso quinhão. Nos açougues e tavernas formigavam os compradores. Os vendelhões, em constante movimento das prateleiraspara o balcão, serviam á freguezia, que, antes de tudo, faziaas manhãs, tomando goles de aguardente. Os carniceiros eram todos homens de grande porte, cabras de feia catadura e cabelludos como ursos. Parece que tinham sido escolhidos a dedo para semelhante officio. Casavam bem aquellas figuraspatibularescom a carne sangrenta, que picavam a machado sobre grandes cepos de cajueiro. O som do ferro a cortar os ossos ou a fractural-os impressionava desagradavelmente a todo ouvido que não estivesse affeitoa semelhante ruido. Para ser-se attingidopor uma estilha de osso ou por um dedal de tutano não era preciso passar nas immediações do talho.

O machado, impellido pelo braço possante do carniceiro, sacudia estilhaçospor toda a area do mercado. Avaliava se a gana dos mercadores pelos seus pregões. Era uma gritariade ensurdecer. Berravam, enumerando as suas bugigangas, gabando -lhes as qualidades e os preços. Já a camara tinha adoptado o novo systema de pesos e medidas. O povo submettera -se depois de alguma reluctancia. Era prohibido comprar ou vender pelos pesos antigos, sob pena de multa e prisão. Havia mais de tres mezes que se tinham aferido os metros, os kilogrammas e os litros, e os vendedores não comprehendiam ainda o seu valor. Raro era o matuto que pronunciava o nome das novas medidas; a maioria apregoava carne gorda a dose vintens o tilo; farinha da melhor a vintem o nitro; fumo de corda a duas patacas o neto.

A camara municipal, a cujafrentese achava um individuo de alguma cultura, mas politico dos mais exaltados, fasia observar rigorosamente o systema metrico, não por amor a elle, mas pelas perseguições que poderia mover contra os adversarios, muitos dos quaes eram negociantes abastados. Com esse fim, os fiscaes madrugavam no mercado nos dias de feira, e em constanteazafama, percorriam todas as tavernas; ai do taverneiro que tivesse um peso ou uma medida das antigas sobre o balcão! Essavigilancia, entretanto, não impediaque a vara, o covado, a terça e a libra dessem serviço. Sertanejos havia que passavam quasi o dia inteiro, aguardando o momento opportuno de illudira vigilancia dos guardas municipaes, até que venciam, comprando pela medida antiga.

Pedro Jurema já tinhamandado prometter uma visita aos pacificos e laboriosos habitantes da villa, visita que ia sendo adiada em consequencia das luctasque, quasi diariamente, travava, e das deserções, frequentes em suas fileiras. Mesmo assim, contava o seu bando mais de cem homens, bem municiados e montados. Atacava os povoados de preferencia nos dias de feira, porque a rapinagem era maior em consequencia do ajuntamento dos roceiros. Jurema preparara -se de vespera, e decidido a atacar a villa na occasião da missa conventual, deu suas ordens nesse sentido. Do seu valhacoito ao povoado, tinha que andar cerca de cincolegoas, por inviasverêdas, algumas das quaes serpeavam nas cristasde agudos alcantis.

Já dia claro, o caudilho mandou tocar reunir, distribuiu munições e aguardente, fez embalar as armas, e tudo prompto para o assalto, desfilou o bando. Iam todos a cavallo, um após outro, o chefe no centro da longa fila, formando com dous dos mais destemidos facinoras uma fileira de tres. Jurema marchava orgulhoso como um general á frente de um exercito vencedor. O mestiço montava admiravelmente bem. Empinava -se na sella, conservando o tronco têso n'uma rigorosa vertical, Os bicos des sapatosmal tocavam nos grossos estribosde prata. O cavallo, um grande animal negro de oitopalmos de altura, orgu lhosodo cavalleiro, pisava subtil sobre o terreno accidentado, com passo baralhado, como se marchasse em uma estrada de macadam.

O brioso corsel não precisava das espóras, que por luxo somente traziao caudilho, espóras de grande preço, adquiridas, como todos ricosjaeses, que cobriam a cavalgadura, nos repetidossaques aosfasendeirosd'aquellasparagens. OS Jurema vestia uniforme completo de couro de veado, trasia á cinta um punhal dentro de uma bainha de prata e a tiracolloum bacamarte bocca de sino. A figura bronzeada d'aquelle homenzarrão armado até os dentes, com olhar de féra e catadurade malvado, inspiravahorror a quem a fitasse. A um signal do caudilho, o sequito parou a dous kilometros da villa. Acamparam allio tempo necessarioá viagem do espião, que tendo ido ao povoado, em trajesde roceiro, voltou a informar do que por lá se passava.

-Estão na feira, patrão. -Muita gente? -Povo como formiga. --E corre dinheiro? Cobre como terra. Que força tem? -Quatro soldados empalemados de cachaça, e tão decadentes que eu só dou conta delles. --São tropa de linha? Qual, meu amo, são mata cachorros. -E a missa, em que altura vai? --Tocou, quando lá estive, a segunda eme disseramque o padre sobe para o altarás onze. O caudilho, satisfeitocom as informações, mandou que o espião se preparasse, e deu as suas ordens: -0 Chico Barulho, com a sua gente, faz o serviço dentro do mercado na forma do costume; Zé Bogalho e os seus guardam os cavallos e ficam de sentinellapara dar aviso de qualquer soccorro, que possa vir; o Pajehú, com a sua companhia, rondará por fóra da feira, deixando sahir, mas não deixando ninguem entrar;

eu, com os meus guarda-costas, visitareios amigos ricos do logar. São estas as ordens; em caso de resistencia, fale o bacamarte. Aquelle que não mostrar coragem será morto immediatamente pelos companheiros. Ditas estas palavras, Jurema fez ouvir tres vezes um grosso apito, e o sequito partiu a galope em rumo da villa. A missa havia entrado, o vigario entoava ainda o confiteorquando os Quebra-Kilos assomaram ás portas do povoado, Em frente do mercado se dividiu o sequito, cumprindo fielmente as ordens do caudilho. Os feirantes, completamente absorvidosem suas negociações, não deram pela chegada dos malfeitores e só se aperceberam da situação quando se viram cercados.

Quviu -se um grito unisono e geral, sahido de centenas de boccas, e logo abafado por um ruido cavo, em que se fundiam sons de todos os timbres e alturas. Os bandidos entraram no mercado em uma algazarra infernal. Os metros eram quebrados nas costas dos taverneiros, que, temendo a furia dos cannibaes, abandonavam as lojas; estas, uma vez á discreção dos malfeitores, eram saqueadas. As medidas de madeira eram espedaçadas na cara dos roceiros com uma crueldade que revoltava. Os pesos eram arremessados a esmo sobre a massa inerme, que, acovardada tremia, e lançavam por terra, lavada em sangue, a cabeça, que alcançavam. Pouco a pouco se dispersava a massa popular, que o dia de feira reunira. Fugiam, deixando os seus haveres, e muitos, toda a fortuna aos bandidos, que, alem de os roubarem, por cumulo de malvadeza, os espancavam.

A confuzão e o clamor dentro e fóra do mercado eram indescriptiveis. As creanças, os velhos, os invalidos e os enfermos eram atropelados pela turba-multa que fugia, acossada pelos projectisarremessados pelos saqueadores. Corpos humanos rolavam pisados pelos que se evadiam de mercado a fóra. O gritode alarma -- Quebra -Kilos, repercutia em um instante nos quatro angulos da villa. A ' matriz já chegava a nova; o povo, de joelhos, pedia a Deus misericordia, e o grande sino do campanario soava alarmantes dobres. Jurema, emquanto os companheiros se apossavam do commercio, saqueando o mercado, depennava os abastados, forçando-lhes as gavêtas e roubando -lhes todas as economias.

A população da villa se refugiou toda no templo deixando entregues á sanha dos bandidos suas casas e haveres. Corria o assalto para os Quebra -Kilossem o menor incidente, quando se ouviu repercutirnos mais visinhos outeiros o echo vibrante de uma cornêta. Aos malfeitores do mercado, embebidos no saque e pesados de aguardente, passava despercebido o agudo som marcial, que mais audivel se tornava. O caudilho, porém, ouviu do remanso onde roubava, o toquedo clarime suppoz ser uma medida estrategicada população para fazel-os fugiramedrontados. Continuava a tarefa, sem ter quem o incommodasse, quando o som forte da cornêta e o tropel de homens e cavallos levaram ao seu espirito a certeza do perigo. Espreitou e viu, nào os quatro empalemados policiaesda villa, mas uma forçade sessenta praças de linha, mais ou menos, commandada por um capitão. Estava perdido, tinha o duplo da força, mas indisciplinadae com peiores armas. Resistir seria uma loucura. Jurema resolveu pôr-se a distancia, para melhor orien tar-se, e mandou que os seus guarda -costas fos.

sem avisar os companheiros da situação perigosa em que se achavam. Ainda o caudilho não transposera um kilometro fóra da villae mal reuniam-se os bandidos na praça do mercado, já se ouvia uma detonação de fuzilaria; eram elles, respondendo com tiros a intimação da força, que acabava de cercal-os. Em seguida outradetonação, e desta vez, era a força de linha que os varria com uma descarga, deixando muitos mortos e prendendo os restantes, quando fugiam. VI Recolhidos á cadeia publica os Quebra-Ki los, presos no mercado, e enterrados os mortos, abriu-se uma devassa, cujofim não era a punição dos sediciosos, mas perseguir os adversariospoliticos dos mandões da villa.

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